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NA ESTRADA (On the Road, França - Brasil - Reino Unido - Estados Unidos, 2012). Direção de Walter Salles. Roteiro de Jose Rivera, baseado no livro de Jack Kerouac. Com Sam Riley, Garret Hedlund, Kristen Stewart, Tom Sturridge, Kirsten Dunst, Viggo Mortensen, Alice Braga.
Ao terminar de ver Na Estrada, nono longa-metragem do brasileiro Walter Salles, tive vontade de ir até uma livraria para ler pelo menos as primeiras páginas do livro do qual o filme se origina (e que eu não li). O motivo é que o cineasta parece querer transpôr para a tela muito mais do que uma história: ele quer reproduzi uma sensação literária, uma aproximação visual e sonora da experiência que deve ser ler o que é considerado uma obra-prima da literatura norte-americana.
Como todo clássico da escrita, recente ou antigo, o On the Road de Kerouac é muito mais comentado e citado do que lido; e parece que Walter Salles deu o mesmo verniz cult para sua versão cinematográfica: um filme que, no fim das contas, será para uma audiência que quer ver algo diferente. Curiosamente, o brasileiro talvez siga os passos do autor na sua relação com o espectador: apesar de não ter uma prosa tradicional, Kerouac sempre teve mais sucesso com seus leitores do que com a crítica; e o filme recebeu diferentes recepções no último Festival de Cannes: frieza na sessão para os críticos, aplausos de pé quando exibido ao público.
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Dito isso, quem vai assistir a Na Estrada procurando um drama ou um road movie tradicional (que Walter já nos havia dado com Diários da Motocicleta e Central do Brasil) receberá algo diferente; quem vai porque é fã de Kristen Stewart, então, ficará chocado. A narrativa do filme é desconstruída daquela fórmula tradicional de atos ou reviravoltas que levam a um final coerente. Como numa viagem de fato, Salles está mais preocupado com a jornada do que com a chegada, e pouco lhe importa ser claro para o público. É um filme que exige do espectador, onde há de se preencher lacunas na história -- se é que há uma história no sentido linear e objetivo a ser contada.
O filme (assim como o livro, que é uma semibiografia do próprio autor) ambienta-se entre 1947 e 1951 nos Estados Unidos e conta uma série de andanças feitas pelos protagonistas Sal (Sam Riley) e Dean (Garret Hedlund) pelo país. Ao contrário de um road movie comum, não é apenas uma viagem, mas um mover-se constante entre um lugar e outro, ocasioado por diferentes objetivos. Nelas, os dois amigos revelam uma rebeldia juvenil temporã, usando drogas, arriscando-se em relacionamentos de sexualidade aberta, desenraizando-se de tradições familiares.
Parece uma descrição da juventude dos anos 1960 e 1970 e aí que está o lado visionário de Kerouac: ele captou o espírito da tríade "sexo, drogas e rock 'n' roll" antes do surgimento do último elemento, o rock -- aqui, os excessos são regados por um jazz frenético e virtuoso. Ou seja, havia uma turbulência na alma dos Estados Unidos bem antes da explosão do "paz e amor", apenas esperando o momento para saltar às vistas da sociedade. Mesmo que a história se passe num dos momentos mais otimistas da história do país (saído vencedor da Segunda Guerra e ainda não afundado na Guerra Fria), a população e o território que vemos na tela são ainda rurais, melancólicos e empoeirados.
A cena de abertura onde Sal (o alter-ego de Kerouac) pega carona num caminhão de trabalhadores rurais que cantam um bluegrass ao pôr-do-sol já estabelece este tom. A partir daí, vemos o desenvolvimento da sua amizade com o indomável Dean, o arquétipo do jovem que devora a vida rompendo os limites sociais vigentes. Nas viagens, eles encontram vários coadjuvantes com uma alma igualmente perturbada em diferentes níveis -- alguns deles, como a agricultora vivida por Alice Braga, em aparições rápidas. Na maior parte do tempo, contudo, eles são acompanhados por Marylou (Kristen Stewart), namorada/esposa de Dean por quem Sal é apaixonado de forma platônica.
