Novo Hamburgo - Nos últimos dez dias, criminosos têm imposto terror a chácaras da região. Articulados em quadrilhas de seis a dez integrantes fortemente armados, traumatizam moradores e desafiam a Polícia adotando o mesmomodus operandi em lugares distintos. Os alvos desta vez foram sítios em Estância Velha e Sapiranga. No entanto, não se trata de uma realidade limitada a essas duas cidades. O ABC Domingo percorreu lugares em que o sossego está sendo quebrado pela violência, que cresce nos últimos anos entre os municípios de até 20 mil habitantes da região. Histórias reais, contadas por caras encobertas pelo medo, demonstram a face cruel do crime no campo.
O último ataque durou mais de quatro horas e aconteceu na noite de 16 de julho em uma chácara no bairro Campo Grande, em Estância Velha, onde várias vítimas foram tomadas como reféns por seis homens fortemente armados, mas ninguém ficou ferido. Os bandidos deixaram o local por volta de 20h30, fugindo em um Golf, levando R$ 12 mil, mais eletrodomésticos e computadores portáteis. O carro, furtado em 2007, em Pelotas, foi encontrado abandonado duas horas e trinta minutos depois em São Sebastião do Caí. No segundo caso mais recente, em 12 de julho, a vítima estava em sua chácara na Rua 19 de Novembro, em Sapiranga, quando foi rendida por oito homens armados e encapuzados. O grupo manteve a
família como refém durante quase sete horas. Da casa, levaram dois carros da família, duas espingardas, cinco televisores, fogão e outros eletrodomésticos. Os veículos foram recuperados horas depois em Estância e Novo Hamburgo.
Lomba Grande
Bairro rural de Novo Hamburgo, Lomba Grande é afetado pela proximidade com a região metropolitana, onde há um maior volume de delitos cometidos. Desde o começo do ano, foram 7 ataques a residência e comércio, além do registro de dois casos relacionados a tráfico de drogas.
Uma das vítimas, um comerciante de 49 anos, teve a casa invadida pela segunda vez, enquanto o estabelecimento já teve outros seis assaltos. Três ladrões armados de pistolas e revólver tomaram a residência na noite de 4 de abril, fazendo ele, o filho de 10 anos e a mulher, de 47, reféns por uma hora e meia. O comerciante levou coronhadas e foi trancado no banheiro com o filho. Os bandidos fugiram levando arma e munição, eletroeletrônicos, dinheiro e uma caminhonete L200, recuperada horas depois em São Leopoldo. "Já tomei várias providências. Os cachorros estão soltos diretos. Mas qualquer barulho que escutamos, é sempre aquele suspense", frisa. O delegado Enizaldo Plentz, da 4a DP hamburguense, afirma que Lomba sempre teve assaltos. "É gente que conhece a rotina do bairro. Mas efetuamos algumas prisões recentemente e a situação ficou mais calma", explica.
O cárcere que tirou o sossego do povo de Morro Reuter
Bandido fazendo refém e apontando arma na cabeça da vítima durante quatro horas é surreal numa cidade do tamanho de Morro Reuter, com pouco menos de 6 mil habitantes. A noite de 16 de maio de 2006 rendeu momentos de tensão para a família Kasper, que vivenciou situação característica das grandes cidades ao ser feita refém por quatro jovens que tentaram assaltar a casa. Quatro anos depois, a vida dos Kasper, em especial a de Nívia, 54 anos, que passouamaior parte do tempo sob a mira do revólver de um dos criminosos, segue normalmente. Sem abrir mão de outros cuidados, a casa, por opção, continua sem cerca ou muro, comoamaioria das residências do município. Provadeque a tranquilidade não está perdida.
Nívia, que é secretária de Saúde de Picada Café, está ciente de que o pesadelo pode se repetir. "Hoje, por orientação da Polícia, ficamos mais atentos. Também nunca cogitamos deixar a cidade depois do acontecido. Achamos que foi um
caso isolado", crê. Um dos cuidados que ela tem tomado é nunca, por exemplo, percorrer a BR-116 sozinha à noite. "Peço para alguém me acompanhar", conta.
