Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, vídeos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.
VOLTAR
FECHAR

Av. João Corrêa, 1017 - Centro - São Leopoldo/RS - CEP: 93010-363
Fones: (51) 3591.2000 - Fax: (51) 3591.2032

PUBLICIDADE
Dia do Idoso

Era de revolução com os novos vovôs

Com expectativa de vida maior, população vive momento marcado pelo envelhecimento ativo, mas ainda há o que melhorar para os idosos
02/10/2017 06:00

Maria da Conceição não para em casa, adora viajar e às vezes até prefere fazer suas andanças sozinha. Preza uma boa conversa e não demora muito para fazer novas amizades e se integrar a ambientes diferentes. “Onde me botam, eu cresço, me adapto”, revela. Queria ser cantora de rádio, mas virou professora e se diz admirada pelas voltas que o destino deu até agora. “É interessante se começar a pensar como uma coisa leva a outra”, reflete. Maria da Conceição Xavier Weibert tem 96 anos, os lábios sempre coloridos de batom e a disposição característica de uma nova geração de “vovôs”. “Ainda não sei quando vou voltar pra Novo Hamburgo, minhas cuidadoras estão com férias enormes”, diz aos risos, por telefone, enquanto curte uma temporada em Búzios, no litoral do Rio de Janeiro. 

Assim como a professora aposentada, já perto dos 100 anos, a população brasileira está vivendo mais tempo. Entre 2005 e 2015, a proporção de idosos de 60 anos ou mais passou de 9,8% para 14,3% no País, conforme o estudo Síntese de Indicadores Sociais (SIS): uma análise das condições de vida da população brasileira – 2016. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no ano passado, indicam que a população idosa vai triplicar no País, chegando a 66,5 milhões de pessoas em 2050 (29,3%).

O envelhecimento populacional é um fenômeno mundial, mas a forma como tem vivido o chamado grupo da terceira idade é que tem mudado. Mesmo com as limitações inerentes ao avanço da idade, há idosos, assim como Maria da Conceição, que têm encarado esta etapa da vida de uma maneira, digamos, mais jovem. “Hoje, grande parte dessa geração pioneira de idosos no Brasil – a geração que hoje tem 70 anos ou mais – tem nos ensinado sobre o que é ser um idoso e todas as suas possibilidades. Eles vivem a vida, decidem, viajam, participam de grupos, namoram, prezam por sua independência. E, o que muitos esquecem, ajudam muito seus filhos e netos. Devemos, enquanto sociedade, muito a essa geração de idosos. Em menos de duas décadas mudaram a imagem do idoso no País”, descreve o clínico geral e nutrólogo Leandro Minozzo, especialista em geriatria e gerontologia.

O médico acredita que os idosos não devem ser vistos, e se verem, como “gasto” ou um peso para os mais novos. “A lógica neoliberal é perversa com os que envelhecem, em especial os pobres e as mulheres. Mas devemos olhá-los como detentores de enorme potencialidade. Eles contribuem com o exemplo, com a sabedoria e com sua capacidade de cuidar dos outros. Possibilitar uma troca intergeracional é urgente e dever de todos nós”, opina.

Cuidados com a saúde física e mental

Com a população vivendo mais tempo – hoje a expectativa de vida no Brasil é de 75,5 anos, segundo o IBGE –, aumentaram também o número de casos de doenças crônico-degenerativas, como demência, alzheimer, parkinson e artroses, além de diabete e hipertensão. “Porque o corpo vai se desgastando e a chance de aparecer doenças vai aumentando. Por isso, é importante o cuidado desde cedo, para que essas doenças apareçam mais tarde também”, recomenda o geriatra João Senger, ressaltando que estes males não precisam ser necessariamente um impedimento, mas que exigirão cuidados específicos para o resto da vida.

Senger diz que o acompanhamento preventivo com profissionais da saúde é fundamental para a longevidade com qualidade. “O que precisa mudar é que as pessoas precisam ir ao médico com mais frequência. A terceira idade é uma fase onde a chance de aparecer as doenças é maior. A gente quer que exames sejam anos ganhos para viver mais e aproveitar. Mais de 50% não chegam bem e isso não é legal. A gente conseguiu aumentar a expectativa de vida, mas ainda não conseguiu melhorar a qualidade desses anos ganhos”, reforça.

Para o geriatra, esta fase não é o que se pode chamar de melhor idade, mas também não precisa ser a pior. “Envelhecer não é doença. Mas também não pode dizer que essa fase é só maravilhas, porque não é. O importante é se manter em atividade”, ensina o médico, enfatizando que o fundamental para viver com qualidade é o convívio social e familiar, além de alimentação saudável e exercícios físicos.