Apesar do tema norte-americano, o filme não parece ser de país nenhum -- explicável em parte pelo fato de que é uma coprodução de França, Brasil, Reino Unido e Estados Unidos; justificável pela diversidade de origem da equipe. A direção, como sabemos, é do brasileiro Salles; a produção executiva é do ítalo-americano Francis Ford Coppola, cineasta que queria levar há décadas a história às telas mas nunca conseguiu;o roteiro é do porto-riquenho Jose Rivera; o diretor de fotografia Eric Gautier, o montador François Gédier e o diretor de arte Carlos Conti são franceses; o compositor é o argentino Gustavo Santaolalla.
Cada um deles pousa um olhar diferente sobre o filme, o que o enriquece enquanto experiência. Conti faz uma recriação de época simples porém perfeita nos figurinos e cenários rotos, decadentes e de cores apagadas. Já Santaolalla enche a trilha de jazz, usando-o para dominar o som de várias cenas mais agitadas, e utiliza suas composições intimistas em momentos introspectivos de maneira quase "invisível". Eric Gautier, por sua vez, faz um dos melhores trabalhos da obra com uma fotografia sempre natural e de grande beleza, ajudando a explicitar os diferentes climas do filme.

São nas atuações do elenco e na direção de Salles, porém, que encontramos o filme diferente que Na Estrada é. O cineasta dirige como de costume: equilibrando planos quase sempre contemplativos com uma montagem sempre vigorosa, para dar um ritmo ao mesmo tempo acelerado ainda que observador às cenas, combinando assim com o turbilhão dos personagens. Ele também consegue com que o elenco caia de cabeça nas suas caracterizações, entregando-se de maneira natural em cenas difíceis que envolvem sexo, uso de drogas, debates dramáticos sobre a condição humana. Neste sentido, a performance de Garret Hedlund como Dean é incrível: ele consegue fazer um personagem sem barreiras morais e que ainda assim é apaixonante.
Ah, sim: cabe um parágrafo para a atuação de Kristen Stewart, em quem eu costumeiramente dou pancada por suas personagens sem expressividade ou graça, como no caso de Branca de Neve e o Caçador. Pois então: é visível que, pelo menos aqui, ela quis se afastar como o diabo da cruz da imagem que a série Crepúsculo construiu. Ela faz de Marylou uma personagem repleta de contradições, que ao mesmo tempo em que exibe uma conduta sexual aberta, quer casar e ter filhos; que consegue exalar sensualidade mesmo tendo um aspecto mal-cuidado (note o detalhe das unhas com o esmalte descascado). Sim, ela aparece brevemente nua (aliás, a pouca nudez do filme também sempre aparece naturalmente) e protagoniza cenas mais picantes.
Kristen, aliás, encheu Walter Salles de elogios pela sua condução. De fato, o brasileiro parece conseguir o que quer do elenco sem fazer força nenhuma. O seu maior feito como realizador é conseguir que a atriz se livrasse da sua irritante expressão de boca entreaberta (sim, Kristen aparece de boca fechada quando não está falando). Brincadeiras à parte, contudo, apesar da sua ótima direção, parece que lá pelas tantas Salles não sabe como terminar o filme (indecisão que parece ter surgido já no roteiro). A impressão é que eles poderiam continuar rodando o filme (e a estrada) para sempre. Infelizmente, eles perdem o espectador desta jornada sem um ponto final. O filme fica cansativo no seu trecho derradeiro -- como qualquer viagem longa.
Reza a lenda que Bob Dylan resolveu comprar uma guitarra depois de ler o On the Road de Kerouac. O Na Estrada de Walter Salles talvez não provoque o mesmo tipo de reação catártica e transformadora. Porém, é uma belíssima película (ainda que não a melhor do diretor) que merece ser vista com cuidado e com coração aberto. Para quem tem um mar revolto por trás da falsa alegria fugaz da vida cotidiana, vai dizer alguma coisa.