Nos dias seguintes, aliviados com o fim do assalto, o que os surpreendeu foi a repercussão. "Foi uma reação de surpresa em Morro Reuter. Mas procuramos retomar nossa rotina rapidamente. Contudo, o difícil era para as pessoas
das comunidades do interior assimilarem o que tinha acontecido na sede do município", revela a funcionária pública.
O caso
A residência foi invadida por volta das 19h30, quando os criminosos chegaram em um Celta roubado em Novo Hamburgo durante a tarde e renderamomarido, João Alberto, hoje com 52, o filho Johnni, agora com 26, e o amigo dele, César Castanha, que tem 29. A secretária, que estava caminhando, foi rendida logo que chegou. O cárcere só foi descoberto depois que a Brigada Militar notou o veículo roubado estacionado em frente à residência. O desfecho aconteceu às 23h30, com exigência de que a imprensa fosse ao local, após negociações conduzidas pelo delegado da Polícia Civil Enizaldo Plentz. Ninguém se feriu. Um foragido de 23 anos, de São Leopoldo, e três jovens, de 16, 17 e 24 anos, de Novo Hamburgo, foram presos em flagrante. "Nunca mais passamos por nada. Temos que guardar a gratidão de estarmos vivos", conclui Nívia.
Patrulha substitui posto
Desde o começo do ano, uma casa e dois mercados foram assaltados. Além disso, uma madeireira sofreu tentativa de ataque em Fazenda Fialho, comunidade situada na RS-020, a 20 quilômetros de Taquara e a 25 de Gravataí. Sem contar com posto da Brigada Militar, a população acredita que a comunidade esteja fragilizada.
Segundo o presidente da Associação de Moradores, Paulo Ricardo da Silva Menezes, a diversidade de acessos para municípios como Novo Hamburgo, Parobé,
Glorinha e Santo Antônio da Patrulha acaba contribuindo para fuga dos bandidos após os ataques. "O posto faz falta para uma resposta mais rápida a estes casos, apesar das rondas", lamenta.
O posto da BM existia até cerca de 5 anos atrás, segundo Menezes, mas teria sido fechado por falta de efetivo na época. O sargento da reserva da BM Luiz Roberto Martini, 50 anos, trabalhou por 16 anos em Fazenda Fialho. "Entre (os anos) 95 e 2000 dava muito assalto. Mas o policiamento local e a participação da comunidade ajudaram bastante naquele tempo", assegura.
O comandante da Brigada Militar taquarense, capitão André Lima da Silva, afirma que a corporação não tem pretensão de reativar o posto, que funcionava na sede da associação. "Estamos fazendo patrulha com as viaturas. O policial no posto policial fica engessado. Circulando é melhor", avalia.
Tranquilidade rompida em São José do Herval
Acostumada à tranquilidade de uma comunidade onde as pessoas se conhecem muito bem, uma agricultora de 72 anos perdeu o sossego em janeiro deste ano. Moradora de São José do Herval, a 8 quilômetros de Morro Reuter, teve a residência invadida por quatro homens armados, que a fizeram refém – juntamente com seu
filho de 47 anos e um vizinho – durante 30 minutos. A filha, uma industriária e também agricultora de 41 anos, falou do drama da mãe que, ainda traumatizada pelo crime, evitou falar com o ABC Domingo. "Ela está com medo de estranhos, anda muito calada e os dois ficam apavorados ao ficar sozinhos", pontua.
Tudo aconteceu ao cair da noite. "A mãe já estava dormindo e de repente os assaltantes pularam na porta e anunciaram o assalto. Depois de meia hora, eles foram embora e meu irmão se soltou das amarras e foi até outro vizinho, que nos avisou", narra a filha, que mora a 2,5 quilômetros. A casa, que tem mais de 50 anos, teve apenas a porta danificada, mas em compensação, os bandidos levaram quase tudo: motosserra, tevê, carne, linguiça. "Acho que uns 100 itens foram carregados junto com o carro, um Gol", contabiliza. O veículo foi encontrado abandonado, dias depois, no bairro Campina, em São Leopoldo.
