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Gilson Luis da Cunha

O homem que disse não ao destino

Diário de bordo de um nerd no planeta Terra (DATA ESTELAR 18032018)
18/03/2018 07:30

Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura

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Stephen Hawking

Na quarta-feira passada, 14 de março, a ciência perdeu uma das mentes mais brilhantes da história, Stephen William Hawking. Mais do que um grande físico teórico e um excepcional divulgador científico, Hawking tornou-se um ícone pop, numa era em que a inteligência não se encontra exatamente entre as qualidades mais apreciadas pela raça humana. Pensar cansa. Refletir exige esforço e nem sempre chegamos a resultados dos quais gostamos. Tentar entender como o universo funciona, então, já é um papo absolutamente fora da casinha para boa parte de nossa espécie.

Diagnosticado com ELA (esclerose lateral amiotrófica) aos 21 anos, seu prognóstico era de apenas mais dois anos de vida. Apesar da doença ou, talvez, por causa dela, se lançou febrilmente ao trabalho como físico teórico, no campo da cosmologia. Tornou-se professor emérito da cátedra Lucasiana da Universidade de Cambridge, antes ocupada por gigantes como Isaac Newton e Paul Dirac, o que já não é pouca coisa, considerando-se o fato de que ele fez tudo isso privado de quase todos os movimentos do corpo e da fala.

Há quem diga que a doença teria ajudado a construir a “narrativa” do heroico cientista lutando contra as agruras do destino apenas com seu poderoso intelecto, e vencendo. Isso teria colaborado para seu sucesso como divulgador científico e, por tabela, transformando-o numa espécie de astro pop. Muitos cientistas o criticavam por essa exposição na mídia. Não sei até que ponto isso é relevante. O que dizer, por exemplo, de caras como Jack Horner, paleontólogo que esteve em evidência nos anos 90, e seu visual de caubói? Ou do egiptólogo Zahi Hawass e seu indefectível chapéu de Indiana Jones?

Já conheci cientistas quase espartanos, que evitam badalação e preferem que seus dados falem por si. Também conheci gente que, além de cientificamente densa, não recusava um pouco de atenção da mídia. Afinal, atenção nunca é demais. Pense no que é gasto anualmente com a indústria do entretenimento ou a indústria armamentista. O gasto em ciência, ciência básica, exploratória, cujos resultados serão de livre divulgação ao mundo, certamente é uma fração irrisória disso tudo. Então, não posso, necessariamente, criticar Hawking por usar a mídia a seu favor.

Hawking nem sempre acertava em cheio. Alguns de suas hipóteses sobre buracos negros mostraram-se equivocadas. Mesmo sendo brilhante, ele também tinha um ego e, por vezes, despedir-se de uma teoria desenvolvida com esmero e paixão, porque os dados a refutam, é tão doloroso quanto despedir-se de um amor. Ele também foi criticado por construir a imagem de um sujeito moleque e inconsequente, que usava sua condição para fugir de críticas mais pesadas, como a de ser um machista escrachado. Em uma entrevista em 2012, na qual o repórter perguntou no que ele pensava a maior parte do dia, ele respondeu: “Mulheres. Elas são o maior mistério do universo”. A resposta desconcertante serviu, creio eu, para quebrar o gelo, já que o próprio Hawking detestava papo furado.

Falar de amenidades era uma perda preciosa de tempo, não porque ele fosse um cara antissocial, mas porque “falar” era um grande esforço para ele. Vários minutos podiam se passar entre uma resposta e uma pergunta feita a ele, uma vez que ele precisava selecionar as letras ou frases numa tela de computador em sua cadeira de rodas, com a ajuda de um cursor, movido inicialmente por seus dedos e, depois, por movimentos da bochecha.

Poucos, entretanto, pegaram a referência de Hawking a outro cientista, esse, fictício: O “Doc” Brown, de De Volta Para o Futuro. Em dado momento do segundo filme da trilogia, o Dr. Brown diz que, depois da viagem no tempo, se dedicará “ao maior mistério do universo, as mulheres”. Se houvessem mais geeks entre os leitores, talvez essa resposta tivesse adquirido outro significado. O fato é que Hawking, mais do que muita gente, entendeu o óbvio: Nesta vida, a lágrimas são obrigatórias, mas o riso é facultativo. E isso valia para si mesmo. Do contrário, não teria aparecido como ele mesmo em diferentes episódios de Os Simpsons, The Big Bang Theory, e, até, jogando pôquer com Isaac Newton, Albert Einstein e o tenente-comandante Data, numa simulação de holodeck em Jornada Nas Estelas, A Nova Geração, entre outras mídias.

No entanto, mesmo quando se dispunha a rir de si mesmo, como em episódios de Os Simpsons, sempre havia um pequeno easteregg de ciência real escondido no meio da piada, como naquela ocasião em que, bebendo com Homer no bar do Moe, Hawking dispara: “Sua teoria de um universo em forma de rosquinha é intrigante, Homer. Acho que vou roubá-la”. Na verdade, essa é uma referência ao modelo topológico 3-torus, desenvolvido por Alexei Starobinski e Yakov B. Zeldovich, do instituto Landau, de Moscou, em 1984.

Brincadeiras à parte, só o fato de ter conseguido sobreviver 55 anos além do previsto, já o tornaria um herói. Fazê-lo e ainda conseguir conciliar seu trabalho de físico teórico com o de divulgador científico, e tentando manter o bom humor, mesmo com todas essas mazelas, fez dele, merecidamente, um ícone moderno. Tenha um descanso mais do que merecido, Professor Hawking. Você fez por merecê-lo. Vida longa e próspera e que a força esteja com vocês. Até domingo que vem.


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