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Gilson Cunha

Há uma guerra lá fora!

(Data estelar 27012019)
27/01/2019 07:30 27/01/2019 11:21

Gilson Luis da Cunha Gilson Luis da Cunha é doutor em Genética e Biologia Molecular pela Ufrgs, Old School Nerd, fã incondicional de livros, filmes, séries e quadrinhos de ficção científica, fantasia e aventura
www.gilsonluisdacunha.com.br

Há uns vinte cinco ou trinta anos atrás, não lembro agora, eu comecei a ler o Universo Marvel 2099 nos quadrinhos. Lembro de que não gostei de muita coisa, salvo o Homem-Aranha 2099. Num dos números da revista, uma das várias megacorporações daquele futuro cyberpunk, no qual os heróis desapareceram de vista há mais de um século, anuncia uma entrevista de “holovisão” com “Thor, o herói do momento”. O tal sujeito nada tinha de Thor. Era um cosplay ridículo do deus do trovão, equipado com bugigangas tecnológicas para imitar os poderes do verdadeiro Thor. Achei tosco, superficial, uma ofensa à inteligência. E esse era objetivo da HQ: mostrar como a população pode ser manipulada pela mídia, especialmente uma população, como a da história, que nunca viu um super-herói antes.

Em língua inglesa, access journalism refere-se ao jornalismo (geralmente em formato de entrevista) que prioriza o acesso - o que significa tempo de mídia com pessoas ou organizações importantes, ricas, famosas, poderosas ou influentes na política, cultura, esportes e outras áreas - sobre a objetividade e / ou integridade jornalística. O jornalismo de acesso sempre esteve presente na política e em outras áreas. Mas agora, seus tentáculos se enroscam diabolicamente em torno do mundo do entretenimento. Você certamente conhece cantores e cantoras com voz de taquara rachada que são enaltecidos como “sensação do momento”. Infelizmente, esse fenômeno tomou proporções alarmantes dentro do universo da ficção científica. Séries como Doctor Who e “Star Trek” Discovery (bem assim, com Star Trek entre aspas) têm na imprensa “amiga” uma força que não apresentam junto ao público.

Tomatômetro: Orville x Doctor Who Um sintoma desse mal pode ser visto nas cotações do site Rotten Tomatoes, um dos maiores sites de cotação de séries e filmes da internet. A foto de Doctor Who é de 28 de dezembro. Mostra dados diametralmente opostos. Enquanto 94% da crítica (de 38 indivíduos) aprovaram a temporada passada, apenas 30% do público (de 3472 amostras) fez o mesmo. “Star Trek” Discovery teve uma primeira temporada conturbada. Dividiu os fãs. Apesar dos efeitos especiais de ponta e da excelente cinematografia, os roteiros foram fracos e confusos, com os personagens e o próprio universo da série indeciso entre tentar ser Star Trek ou um space opera genérico, talvez um Battlestar Galactica (remake) com mais violência do que o próprio Battlestar Galactica. Até aqui, tudo bem. Enquanto uma parte da mídia alinhada com esses produtores tenta convencer que errado é o público em não gostar dessas séries, a vida segue.

Mas agora eles passaram da conta. The Orville, o seriado de Seth Macfarlane que, mesmo sendo uma paródia de Star Trek conseguiu ser muito mais fiel a Star Trek do que a própria “Star Trek” Discovery, agora, sofre ataques da mídia. Só isso pode explicar a enorme diferença de aprovação entre público e crítica para essa série no site Rotten Tomatoes: 26% da crítica (dentre 47 indivíduos) aprovam a série, ao passo que, entre o público (7526 indivíduos), 93% é a taxa de aprovação. Como dizem por aí, “a voz do povo é a voz de Deus”. Fico com os 6999 indivíduos que curtiram (e muito) a série. E qual seria o motivo dessa sanha assassina por parte da crítica? Simples. Seth Macfarlane incomoda. Ele consegue falar de diversidade, inclusão e de todos os temas sensíveis abordados na ficção científica atual, sem ser chato, panfletário, e demagógico, como (infelizmente) estão sendo Doctor Who e Discovery. E ainda o faz com ficção científica de primeira.

Em The Orville, os personagens não são bandeiras. São indivíduos, gente com emoções e problemas reais, mesmo vivendo numa nave estelar, explorando a galáxia, num futuro distante. Ed Mercer, o capitão da Orville (Macfarlane), é um cara destruído pelo final de seu casamento e que tem no comando da modesta nave sua chance de redenção. Isso, se conseguir suportar a sua esposa (Adrianne Palicki), a quem pegou na cama com um alienígena sedutor, como a segunda em comando na nave. Kelly Grayson, sua ex (Adrianne Palicki), que usou toda a sua influência para salvar a carreira dele, mesmo sabendo que o marido a detesta, a oficial de segurança Alara Kitan (Halston Sage), que enfrenta a oposição da família à carreira que escolheu, Bortus (Peter Macon) um alienígena de uma raça composta exclusivamente de machos, cujo marido concebe uma fêmea, enfrentando o preconceito de toda a sua espécie, e por aí vai...