Precauções
Após o assalto, o irmão e a mãe passaram alguns dias fora, até a situação se normalizar. "Estamos terminando de construir uma nova nova residência, aqui do lado da minha, para trazer eles. A outra vai ficar só para roça", prevê.
Comandante interino da Brigada Militar de Morro Reuter, o sargento Jorge Santos Andrade ressalta que o policiamento no município, com o oitavo maior crescimento da criminalidade entre 2008 e 2009, consiste no patrulhamento rotineiro e ostensivo, incluindo abordagens. "Quando há algo anormal, o pessoal de São José sempre nos avisa. Mas no começo do ano havia um bando agindo por lá e que foi capturado em março, em Dois Irmãos", explica Andrade.
Contudo, apesar do esforço da Polícia, a filha diz ter perdido a paz. "Todo mundo fica com medo. Era um lugar tranquilo. Nunca imaginamos ser assaltados."
Assaltados no dia de Natal
Assalto não era novidade para o dono de um pequeno mercado em São José do Herval, à beira da VRS-833. Em 1o de outubro de 2000 ele, que tem 52 anos, já havia sido atacado uma vez. "Era um domingo. Estávamos fechando às 19 horas e aí chegaram. Amarraram nossa família (quatro pessoas) e nos deixaram uma hora no chão da cozinha de casa. Enquanto isso, ficaram escolhendo o que levar. Na fuga, usaram o carro deles e a minha caminhonete F-1000. Não usaram de violência, mas ganhei problema de pressão alta", recorda. Mal sabia ele que, oito anos depois, três homens que no dia 23 de dezembro de 2008 estavam comendo melancia sob a sombra de uma árvore em frente ao mercado, queriam era cometer um assalto. O crime veio no dia seguinte, lá pelas 8 horas. "Alemão, hoje não queremos comprar melancia, mas sim te assaltar", repete, vítima, a frase anunciada pelos delinquentes.
Segundo o comerciante, o desfecho só não foi pior porque estavam em menor número. "Eles eram três e nós estava em 12. Tinha cliente aqui. Mas foram 40 minutos com aquelas armas apontadas para a gente. Depois fugiram com poucas mercadorias no carro tomado deumfreguês, bateram num pinheiro, e continuaram tudo num Gol", relata.
Crime avança sobre municípios menores
Nos 48 municípios de pequeno porte (até 100 mil habitantes, conforme classificação do IBGE) da região, a criminalidade avançou em 17, todos com população inferior a 50 mil pessoas, entre 2008 e 2009, com destaque para São Vendelino, com variação de 183% de ano para o outro. Em municípios como Taquara e Parobé, por exemplo, com mais de 50 mil pessoas, a estatística da Secretaria de Segurança Pública (SSP) mostra queda.
Situação igual a de outros 29 pequenos municípios, que registraram redução ou estagnação nos números, comoAlto Feliz e Linha Nova. Tupandi é o município onde
mais diminuiu a criminalidade, em 45,83%, com quedas significativas em furtos e roubos em geral e de veículos e estelionato. Em São Vendelino houve incremento no número de furtos e roubos em geral e de veículos, que de 6 saltaram para 17 delitos em 2009.
Comunidade e Polícia em sintonia
Em Linha Nova, município de 1.516 habitantes do Vale do Caí, cada visitante é monitorado. E isso é realizado sem o uso de modernas tecnologias. "Isso porque quem não é conhecido, é notado pelos nossos moradores, que comunicam a Brigada Militar", revela o prefeito Nicolau Haas. Haas lembra também que o município investe cerca de 30% do orçamento de R$ 5,3 milhões em educação. "É fundamental para desenvolver a cidade com civilidade", frisa o prefeito. Sem acesso pavimentado e distante 40 quilômetros de Novo Hamburgo, Linha Nova tem o menor índice de criminalidade da região, com sete furtos registrados em 2009 e 2008. "Temos o projeto Polícia Cidadã, que faz reuniões nas comunidades para coletar sugestões", relata um dos policiais militares de Linha Nova Claudemir Quinot.
Com colaboração de Eduardo Andrejew e Marcos Jorge