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Sustentabilidade

Saúde no campo, no prato e na educação

Estudantes têm contato direto com cultivo de alimentos e aprendem sobre agricultura familiar como mais uma possibilidade para um futuro profissional com qualidade de vida

  • Maior parte dos alimentos consumidos pelos alunos vem da agricultura familiar
    Foto: Carine Dorr/Especial
  • Maria Beatriz Führ faz parte de uma das famílias de agricultores de Ivoti
    Foto: Gabriela da Silva/GES-Especial
  • Estudantes têm aulas sobre empreendedorismo rural e cooperativismo
    Foto: Gabriela da Silva/GES-Especial
  • Alface colhida pelos alunos vira salada na hora do almoço
    Foto: Gabriela da Silva/GES-Especial
  • Alimentos para merenda são entregues pelos próprios produtores locais
    Foto: Gabriela da Silva/GES-Especial
  • Alface colhida na horta é usada no preparo de refeição para os estudantes
    Foto: Gabriela da Silva/GES-Especial
  • Alunos aprendem a plantar e cuidar de horta
    Foto: Gabriela da Silva/GES-Especial

Da horta junto ao pátio do colégio, Pâmela e Nícolas colhem as alfaces para a salada que será servida no almoço daquele dia na Escola Municipal Nelda Julieta Schneck, uma das três Escolas do Campo de Ivoti. Ali, os alunos plantam, colhem, aprendem e consomem os legumes, verduras, frutas, temperos e chás que ajudam a cuidar. “A gente sabe que não está comendo coisas com agrotóxicos e é bom a gente aprender, porque se um dia quiser fazer uma horta na nossa casa já vai saber como cuidar dessas plantas”, diz Pâmela Feiten, ao lado do colega Nícolas Backes, ambos com 11 anos. Os pés de alface escolhidos pela dupla saem direto da terra para a cozinha, onde as merendeiras limpam e preparam os alimentos para a refeição dos estudantes. 

As práticas agroecológicas fazem parte do currículo das turmas. “Incentivamos o plantio orgânico, hoje em dia se usa muito agrotóxico. Na escola, a gente entende que o sistema precisa ser mais sustentável, para que eles possam ter esse entendimento de que é possível produzir, mas de uma forma mais saudável para o meio ambiente”, destaca a coordenadora pedagógica Carine Dorr. Para os cuidados com os canteiros, as escolas contam, há três anos, com o reforço do técnico agrícola Clênio Cassol, que aponta com orgulho as variedades cultivadas nesta época do ano. “Tem verduras, alface, beterraba, rabanete, brócolis, espinafre”, cita, lembrando que o espaço é dividido em horta, pomar, plantas medicinais, temperos e jardim. É junto com ele que os alunos arregaçam as mangas e colocam as mãos na terra. “Mesmo que eles não fiquem na agricultura, podem ter uma árvore frutífera nos fundos do terreno, podem ter uma hortinha, podem ter chá para tomar em casa”, observa Cassol.

Além de português, matemática e as disciplinas comuns a qualquer escola, os alunos aprendem ainda sobre empreendedorismo rural e cooperativismo. “É uma forma de valorizar e permanecer mais tempo no campo, dando continuidade ao trabalho familiar. Não como forma de limitar, mas fazer com que o aluno possa enxergar possibilidades de permanecer no meio rural, com qualidade de vida e gerando renda. A gente tem ex-alunos que estão sucedendo seus pais, assim como outros que estão fazendo faculdade, estudando fora”, comenta Carine.

Cada pé de alface colhido pelos estudantes é mais do que um gesto, é a alimentação saudável no prato, a valorização da produção orgânica e um incentivo à autonomia e à formação de protagonistas em suas comunidades. “A ideia é dar subsídios para que eles possam interagir de forma diferente, exercer mais liderança, conseguir as coisas básicas, entender que ficar em casa reclamando que o poder público não faz nada não adianta, a gente precisa ir atrás. A gente discute isso muito, de que forma podemos ajudar para que alunos consigam colocar em prática essa autonomia, para que não dependam da escola, do político, de quem quer que seja”, enfatiza Carine.

Sobre as Escolas do Campo

As Escolas do Campo de Ivoti trabalham com uma formação conjunta. Além da Nelda Julieta Schneck, que atende alunos do 6° ao 9° ano, fazem parte desta rede a Olavo Bilac (educação infantil, 1° e 2° anos) e a Nicolau Kunrath (3° ao 5° ano). Ao todo, as três têm cerca de 100 estudantes matriculados atualmente. Em 2007, as escolas lançaram o Projeto de Chás, que marcou o início das hortas e canteiros, feitos com ajuda das famílias dos alunos. Em 2010, a proposta foi ampliada e passaram a ser incluídas disciplinas voltadas para a educação no campo.

Na Olavo Bilac, os alunos aprendem receitas com o que é cultivado nos canteiros de verduras e chás da escola. “Além de ser usado no consumo, como saladas. Para que sintam o sabor e os incentive a provar”, explica a coordenadora pedagógica. Nos 3°, 4° e 5° anos, os estudantes transformam produtos para gerar renda, como doces feitos a partir das frutas cultivadas na horta do colégio. A escola também desenvolve o Projeto Destino Certo, voltado para a separação correta do lixo. “Papel e papelão, por exemplo, são vendidos e todo dinheiro que entra é utilizado pelos próprios alunos, que decidem em assembleia o que fazer com a renda”, cita Carine.