Infelizmente, “Star Trek” Discovery e Doctor Who, ao menos até o presente momento, deixaram de ser entretenimento. São panfletos, mais ocupados em defender bandeiras políticas do que em divertir.

Assisti bravamente a primeira temporada de Discovery até o final. Os personagens são caricatos. A rigor, toda a primeira temporada não tem razão de ser. A protagonista provoca uma guerra com milhares de mortes. Mas agiu certo porque, segundo seu mentor (um pacifista!), se não o fizesse, seria muito pior(?). No final, após ser até condenada à prisão, é até condecorada! Essa é a premissa nem um pouco trekker da temporada. Sério. E a protagonista é, supostamente, a mais brilhante oficial da frota... Assistir isso foi excruciante. É como um tratamento de canal ou assistir uma versão estendida de Esquadrão Suicida que dura quinze horas. Basicamente, como em Esquadrão Suicida, todos os problemas de Discovery são criados por seus próprios protagonistas. “Vamos convocar criminosos superpoderosos para nos defender deles mesmos. Depois que eles causarem os problemas que queremos resolver, vamos prendê-los outra vez". “Vamos começar uma guerra e, depois, terminá-la, por que somos a Federação, os mocinhos”. Ah, tá...

Sobram boas intenções. Mas o conhecimento de ficção científica dos roteiristas é precário. As soluções de roteiro são mágicas, tendem à fantasia, ao "Deus ex machina". Apenas para se ter uma ideia, a nave que dá nome à série viaja “através do micélio de um cogumelo subespacial (what?!) que abarca todo o universo”. Sim. Você leu certo. Eles viajam no cogumelo. Antigamente, viajar no cogumelo tinha outro tipo de conotação. Apesar de alguns exageros casuais, principalmente em Voyager e ENTERPRISE, a franquia de Star Trek sempre tentou estar em sintonia com a ciência real ou, pelo menos, a teoria. O caso é que Discovery reescreveu a cosmologia na maior cara de pau, e sem intenção de ser engraçada. Não sei de você, mas não me sinto moralmente autorizado a rir de terraplanistas e assistir Discovery ao mesmo tempo.

Como se não bastasse esse primor de roteiro, a CBS, que produz Discovery, enfrenta uma ação legal do criador do jogo Tardigrades, que conta a história de uma nave que usa um tardígrado espacial como sistema de orientação, viaja através de um cogumelo, e, gota dágua, tem personagens com as mesmas características físicas e de personalidade dos de discovery. Tardigrades foi anunciado em 2014. Discovery foi anunciada em 2015, e há fortes evidências de que os "gênios" da CBS copiaram a trama do jogo descaradamente.

Em Doctor Who, o cenário não chega a animar. Em vários momentos, conceitos básicos da série são ignorados como se nunca tivessem existido. Há situações em que os roteiristas ignoram até mesmo suas próprias adições ao universo da série. Por exemplo, no episódio que abre a temporada, é dito que Ryan (Tosin Cole), um dos novos amigos da Doutora, sofre de dispraxia, um distúrbio motor que o impediria, entre outras coisas, de andar de bicicleta. Pois bem. É só. Em nenhum outro momento do resto da temporada esse distúrbio tem relevância. Foi só um recurso para tentar atrair a simpatia do público. E muito mal empregado, visto que o distúrbio não impede o personagem de correr, saltar e se esconder dos vilões ao longo da temporada.

Em outro episódio, o mesmo Ryan resolve o “problema” da semana mandando um criminoso, aleatoriamente, para o passado distante, e deixando-o seja lá onde/quando for isso. O cara foi jogado séculos, milênios, ou eras para trás no tempo! Mas tudo fica numa boa. Qualquer um que já viu meia dúzia de histórias de viagem no tempo sabe que isso nunca acaba bem. O conto Um Som de Trovão, de Ray Bradbury e filmes como Efeito Borboleta ou De Volta Para o Futuro, mostram claramente o quão pouco os roteiristas da atual temporada entendem de viagem no tempo, que deveria ser, teoricamente, o tema do seriado.

Assim como o Thor fajuto do universo Marvel 2099, é possível que Doctor Who e Discovery venham a amealhar uma parcela dos corações e mentes de um público impressionável e pouco exigente, mais preocupado com suas bandeiras políticas do que com uma boa história. É a vida. Só espero que The Orville, ficção científica da melhor qualidade e entretenimento de primeira, consiga sobreviver aos ataques desleais da pior parte da indústria do entretenimento: aquela que se esqueceu de entreter e que quer obrigar você a gostar dela. Vida longa e próspera e que a força esteja com você. Até domingo que vem.



  • Tomatômetro: Orville x Doctor Who
    Foto: Reprodução
  • Gilson Luis da Cunha
    Foto: Divulgação

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