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Notícias | Região Especial

195 anos da imigração alemã: aqui ainda se fala alemão

Última atualização: 25.07.2019 às 09:33

De geração em geração, pessoas se mobilizam para preservar a história do Hunsrik na região

 

Reportagem: Bianca Dilly

 

Nas ruas e praças, amigos se encontram. "Kuntach", acenam, mesmo que de longe. Em casa, a família se reúne e quer saber como os outros passaram o dia. "Ales kuut?", perguntam. Nos comércios, muitas vezes procuram o atendimento em alemão ou vão até o local apenas para conversar. "Wilst tuu en thee?", oferece a proprietária aos clientes. Em locais da região, a rotina ainda é essa. O Hunsrik, uma das principais heranças da colonização alemã, vive. Nos encontros no transporte público, na fila do banco, em bailes. Ao circular por cidades como Dois Irmãos, Ivoti, Morro Reuter, Nova Petrópolis, Picada Café, Presidente Lucena e São José do Hortêncio, por exemplo, a comunicação no idioma estrangeiro é comum e correspondida entre moradores.

De acordo com a coordenadora da área de língua alemã do Instituto Ivoti, Raquel Fritzen Dapper Vetromilla, o Hunsrik ainda é falado pela comunidade, porém, é preciso atenção para que essa identidade não se perca. "Temos que enaltecer o quanto é importante se preservar o idioma dentro das famílias. Às vezes, isso acaba virando um estigma. Se rotulou que falar o dialeto é coisa de colono. Então, muitas pessoas têm vergonha, quando, na verdade, deveriam ter orgulho", explica.

O processo de proibição do alemão no Brasil, durante o Estado Novo, também pode ter contribuído para esse pensamento, conforme Raquel. E o tamanho da cidade é outro fator que influencia nesse processo. "Quanto mais urbanizado for o local, mais se perde essa noção do elo, da identidade, e menos pessoas falam o idioma. Acham que é coisa de interior, só dos colonos. Só que temos que pensar que ser colono é muito digno, muito honrado", pontua.

Foto por: Mauricio Hilgert/ Especial
Descrição da foto: Parque Histórico Municipal Jorge Kuhn - em Picada Café, dialeto do Hunsrik ainda é falado pela comunidade

Benefícios de aprender o Hunsrik

São diversos os benefícios de manter os costumes do Hunsrik. Segundo a professora Raquel, os pontos positivos iniciam na comunidade em que a pessoa está inserida e se estendem a nível mundial. "É um vínculo de identidade que se cria. Quando alguém vai em um mercadinho da região comprar alguma coisa e fala em alemão, vai ser recepcionado de um modo diferente, porque há essa identificação", inicia. Depois, o próprio fato de se falar mais de um idioma é relevante em um mundo globalizado. "Quem fala o dialeto, é bilíngue de casa. E isso, para quem tem uma visão global, de enxergar o mercado de trabalho lá fora, é de extrema importância. Sem falar que o Hunsrik facilita o aprendizado do alemão padrão e até do inglês", diz.

Luta para preservar tradições

A pouca divulgação da escrita do dialeto é uma das dificuldades para sua preservação. "O Hunsrik é uma variante do alemão padrão, originário da região do Hunsrück, que é de onde a maioria dos imigrantes que veio para a região do Vale do Sinos saiu em 1824. Só que foi sofrendo variações em cada lugar onde eles se instalaram", descreve Raquel. Algumas palavras, inclusive, não existiam na variante e novos termos foram sendo criados para denominá-las, como é o caso da xmier, que vem do verbo passar e só existe no dialeto.

Como a organização da língua possui divergências, se torna mais difícil conservar as origens. "Acaba ficando mais na oralidade, com a passagem de geração para geração, e muito está se perdendo", lamenta Raquel. Para promover a recuperação do Hunsrik, a docente sugere uma associação entre educação e cultura. "O ensino do alemão padrão nas escolas municipais, por exemplo, potencializa que as crianças continuem falando o dialeto. Mas apenas isso não é o suficiente. Precisa ter uma combinação com a área cultural, de valorizar os vínculos, as lembranças, o patrimônio", comenta. Um exemplo citado pela professora é o de Ivoti, que fez trabalhos sobre a origem do Kerb, do significado para a reunião das famílias e esse momento de comemoração.