Quando chegam aos 6° e 7° anos, o foco se volta para o turismo rural pedagógico. Neste período, os alunos estudam roteiros e analisam possibilidades para conduzir estudantes de outras escolas e a comunidade em visitas a propriedades rurais, onde o público pode ter contato com plantações, produção de gado leiteiro, de carvão, trilhas e jogos rurais. A partir dos 12 anos, os alunos também podem integrar a cooperativa escolar, cujo produto é o turismo rural.

Já nos 8° e 9° anos, as turmas estudam legislação, normas de vigilância sanitária, têm conversas com a Emater, com o sindicato rural e visitam propriedades no entorno da escola, para saber como podem colocar ideias em prática se quiserem ter um agronegócio ou se engajar de forma mais ativa no turismo rural também.

Merenda vem da produção local

Enquanto colhe salsa e cebolinha, Maria Beatriz Führ fala sobre as visitas que recebe de estudantes das escolas de Ivoti, dentro do projeto de turismo rural desenvolvido pelos alunos da Nelda Julieta Schneck. Com frequência, as turmas do campo e da cidade chegam à propriedade da família Führ, na localidade de Picada Feijão, para conhecer as hortaliças que cultivam e os animais que criam no local há cerca de 30 anos. Tem de quase tudo em 5 hectares de plantação! Pé de agrião, alface, alho-poró, rúcula, couve, beterraba, cenoura, repolho... “É um produto orgânico que fazemos sem veneno. Sei o que estou comendo e é tão bom quando estou preparando o almoço e posso vir aqui colher um tempero, uma salada. Por isso acho bom se outras pessoas também puderem ter isso”, exclama.

Ela e o marido, Protásio Führ, estão entre as cerca de 180 famílias de produtores locais do município e fazem parte da Cooperativa de Produtores e Agroindústrias de Ivoti (Proagri), fundada em 2010, que conta com cerca de 30 famílias associadas. De acordo com o engenheiro agrônomo Rodrigo Fasso Rodrigues, extensionista rural da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) em Ivoti, a maioria das propriedades atua no cultivo de hortaliças, mas há também produção de lenha para carvão, floricultura e fruticultura.

Parte dos alimentos colhidos no interior do município é destinada à merenda escolar. “É uma das políticas públicas mais importantes que podem existir na agricultura familiar, porque é uma renda que vem direto do poder público e trabalha com o que a gente chama de cadeia curta de abastecimento, em que o alimento vem do produtor para o consumidor, não tem de percorrer longos trajetos”, opina. Ele observa também que, com o incentivo ao consumo de alimentos produzidos no âmbito local, as escolas passam para o que classifica de “merenda do pacotinho em pó misturado na água” para uma alimentação completa.

Além de garantir produtos frescos, entregues nas escolas pelos próprios produtores, o sistema abastece a economia, constitui vínculo e compreensão da sazonalidade dos alimentos e propicia uma dieta balanceada aos alunos, destaca. Para que os estudantes tenham ainda mais contato com a produção, o engenheiro agrônomo revela que há um projeto de implantação de hortas em todas as escolas da rede municipal, desenvolvido em parceria com a Secretaria de Educação, que deve começar a valer ainda este ano.

Mais variedade no prato

Embora a lei federal 11.947, de 2009, determine que no mínimo 30% do valor repassado a Estados e municípios pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) deve ser utilizado na compra de alimentos vindos da agricultura familiar e do empreendedor familiar rural ou de suas organizações, a maior parte do que é consumido pelas escolas da rede municipal de Ivoti vem da produção local. Em 2015, por exemplo, o investimento foi de 63%, sem contar a contrapartida do município. Os produtores, que fazem parte da Proagri, são selecionados mediante chamada pública. A nutricionista e responsável técnica da Secretaria de Educação, Carolina Lisboa Melo da Silva, destaca que o município tem uma grande variedade de alimentos produzidos no âmbito local, muitos até cultivados por famílias de alunos das Escolas do Campo. “É a questão de saber a procedência. Estes alimentos acabam tendo mais nutrientes, porque a gente sabe que não é usado tanto agrotóxico, tanto veneno. O produtor daqui não vai usar tanto agrotóxico para produzir esse alimento, até porque não vai querer colocar uma coisa ruim em algo que os filhos estarão consumindo”, comenta.

Os alunos que estudam em turno integral recebem três refeições por dia, com isso, os cardápios são equilibrados para suprir a quantidade de nutrientes necessários. “Focamos muito na legislação sobre o que se deve cumprir de nutrientes no dia e tentamos atingir o aporte calórico de vitaminas e minerais no dia e na semana. Como a variedade é boa, acaba suprindo, então acaba se tornando tranquilo montar o cardápio, priorizando o equilíbrio. Por exemplo, quando tem massa, a gente tenta não colocar arroz e batata. No dia do aipim é isso de carboidrato e o arroz integral no máximo, com molho, carne, legume e salada”, revela Carolina. Os alunos também não consomem líquidos junto com as refeições e a sobremesa depois do almoço é sempre uma fruta.

Quem é o agricultor familiar?

Conforme a lei federal 11.326, de 2006, para ser classificado na categoria de agricultor familiar, o produtor não deve ter área maior do que quatro módulos fiscais, utilizar predominantemente mão de obra da própria família e ter a atividade do próprio estabelecimento ou empreendimento como principal fonte de renda.

Saiba mais

O Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) atende alunos de toda a educação básica matriculados em escolas públicas, filantrópicas e em entidades comunitárias.

Funciona por meio da transferência de recursos financeiros para a oferta da alimentação escolar e de ações de educação alimentar e nutricional.

O repasse é feito diretamente aos Estados e municípios, com base no Censo Escolar.


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