Cotidiano - 08/03/2010 08h35
Atualizado em 10/04/2011 22h28

Quase três milhões de mulheres sustentam as famílias

Elas representam 29,6% das trabalhadoras ativas do País.


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Luciane Ferreira/ Da Redação

Canoas  - Diariamente, Jurema dos Santos, de 52 anos, pega um ônibus no bairro Harmonia e se dirige até o Marechal Rondon, onde trabalha. Chegando, lá ela lava, passa, limpa, cozinha e executa os demais afazeres domésticos. Faz isso há mais de 20 anos de segunda a sábado, das 9 às 17 horas. Separada há 14 anos, ela criou os três filhos com o salário de R$ 700 obtido com o emprego de doméstica. E como milhares de mulheres enfrenta uma nova jornada de trabalho cuidando da sua própria casa.

Ao mesmo tempo que afirma gostar do que faz, admite que não teve muitas oportunidades devido ao baixo grau de escolaridade. Estudou até a 4ª série do Ensino Fundamental. "Tive que parar para trabalhar na roça. Era uma família grande com oito irmãos", justifica. Aos 20 anos, veio para a cidade em busca de melhores condições de vida. Trabalhar como doméstica em casa de família foi a alternativa. Hoje reconhece que a profissão é pouco valorizada e poucas jovens optam por segui-la. "Ninguém quer ser doméstica, trabalhar fixo em uma casa. A maioria prefere ser diarista", avalia.

Jurema faz parte dos 2,7 milhões de mulheres que são chefes de família em todo Brasil. São elas que transformam o Dia Internacional da Mulher em uma batalha diária pelo sustento da casa e a educação dos filhos.
Os dados do IBGE apontam algumas características da inserção das mulheres no mercado de trabalho dentro da Pesquisa Mensal de Emprego realizada em seis regiões metropolitanas: Recife, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, São Paulo e Salvador.

SUSTENTO - As mulheres responsáveis pelo sustento da família representam 29,6% das trabalhadoras ativas do País. Destas, 62,9% têm mais de 40 anos e 38,4% frequentaram a escola por menos de oito anos. 21,9% atuam como domésticas e 78,6% têm rendimentos mensais inferiores a três salários mínimos. O rendimento médio mensal é de R$ 956,80, isto significa 71,3% dos rendimentos do homem, que é de R$ 1.342,70. Entre as mulheres chefes de família, 50,6% não têm cônjuge e moram com os filhos, na maioria menores de idade.

Além do emprego doméstico, elas também desempenham outras funções com carteira assinada. A Região Metropolitana de Porto Alegre é a que tem o maior número de mulheres com carteira assinada. Mas o trabalho informal é significativo, são 29,8%. As principais áreas de educação, saúde, serviços sociais, administração pública, defesa e seguridade, perfazendo 22,8% do total. O levantamento aponta a persistência da segregação ocupacional.

Mas, independente do trabalho que executam todas querem, assim como Jurema, assegurar uma existência digna para a família. "Quero que os meus filhos tenham uma vida melhor do que a que eu tive. por isso estou lutando", diz a doméstica. (Colaboraram Daniele Farias, Clarissa Colares, Lílian Patrícia, Daiane Poitevin e Francisco Éboli,).

Talento que movimenta a cultura

Com talento, sensibilidade e dedicação, elas movimentam a cultura de Canoas. Com seis meses de gestação, à espera de Marina, a musicista Renata Flores, 37 anos, é um exemplo. Ela atua na coordenação pedagógica e artística da Associação Legato – Centro Inclusivo de Artes, no bairro Niterói. Renata defende a importância dos diferentes segmentos da arte trabalharem de forma organizada e com maior unidade. Ela cita como exemplo positivo o trabalho da presidente da Casa do Poeta, a dona de casa Maria Rigo.
"Ela se tornou uma
avaliadora de mercado’’

O jogo de cintura, a sensibilidade, a intuição à flor da pele que deram à mulher o título de sexo frágil hoje são armas eficientes no meio empresarial. A avaliação é da pedagoga empresarial Angelita Garcia, 42 anos, que resume a presença feminina na economia e no mercado de trabalho. "A mulher quer experimentar o novo. E por isso se tornou uma avaliadora de mercado. Ela é uma grande bússola.’’ Angelita atua com preparação de profissionais em redes de supermercados, na comunidade e diferentes empresas canoenses há sete anos. Para ela, há uma década a mulher de fato deu o grito de liberdade. "Antes ela queria ganhar igual ao homem. Hoje a mulher não quer só ganhar igual ao homem. Ela quer qualidade de vida.’’ Ressalta que no mundo dos negócios a mulher desenvolveu o "poder da sedução empresarial’’. "É totalmente sinestésica, sabe usar muito a intuição e é seletiva’’, avalia. "Até aquela mulher que está em casa não está satisfeita.’’

