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São Leopoldo

É crescente o número de pessoas em situação de rua

É cada vez mais crescente o número de pessoas em situação de rua vivendo em São Leopoldo
15/04/2018 10:19 15/04/2018 10:22

Diego da Rosa/GES
Gilberto, Inajara e Pedro vivem em situação de rua
Protegidos pela estrutura de concreto da linha do trem, Gilberto Camargo, 32 anos, e Inajara Dutra, 34, edificam o sonho de recomeço. A história de vida de ambos foi o que os aproximou. Quando crianças, conheceram o que era um lar na Casa Aberta, hoje vivem a céu aberto. Mesmo sem um teto, o casal construiu o que para eles representa uma casa. É debaixo da via do trem, na Avenida Mauá, que Gilberto e Inajara começaram uma vida juntos. Eles são apenas dois entre as dezenas de outras pessoas em situação de rua em São Leopoldo.
Tapetes delimitam o espaço que projeta o que seria uma sala, cozinha e um quarto. Com objetos encontrados no lixo e doações, o casal começou a reunir pertences. Dois blocos de espuma, que uma dia foram um colchão, servem de sofá. O encosto fica na lateral da cancha de bocha, que delimita a moradia. Há também uma poltrona de couro, uma cadeira, um espelho pendurado na parte da mais alta da cancha. A barraca é o dormitório do casal. Uma mesinha, fogareiro e outros objetos traduzem o que seria uma cozinha onde conseguem preparar alimentos.
O sustento vem de doações e do auxílio que recebem no Centro de Apoio Psicossocial AD (Caps AD). “As pessoas nos veem aqui e percebem que está tudo certinho, bem arrumado, eu acho que é por isso que nos ajudam, porque sabem que não fazemos mal a ninguém”, atesta a Gilberto, que fala com orgulho das habilidades com plantas. “Eu frequento o Caps , lá eu aprendo a fazer artesanato e aprendi a cuidar das plantas”, revela.
Mais extrovertido que Inajara, Gilberto reconhece que o modo como ele lida com o cotidiano atualmente se deve ao atendimento que recebe no Caps e no Centro Pop, serviço especializado em pessoas em situação de rua em São Leopoldo. “As pessoas que moram na rua precisam de atendimento, porque todo mundo que está aqui tem algum tipo de problema (com álcool ou com drogas). No Caps a gente recebe atendimento, aprende o artesanato, que é vendido em feiras e a renda nos ajuda.” O aprendizado no Centro de Assistência Psicossocial é considerado pelo casal como um alicerce para o futuro. “Eu quero ter um lugar de verdade para morar, e isso vou conseguir quando tiver um emprego”, projeta Gilberto.

Reencontro nas ruas

As memórias do casal não remetem à vida familiar, mas ao período em que viveram acolhidos na Fundação Casa Aberta, em 1995. Aos 18 anos tiveram de sair do abrigo e “caíram no mundo”. Gilberto e Inajara se encontraram ali mesmo sob a elevada do trem. Ele passava as noites no albergue e durante o dia convivia com amigos. Entre as pessoas que conhecia, reencontrou Inajara que compartilhava o espaço para dormir próximo ao local onde hoje o casal vive. “Depois que nós ficamos juntos, eu não fui mais para o albergue, então começamos a montar nossas coisas aqui”, conta Gilberto. Para Inajara, a presença de Gilberto representa não só esperança, mas também segurança. “Na rua é muito difícil para mulher viver, mas com ele é mais seguro, ninguém mais mexe comigo porque sabem que não estou sozinha”, admite.

Visibilidade

Ao longo da Avenida Mauá, sob a mesma estrutura que sustenta o trem, vivem outros moradores na mesma situação. Abrigos improvisados e móveis velhos são comuns servirem como mobília para quem vive ao relento. Mas Gilberto e Inajara se tornaram visíveis em meio a tantos outros na mesma situação, segundo eles, pela forma como mantém os pertences. “As pessoas nos olham, desperta a curiosidade de quem passa por aqui, alguns até tiram foto. E isso tem nos ajudado até a ganhar comida das pessoas, nos dão as coisas porque sabem que vamos cuidar”, afirma Gilberto.
Na véspera da Páscoa, o casal havia recebido uma visita. Pedro Silva do Nascimento, 35 anos, também morador de rua. Os três sonham com o dia que poderão ter uma casa de verdade. “Se eu tivesse apenas um terreno, o resto faria tudo. Mas para isso preciso de um emprego”, comenta Pedro, que já trabalhou em padaria, frigorífico, empresa de calçados, mas se deparou com a ruína de seus sonhos quando sucumbiu ao vício. “Hoje eu sei que só preciso de um emprego, porque o resto vai engrenar se eu estiver trabalhando, a cabeça não pode ficar parada”, afirma Pedro, que também viveu em um lar para crianças, em Novo Hamburgo.