Segundo Senger, também é importante para o idoso encontrar um motivo para viver, que não significa necessariamente um trabalho remunerado. “Tem que ter alguma coisa para se sentir útil, porque se não as pessoas começam a adoecer. Boa parte dos aposentados se sentem inúteis e esse é um sentimento terrível para o ser humano”.

Dona Maria aventureira

Arquivo pessoal/Divulgação
Aos 96 anos, Maria da Conceição ama viajar

Quando tinha 75 anos, Maria da Conceição Xavier Weibert tirou a carteira de motorista para poder revezar a direção nas viagens de motorhome com o marido, Rodolfo Paulo Emílio Weibert, que faleceu há dois anos. “Logo avisei que nunca ia dirigir na cidade, meu negócio é a estrada. Vimos muita coisa linda por esse Brasil”, recorda. Foi casada com seu parceiro de aventuras por 70 anos e, com ele, teve quatro filhos biológicos, uma filha adotiva, dez netos e quatro bisnetos, dos quais fala cheia de orgulho. Professora por mais de meio século, dona Maria diz que sentiu muito quando precisou se aposentar, aos 89 anos. “Trabalhei muito e isso é uma coisa que ajuda para viver mais tempo com qualidade. Uma pessoa ocupada por si só já é mais feliz. Quando me aposentei tive uma depressão profunda, me deu uma tristeza horrível, tomei remédio por um tempão, mas aí eu e o Rodolfo começamos a viajar mais e passou”, conta. Sair por aí de trailer era um sonho que o casal tinha desde os tempos de namorado, mas com cinco filhos em casa, precisou ser adiado. “Então chega uma hora que a gente quer fazer uma coisa que a gente deseja, foram anos muito felizes”, diz. O parceiro, a família, o trabalho e as viagens são, para a professora aposentada, a receita que a fizeram viver com qualidade. “Mas também sou muito centrada nas coisas, se o médico diz que não é pra beber tal coisa, não bebo, se não é pra comer, não como. Nada é eterno, tem que aproveitar agora. Realizei muitos sonhos, mas também tem que fazer as coisas com a cabeça no lugar, não dá pra ficar devendo”, ensina. Quando está em casa, Maria da Conceição conta que gosta de sentar no sofá e ficar olhando os objetos e fotografias que decoram a sala. “Minha casa é minha história, fico lembrando e faço uma viagem com o coração”.

Longevidade com yoga

Gabriela da Silva/GES-Especial
Alício gosta de sentar na "Cadeira do Freud" para ler biografias


Quando jovem e recém-casado, Alício de Arruda e Silva, hoje com 89 anos, tinha uma rotina agitada por causa do trabalho, mal parava em casa e passava pouco tempo com a mulher e a filha. “Queria fazer de tudo, dava de mim além do que podia. Até que um dia tive uma crise de pânico”, recorda. Depois deste episódio, Alício percebeu que precisava de ajuda e começou a fazer tratamento psiquiátrico. “Gastei toda a indenização de quando saí do emprego com psiquiatra e então comecei a praticar yoga”, conta. Morando nesta época em Porto Alegre, o aposentado diz que teve a oportunidade de aprender a prática com grandes mestres e foi aluno por cinco anos. “Através do yoga consegui aprender a relaxar, a respirar, a fazer os asanas (posturas), meditação e a melhora veio vindo”, afirma. Alício ainda voltou a trabalhar em uma empresa, mas depois acabou se dedicando inteiramente ao yoga e deu aulas por 35 anos em Novo Hamburgo. Há quatro anos, no entanto, a morte da esposa, Wera Marga, o abalou muito. Afinal, foram 60 anos de casamento. Morando sozinho, Alício já não via mais muita graça no dia a dia, até que uma mensagem no WhatsApp, há cerca de quatro meses, começou a mudar a rotina do aposentado. Era um convite para voltar a dar aulas de yoga. “Aí pensei: já que estou me sentindo só, quem sabe vou me comunicar mais”, conta. Agora, se divide em aulas em dois locais diferentes. “Isso me dá vida”, afirma. Mas a longevidade não vem só daí. Alício se gaba de uma boa genética, cuida da alimentação e não deixa de ir à academia, mais pela oportunidade de conversar com os colegas do que pelo exercício físico. No tempo que sobra, gosta de ler bem acomodado em sua poltrona favorita, que apelidou de Cadeira do Freud. “Mas o principal ainda é o que diz uma regra do yoga: a cabeça tem que estar onde o corpo está”.