A paixão falou mais alto

Há alguns anos, Sinara Gomes Verardi, 57, teve a oportunidade de mudar de carreira. Poderia deixar de ser professora e se tornar oficial de Justiça. Não conseguiu. A paixão pelo magistério falou mais alto. Professora há 30 anos, já se aposentou no Estado e continua a dar aulas de Português e Literatura no Colégio La Salle, já próxima de uma nova aposentadoria. "A educação é minha paixão", afirma com entusiasmo. E mesmo com uma longa trajetória garante que o desafio é a marca da sua profissão. "Todo ano é novo, é desconhecido, é isso que torna a coisa prazerosa", explica. Casada há quase 40 anos, mãe de três filhos e nove netos, lamenta que nenhum deles optou pelo magistério. "Eles acompanharam muito o meu dia-a-dia estressante estudando, trabalhando e cuidando da casa e da família", relata.

Um toque feminino na política canoense

A presença da mulher na política ainda é bastante tímida. São poucas ainda que se arriscam a disputar uma vaga ao lado dos homens e a conquistar o eleitorado. Aqui em Canoas temos um exemplo de mulher que ultrapassou as barreiras do, talvez, preconceito silencioso e chegou ao cargo de vice-prefeita e secretária de Saúde.

A pedagoga e professora aposentada Lúcia Elisabeth Colombo, 56 anos, acha que a mulher canoense encontra dificuldade de participar do processo eleitoral - como todas as mulheres brasileiras - por questões financeiras, espaço dentro das siglas e credibilidade quanto a sua capacidade de gestora "tendo que permanentemente provar ser competente.’’

Para Beth, ser uma representante das mulheres na política da cidade é gratificante, mas também um grande compromisso. Ela acha que os espaços para as mulheres estão colocados para todos e é preciso ter a coragem de buscar o que se deseja, sendo arrojado e enfrentando obstáculos. "Respeitando as diferenças, homens e mulheres completando-se com a certeza de fazer sempre o melhor que cada um tem de si".

Meninas boas de luta

Na área esportiva, se existe uma modalidade em que as canoenses brilham com mais intensidade é o judô. Agora, mesmo com o talento reconhecido, as meninas ainda precisam driblar o preconceito e provar que subir no tatame também é

Coisa de mulher - o que fazem por meio de suas conquistas. No ranking geral (feminino e masculino juntos) da Federação Gaúcha de Judô de 2009, as quatro garotas que aparecem entre os dez primeiros colocados são aqui de Canoas.
Representante do Brasil no Mundial da Holanda, Rochele Nunes, da Sogipa, foi a segunda melhor judoca do Estado na temporada. Sua companheira de equipe Taciana Resende de Lima, aparece logo atrás, na terceira colocação. Camila Barreto, da Kiai, foi a oitava, seguida por Ana Carolina Martins, da Caju, nona colocada. "Ainda existe um pouco de preconceito. O judô é considerado um esporte masculino, talvez por isso os homens acabam recebendo salários melhores. Nós temos que abrir mão das mesmas coisas", reclama Rochele.

Associação luta pela valorização da negra

A presidente da Associação das Mulheres Negras de Canoas (Amuneca), Carla Marques, 37, casada, é um exemplo de luta pela valorização da mulher na sociedade. Moradora do bairro Mathias Velho, a agente financeira e mãe de oito filhos, explica que por ter enfrentado a falta de oportunidades e o preconceito em alguns momentos acredita que pode ajudar a conscientizar mulheres para que não desistam de sonhar com uma vida melhor. A Amuneca foi fundada com o apoio das coordenadorias de Igualdade Racial e da Mulher. De lá para cá sua principal função tem sido a de ajudar a promover atividades que trabalham a autoestima das mulheres negras na cidade.

Carla teve o primeiro filho aos 14 anos, e desde então começou a pensar em uma missão maior. "Quando temos filhos pensamos mais no futuro e no que podemos fazer para melhorar o mundo." Carla argumenta que é preciso deixar de lado o preconceito, mas as próprias mulheres negras devem se fazer representadas.






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