Terapia para dar sentido à vida

Chefe do Núcleo do Caps AD, a enfermeira Giane Heisser explica que o serviço acolhe tanto demandas voluntárias, de pessoas que procuram o serviço para reabilitação, como encaminhamentos. Mais do que um tratamento para dependência química, para moradores de rua o Caps funciona como uma espécie de família. “Aqui é um local onde eles podem falar sem medo de serem julgados, tem afeto, é onde eles encontram outras pessoas na mesma situação e podem compartilhar experiências”, continua Giane. O Caps presta atendimento a toda população, e não se limita a moradores de rua.
As oficinas a que Gilberto se refere são parte do tratamento. Giane explica que além do plano de tratamento, o Centro oferece espaço de convivência, cursos de artesanato, cultivo de plantas na horta – daí a habilidade de Gilberto com as plantas. “Proporcionamos um ambiente acolhedor para que eles possam tocar a vida como bem entendem”, observa a enfermeira. A coordenadora de Saúde Mental de São Leopoldo, Daisy Cardoso Pires, comenta que o trabalho com os usuários do serviço é bastante complexo e por vezes demorado. “Às vezes chegamos a nos perguntar se o trabalho está sendo eficaz, aí quando nos deparamos com histórias como esta percebemos que tudo faz sentido”, avalia.

Saiba Mais

Todos os sábados, na Feira do Alimento Saudável, o Caps leva uma banca de produtos da horta e de artesanato, que são cultivados e elaborados pelos usuários de todas as unidades do Centro de Apoio Psicossocial. O dinheiro arrecadado com a comercialização dos produtos é divido e gasto entre os usuários. A feira ocorre na Praça Tiradentes, em frente à antiga sede da Prefeitura.

Pessoas em situação de rua

Vulgarmente chamados de “moradores de rua”, as pessoas em situação de rua revelam problemas sociais mais complexos do que a falta de um teto para morar. Listar os motivos que levam alguém a se desgarrar da família e do lar para escolher a rua como destino é tão complexo quanto o trabalho que a Secretaria de Desenvolvimento Social realiza em São Leopoldo. Focado em assistência psicossocial, o serviço lança o olhar para o indivíduo que está em situação de rua. Abandonar as marquises, a linha do trem e os bancos de praça não cabe a uma arbitrariedade da Secretaria, uma vez que o sistema atua no viés da humanização. “É um trabalhado demorado, que para quem não conhece tem a impressão que nada é feito”, reconhece a titular da Sedes, Ângela Machado. A tarefa é desafiadora. A pasta tem de lidar com um contingente cada vez mais crescente de pessoas em situação e um orçamento cada vez mais minguado para atender essa população. “Os cortes que foram feitos na assistência social atingem em cheio nosso trabalho; e além de sentirmos o impacto desses cortes, temos a percepção de que essas pessoas precisam de uma atenção intersetorial”, aponta Ângela.

Avanços apesar da alta demanda

No Centro Pop, os usuários recebem atendimento psicossocial, que trabalha no sentido de restabelecer vínculos familiares, por exemplo, e prestar apoio como fornecimento refeições, banho e doação de roupas. Mas o serviço vai além. A coordenadora do Centro, Caroline Timm, explica que são feitas buscas em locais onde se concentram a maior parte dessas pessoas para prestar o atendimento. O sistema começa a agir a partir da demanda de cada pessoa.
Conforme explica a diretora de Proteção Social de São Leopoldo, Fabiane Luz, cabe à pessoa decidir que rumo quer dar para si. “É um processo bem demorado, que não pode ser meramente a retirada da pessoa da rua, porque a situação de cada um é bastante complexa”. Existem casos como de pessoas que ainda em situação de rua voltaram a frequentar a escola, há aqueles que a partir do atendimento da rede se preparam para procurar emprego, mesmo passando as noites no albergue.
Para todo avanço, surgem novas dificuldades. Em 2017, um levantamento feito apenas entre as pessoas que viviam alojadas sob a linha do trem, no perímetro de São Leopoldo, contabilizou 13 indivíduos, sendo que dessas, cinco saíram da rua. O levantamento deste ano já soma 21 pessoas em situação de rua vivendo ao longo da elevada. “Percebemos que existe uma rotatividade de pessoas de fora da cidade que se alojam aqui”, salienta Caroline Timm.

Albergue Bom Pastor

O Albergue Bom Pastor é um dos locais que fazem parte da rede que atende moradores em situação de rua. O serviço funciona de forma complementar ao Centro Pop, mas não obriga nenhum usuário a participar dos dois serviços. Conforme a coordenadora do Albergue, Loreni de Góes, os horários de entrada para pernoite podem ser flexibilizados caso o usuário esteja estudando à noite. “Nosso serviço também proporciona ações de cidadania para que essas pessoas se sintam parte sociedade”, comenta Lori, ao citar um dos passeios dos albergados na última semana. “Reunimos 28 albergados e fomos ao cinema. Quando o ônibus parou em frente ao shopping, outros moradores de rua chegaram a pensar que fosse um sopão, mas ao descobrirem que era para ir ao cinema, quiseram ir também”, lembra.


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