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Gilson Luis da Cunha

Nada seria como antes: Os 50 anos de Planeta dos Macacos

Diário de bordo de um nerd no planeta Terra (DATA ESTELAR 11022018)
11/02/2018 07:30

Gilson Luis da Cunha - Blog Diário de Bordo de um nerd no planeta terra

Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura

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Na última quinta-feira, Planeta dos Macacos, o filme original que deu origem a uma das mais bem-sucedidas franquias de ficção científica da história, completou 50 anos de sua estreia nos cinemas americanos. Ao longo da semana, fãs e estudiosos comemoraram e discutiram esse clássico moderno em eventos acadêmicos e maratonas de cinema ao redor do mundo. Fãs como Saulo Adami, autor de Homem não Entende Nada!. O mais completo livro já escrito sobre a saga símia, ou Robert J. Sawyer, escritor de ficção científica canadense, que arranjou um meio incomum de comemorar: passar o fim de semana em Point Dume, a praia da Califórnia onde foi gravada a chocante cena final com Charlton Heston e Linda Harrison. Bem, não podendo visitar as praias da Califórnia, ou Lake Powell (o lago onde foi filmado o naufrágio da nave do coronel Taylor), resolvi repartir com vocês as minhas impressões ao ver esse filme pela primeira vez.

É uma noite de sábado em 1975. Você tem dez anos e espera pacientemente pelo final da novela das oito, que, provavelmente, é Pecado Capital. "Primeira Exibição", a extinta sessão de filmes dos sábados à noite era, junto com a "Sessão de Gala", o filé mignon da sétima arte, ao menos, na Globo. A atração daquela noite seria Planeta dos Macacos. Eu não sabia nada sobre o filme, mas, como um guri fascinado por ficção científica desde sempre, fiquei em alerta. Tudo o que eu tinha visto eram os trailers durante a semana: Charlton Heston e seus colegas correndo desesperados num milharal e dando de cara com gorilas armados de fuzis e montados a cavalo. A chimpanzé Zira (Kim Hunter) se aproximando da jaula onde Taylor (Heston) tentava se fazer entender por gestos e sendo zombado pelo orangotango Dr. Zaius (Maurice Evans). Ouvia alguns muxoxos de meus irmãos mais velhos, adolescentes que adoravam fazer cara de blasé. Nada os impressionava. Eles já tinham visto TUDO o que havia para ver, ou assim queriam que os outros pensassem, em sua ânsia de parecer com os adultos que não eram. Realmente, não dei a mínima para suas caras feias. "Cara feia, para mim é fome", dizia minha mãe. E ela estava certa.

O filme começa com o astronauta George Taylor (Charlton Heston) fazendo sua última transmissão para a Terra, antes de se juntar ao resto da tripulação da Icarus em animação suspensa (o nome da nave nunca é mencionado nos filmes. Viram? Não foi Star Wars que inventou a tal de back story). Ele sabe que, devido ao efeito relativístico de viajar próximo da velocidade da luz, essa mensagem só será ouvida muitos séculos após sua partida da Terra. "Você que está me ouvindo é de outra geração. Uma geração melhor, eu espero", diz ele, numa alusão à estupidez da raça humana. Entram os créditos de abertura, estrelas distorcidas deslizam pela vidraça da espaçonave ao som da misteriosa e envolvente música de Jerry Goldsmith. E então, o espaço desaparece, dando lugar à vista aérea de um deserto. Essa vista é virada de cabeça para baixo, num parafuso que termina com a câmera mergulhando na água de um lago. Essa sequência incrível em nenhum momento mostra a nave voando e, no entanto, consegue ser o "pé na porta" que arranca o público do estado de contemplação criado pela abertura.

Da travessia da Zona Proibida pelos astronautas até a cena final, com Taylor ajoelhado na areia da praia, amaldiçoando a humanidade (ou, pelo menos, a parte mais estúpida dela) o filme, apoiado pela revolucionária maquiagem de John Chambers e pelas excelentes atuações de Kim Hunter, Roddy McDowall (Cornélius) e Maurice Evans, basicamente, explodiu minha cabeça. E não só a minha: A de toda uma geração. A macacomania reinou suprema por quase uma década, não apenas nos Estados Unidos, mas no mundo. O filme teve um impacto na cultura pop até então não igualado por nenhum outro filme de ficção científica.

