

Novo Hamburgo - Por causa dos arrombamentos, uma fábrica de máquinas para solados parou a produção e planeja ir embora de Novo Hamburgo. A Astemac Plus, na Avenida Nações Unidas, bairro Ouro Branco, foi 19 vezes invadida por criminosos, desde 14 de novembro de 2011. Os dois últimos casos foram na madrugada e final da tarde de quinta. “Sempre tivemos problemas com furtos nos sete anos nesse prédio, mas nunca como agora. A gente vai à delegacia, registra ocorrência e nada é resolvido. A Brigada até já pegou bandidos no teto, mês passado, mas foram soltos”, desabafa o empresário Idionei Manoel Medeiros, 59 anos. Segundo a Polícia Civil, os crimes são cometidos por viciados em crack, que furtam qualquer objeto que possa ser trocado por pedra. No prédio ao lado, desocupado, os ladrões estão levando folhas de zinco do telhado.
DEBOCHE
“Isso já virou deboche. Um dos drogados me falou que não adianta ir à Polícia, nem pagar empresa de segurança. Sabe que, mesmo sendo preso em flagrante, será logo solto para continuar saqueando a firma”, protesta o empresário. Conforme Medeiros, os delinquentes se revezam no valão para vigiar a movimentação da ronda.
CRACOLÂNDIA
O prédio de 1,3 mil metros quadrados fica na frente do valão onde se reúnem viciados de uma das 49 cracolândias da cidade mapeadas em julho do ano passado pelo Jornal NH. O ponto de tráfico e consumo fica em becos no entorno da Avenida 1º de Março. Usuários atormentam os bairros Industrial, Liberdade, Santo Afonso e Ouro Branco com furtos e arrombamentos.
A negociação da saída
A Astemac Plus negocia mudança para Esteio ou Sapucaia do Sul. “Só estamos esperando a Fimec, no final de março, por causa dos clientes que vêm para cá.” Segundo Medeiros, a empresa exporta para países como Argentina, Chile e Peru. No Brasil, as principais relações comerciais são com São Paulo, Paraná e Minas Gerais. Uma máquina custa de R$ 200 mil a R$ 450 mil.
“Prejuízo já passa de R$ 300 mil”
O empresário está desolado. “Com tudo que já quebraram e levaram daqui nesses três meses, o prejuízo já passa de R$ 300 mil, não só pelo valor do material furtado, como também pelo custo de produção”, comenta Medeiros. Os ladrões levam de tudo. Até parte da cerca e os dois portões do pátio desapareceram. As três portas de ferro estão cheias de remendos de chapas de aço, e a maioria das janelas está quebrada. O sistema de alarme foi arrancado semana passada. “Sumiram ainda com computador, bebedouro, lotes de fios, ferramentas, matrizes de alumínio, motores, relés e vários outros objetos. Também peças das máquinas que necessitamos para a produção, algumas muito caras, que eles vendem por 10 reais.”
Polícia lamenta impunidade do caso
Para Brigada Militar e Polícia Civil, o drama do empresário é consequência da impunidade gerada por uma legislação penal frágil e estrutura penitenciária que permite fugas constantes. “Lamento pelo que está passando esse cidadão de bem. Ele é uma vítima emblemática desse prende-solta que aflige a sociedade. Mas, se tivermos que prender 20 vezes as mesmas pessoas, vamos lá”, destaca o comandante da BM em Novo Hamburgo, tenente-coronel Carlos Marques. O delegado da 4.ª DP, Enizaldo Plentz, frisa que o poder público precisa criar formas eficazes de tratar os viciados. “É uma situação muito complicada, inserida em um contexto maior, de ordem social. Só a Polícia não resolve, pois esbarra na legislação favorável aos delinquentes.”