O novo protagonista

Gabriela da Silva/GES-Especial
Para Telmo, cada momento é um aprendizado


Viver um dia de cada vez, sem perder de vista a expectativa de futuro é o segredo para a disposição do professor e psicólogo Telmo José Silva, coordenador de Políticas Públicas dos Idosos de Novo Hamburgo. Aos 80 anos, ele não pensa em parar de trabalhar ou, mais do que isso, de aprender. “Aprecio cada momento, é um aprendizado. Tenho como filosofia que se estamos aqui até hoje é porque temos possibilidade de aprender”, analisa. Ligado ao Conselho Municipal de Direitos e Cidadania dos Idosos, Telmo atua diretamente na fiscalização e orientação dos lares de idosos do Município. “Fazemos visitas de rotina para ver como está funcionando, se está dentro do Estatuto do Idoso. Fazer esse trabalho me dá vida”, exclama. Depois de 45 anos lecionando, ele trabalha desde o ano passado na prefeitura. Para Telmo, com o avanço da expectativa de vida, o idoso é um novo protagonista, mais ainda há muito o que fazer, como valorizar a terceira idade. “Foi enfiado goela abaixo que o idoso é impotente. Mas hoje o idoso não só é desafiado como aceita o desafio de sair de casa, caminhar, fazer ginástica. Eu faço teatro, canto no coral da Feevale, viajo muito, gosto muito de festa e agora estou fazendo aulas de dança. Idoso tem que dançar, tem que namorar. O envelhecimento é um processo natural com alterações fisiológicas, bioquímicas e psicológicas. Portanto, envelhecimento não deve ser sinônimo de doença e sim de modificações decorrentes do tempo vivido”, enfatiza. Para o professor, o que não dá é ficar parado esperando a morte. Sua fórmula de longevidade ainda inclui cuidados com a alimentação – já não come carne vermelha há anos –, mastigação correta dos alimentos, boas noites de sono e caminhadas pela cidade. “Mas sempre por ruas diferentes, para ver coisas novas”.


Geração de adolescentes

No último meio século, a população brasileira ganhou, em média, 30 anos para viver mais, observa o geriatra João Senger. Para definir os protagonistas deste novo período caracterizado por um envelhecimento ativo, Senger cita um termo utilizado pelo médico carioca Alexandre Kalache, referência no Brasil e no exterior em envelhecimento e longevidade: gerontolescência. “A adolescência dura de três a quatro anos, mas essa gerontolescência é o que acrescentou de vida depois da meia idade. Antes, as pessoas estavam ficando velhas em torno dos 55 anos, hoje não, ganharam 30 anos para viver. Isso se chama revolução da longevidade”, observa. O geriatra comenta, porém, que isso também significa trabalhar por mais tempo e tomar medidas corretas para viver este tempo maior com qualidade. “Hoje a gente vê idoso surfando, andando de moto, dançando, viajando e isso tem que ser encarado com uma coisa boa. Mas para aproveitar tem que ter saúde, porque esses anos a mais de vida que ganhamos, anda vêm acompanhados de muita doença e muita dependência e aumentar o sofrimento não é legal”, comenta.

Desafios para os idosos

Em 1° de outubro de 2003, entrou em vigor o Estatuto do Idoso. Por isso, todo ano nessa mesma data comemora-se o Dia do Idoso no Brasil. O objetivo é conscientizar sobre a necessidade de proteção a essa faixa etária e alertar sobre os direitos da terceira idade. Atualmente, um dos principais desafios para esta parcela da população está nas áreas da saúde e financeira, cita o presidente da Associação dos Trabalhadores Aposentados e Pensionistas de Novo Hamburgo (ATAPNH), Idailton Alexandre Velho. Junto com órgãos representantes estaduais e nacionais dos aposentados, a entidade participa de articulações para garantir que os aposentados possam receber pagamentos adequados a seu tempo de contribuição com o mercado de trabalho. “A gente está participando para mudar. Há pessoas que ganhavam até quatro salários e hoje recebem um e meio”, comenta. Além disso, Velho diz que há muito trabalho a ser feito também pela saúde do idoso. “Existem muitas dificuldades, mas na associação temos condições de dar 100 consultas médicas por semana aos associados”, destaca o presidente da ATAPNH, mencionando os atendimentos gratuitos com fisioterapeuta, clínico geral e geriatra oferecidos pela associação, além de atividades de educação física.


Jornal VS
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
PUBLICIDADE
Capa do dia

FOLHEIE O SEU JORNAL PREFERIDO NA TELA DO SEU COMPUTADOR.

ACESSE ASSINE AGORA
51 3600.3636
CENTRAL DO ASSINANTE

51 3591.2020
CENTRAL DE VENDAS DE ASSINATURAS