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28 de Junho de 2011 - 00h16

Carros para crianças

Por Guilherme Schmidt

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O grande barato das animações do cinema na atualidade é maravilhar as crianças e atrair os adultos com piadinhas, gags e citações nostálgicas. No caso do segundo item é que a franquia Carros, do cineasta John Lasseter, não conquista como Shrek ou Toy Story. Na nova aventura da Pixar para o carrinho de corridas Relâmpago McQueen, é o seu melhor amigo, o guincho caipira Mate, simpático (às vezes irritante) coadjuvante da parte 1, que assume como astro da história. E isso não é de se estranhar, porque muitas crianças gostam mais do guincho enferrujado e todo amassado do que do impetuoso carrinho vermelho. É o caso do meu filho Rafael, chegando aos 4 anos, meu convidado especial na sala de cinema, que se empolga quando vê o guincho: “pai, é o Mate”. É aí que brilha o sucesso de Carros, afinal, criar empatia com o público é um dos principais ingredientes para uma fórmula de sucesso, seja no cinema, DVD ou na linha de brinquedos. Como no primeiro filme, a aventura do mundo automotivo parece ter o freio de mão puxado no quesito roteiro. Problema? Só para os adultos, que acabam assistindo a um filme com diálogos e ideias fracas e até contraditórias. Mas as crianças não estão nem aí. O correrio, o visual colorido e as aventuras dos personagens queridos são suficientes para agradar o público infantil, apesar do sotaque dos personagens “estrangeiros” (um alemão, um francês e um italiano) ser meio enrolado demais para os baixinhos entenderem. Verdade seja dita, a parte técnica da animação é de primeira, com cenários realistas e cenas de ação muito bem produzidas. Se você, adulto, curtia (como eu) a banda de pop rock The Cars na década de 80, Carros 2 traz um clipezinho da canção You Might Think. Mas, convenhamos, é pouco para agradar um adulto em um filme de uma hora e meia.

 Nesta parte 2, Relâmpago McQueen, consagrado campeão de corridas, volta para rever os amigos e acaba, graças a Mate e ao desafio de um carro de Fórmula 1 chamado Francesco (uma Ferrari), envolvendo-se em um circuito de corridas para promover um novo combustível. Mas nos bastidores da competição rola uma trama contra o substituto da gasolina. E quem vai bancar o agente secreto é o guincho matuto Mate, que de rejeitado pela sua caipirice (bem estereotipada, aliás) acaba na pele de improvável herói.     

 Logo no seu início Carros 2 mostra que sua história roda em torno de uma trama de espionagem. A ideia de falar sobre combustíveis é um bom ponto de partida para uma produção movida a veículo automotores. E o melhor ainda é discutir sobre combustíveis menos poluentes que a gasolina. Como tema paralelo, o filme fala sobre tolerância com as diferenças culturais, no caso, com foco na caipirice ingênua (mas sempre honesta) do guincho Mate, que apesar das burradas, traz sua contribuição e conhecimento quando é preciso, principalmente quando o assunto é mecânica.

 O problema de Carros 2 é que ele acaba tropeçando nos próprios conceitos (ou preconceitos). No que diz respeito a combustíveis, existe uma tendência verde automotiva, que, sabe-se, ainda é freada pela força econômica de uma poderosa indústria da poluente gasolina. Mas o filme se perde neste quesito, simplesmente transformando carros antigos em vilões, quando hoje em dia eles até são cultuados pelo valor histórico – tem carro antigo valendo mais do que zero quilômetro. Está certo que as crianças ainda não estão tão politizadas a fim de entrar em uma discussão dessas, mas se uma das ideias do filme é a tolerância com diferentes culturas (no caso com a caipirice de Mate), demonizar os “velhos” que sentem excluídos pelos novos não é uma boa lição para os baixinhos. Enfim, fica difícil discutir sobre um filme infantil que tenta passar lições de forma um tanto quanto tortuosa. Mas a criançada quer mesmo é se divertir. E nisso Carros 2 (e toda sua linha de brinquedos) é eficiente. Já para os adultos resta acompanhar as crianças e tentar não se irritar com problemáticas conduções de roteiro. Apesar dos mecânicos não recomendarem, deixa rolar em ponto morto... (Guilherme Schmidt)

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