Sim, 2001: Uma Odisseia no Espaço é de 1968, mas, apesar de um excelente filme, não teve o mesmo alcance que Planeta. Apenas para que vocês tenham uma ideia, meu pai era um homem, simples, rústico, até, muito mais afeito a westerns e filmes policiais do que filmes "de coisa que não existe", como ele chamava fantasia ou ficção científica. Ele foi conquistado pelo carisma de Kim Hunter e Roddy McDowall como o casal de chimpanzés cientistas que ajuda o astronauta humano em fuga. Ao final do filme, até ele ficou de queixo caído. E não é para menos. Eu fiquei embasbacado durante horas. Do "alto" de meus dez anos de idade, eu já era trekker (embora esse termo ainda não existisse no Brasil), já tinha visto Túnel do Tempo, Terra de Gigantes, Perdidos no Espaço e Viagem ao Fundo do Mar, e toneladas de filmes do gênero na TV. Mas nada me preparou para aquilo: Um mundo onde a evolução tornou o homem arcaico, obsoleto, superado por uma inteligência vinda não das estrelas ou dos avanços da inteligência artificial, mas das florestas de nosso próprio planeta.

No horóscopo chinês, 1975 pode ter sido o ano do coelho. Mas, na TV brasileira, foi, decididamente, o ano do macaco. Três das quatro sequências do filme original seriam exibidas naquele mesmo ano, também na sessão Primeira Exibição, com um intervalo de alguns meses entre cada transmissão. Num golpe de sorte, tive a chance de assisti-lo no cinema, em 1980, numa matiné (o que é isso? É de comer?) do finado Cine Real, em Porto Alegre. Era um programa duplo. Tive que suportar ver Bitte The Bullet, western com Gene Hackman, Candice Bergen e James Coburn, cujo título em português nem lembro mais. Mas valeu a pena. Mesmo com uma cópia toda riscada e com a já precária sala de cinema, ver Planeta na telona, como ele foi feito para ser visto, foi uma experiência sem preço.

Mas, voltando ao filme original, o romance que o originou foi escrito por Pierre Boule, autor de A Ponte do Rio Kwai. Era considerado uma obra menor pelo próprio Boule, que, com prazer, vendeu seus direitos de adaptação para o cinema. Ironicamente, esse viria a ser seu trabalho de maior sucesso. O livro é mais uma fantasia satírica onde Boule ironiza as realizações humanas. Apesar da boa narrativa, a intenção era fazer uma alegoria, não uma especulação sobre o futuro da humanidade. Entretanto, como ocorre com certa frequência, a obra ganhou vida própria e se tornou maior que o artista. Outros autores já tinham usado o tema do homem subjugado ou substituído por outras espécies nativas de nosso mundo. Mas foi com Boule que esse conceito atingiu seu ápice. A adaptação do livro é uma história à parte. O roteiro inicial, de Rod Serling, criador de Além da Imaginação, tem um final ainda mais sombrio e aterrador do que aquele que foi filmado, e eliminava qualquer chance de uma sequência. Felizmente, foi recusado. Por conta disso, Planeta dos Macacos antecipou, a um só tempo, a era dos blockbusters e das franquias milionárias, que só surgiriam no final dos anos 70, com Tubarão (1975) e Star Wars (1977).

Quem assiste ao reboot da franquia iniciado em 2011 com Planeta dos Macacos: A Origem, nem desconfia do impacto da série na cultura dos anos 70. Foram mais quatro continuações no cinema, uma série animada, uma série de TV, além de colecionáveis, miniaturas, novelizações de filmes e HQs. No Brasil, a Globo lançou o programa humorístico O Planeta dos Homens, embalado pelo sucesso da saga símia. Nele, entre belas mulheres em trajes sumários e esquetes com Jô Soares, Agildo Ribeiro e outros humoristas, Orival Pessini, ator e maquiador de efeitos especiais, criador e intérprete do personagem Fofão, também fazia rir, maquiado como o chimpanzé Charles ou como o orangotango Sócrates, ambos sempre zoando as contradições da sociedade humana e, principalmente, da Brasileira. Nos anos 90, o SBT de Sílvio Santos voltou a exibir os filmes da franquia original, fazendo novos fãs entre os espectadores mais jovens.

Planeta dos Macacos, sobretudo o primeiro e o quarto filmes, foram fundamentais em minha formação como cinéfilo e fã de ficção científica. Vez por outra, me pego encontrando easter egs, nos filmes, pequenas cenas ou elementos de fundo que se interligam de um jeito que só viria a ser comum nos dias de hoje. A construção desse universo é tão coesa e fascinante que, em 2003, inspirou Robert J. Sawyer a escrever Hominids, seu romance premiado com o Hugo, o "Oscar" da ficção científica.

Por tudo isso, o filme de 1968 é considerado, até pelos críticos mais esnobes, uma das obras-primas do cinema, transcendendo o gênero de ficção científica. Melhor que isso. Desarmou até o ceticismo do meu pai. Não consigo imaginar um feito maior do que esse.

Vida longa e próspera e que a força esteja com vocês. Até domingo que vem.


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