O pequeno Murilo já ferxteen alemão

Ele tem pouco mais de 2 anos e já ri quando o chamam de frech. Murilo Boll, filho da balconista Carla Pohren Boll, 32 anos, e do pedreiro Tiago Boll, 34, ainda não sabe falar alemão, mas ferxteen tudo o que os pais e os avós conversam com ele no idioma. Ao ser chamado de sapeca, abre o maior sorriso. E a família busca estimular isso desde o início da infância. "Se depender de nós, ele vai falar alemão. Temos que incentivar para que essa cultura continue, porque, se não for por nós, um dia vai acabar", resume Carla.

Foto por: Arquivo Pessoal
Descrição da foto: Tiago, Murilo e Carla

Os avós maternos de Murilo residem na área central de Ivoti e os paternos na localidade de Picada Feijão. "Nas duas famílias, ele tem o contato com o idioma. Tem uma mistura do português com o alemão, mas ele compreende tudo e algumas palavras até saem em alemão. Podemos pedir algo para ele no dialeto, que ele vai fazer. A bisavó, inclusive, não fala nada de português", comenta. Carla trabalha em uma loja de calçados e por causa do comércio também percebe a necessidade de conhecer o Hunsrik. "Como temos muitos clientes do interior, tem pessoas que não conseguem falar direito o português e procuram quem atende em alemão", relata. Por essa e por outras, mesmo que Murilo ainda fale pisye alemão, se depender da família, em alguns anos ele estará xpreche tudo.

 

No comércio da Dona Leoni, se fala ploos taytx

Quem vai na loja da empresária Leoni Fleck, 79 anos, no Centro de Dois Irmãos, pode falar ploos taytx. Há 41 anos no mercado e no mesmo endereço, ela comenta que o estabelecimento já é conhecido e há clientes que passam pelo local apenas para conversar. "Eles passam por nós e a gente pergunta 'Wii keets?'. Aqui é um lugar que se fala bastante. Até quando vemos alguém de longe, já cumprimentamos", conta. O chimarrão entra na roda e todos os dias há pessoas que visitam a loja de confecções. "Acaba ficando no caminho para muita gente. Então, o pessoal vem aqui para pedir informações, tomar um thee e até deixa as sacolas com a gente para continuar caminhando. Às vezes, a gente começa a falar alemão e algumas pessoas dizem que não entendem", comenta Leoni, entre risos, acrescentando que seus avós eram imigrantes e que sua mãe nem sabia falar português. "Eu ensinei meus filhos também a falarem em alemão. Uma até trabalha aqui comigo. Acho que isso é muito bom, porque faz uns dez anos que eu fui para a Alemanha e entendi tudo lá. Quando estou com as minhas amigas, jogando bolão, só falo alemão", destaca. Tanke xeen, kelt e uf witerseen também fazem parte do vocabulário nas conversas. "É muito legal", conclui.

Projetos para fortalecer o idioma

Uma das formas que os municípios encontraram para fortalecer e propagar a língua alemã foi o oferecimento de aulas ou oficinas do idioma. Em Dois Irmãos, as escolas Arno Nienow e 29 de Setembro têm atividades semanais, contemplando mais de 400 alunos no ensino fundamental. "O alemão é o idioma que facilita o acesso à cultura, tecnologia, ciência e inovação europeia", ressalta a professora Ana Wiest, que leciona em ambos os colégios. Ainda neste ano, Morro Reuter lançou o Programa de Línguas Estrangeiras - Língua Alemã, Espanhola e Inglesa. No alemão, são 15 estudantes, com idade a partir de 15 anos, que têm aulas sempre às quartas-feiras à noite, na Escola Professor Edvino Bervian. Já em Ivoti, o ensino de língua alemã é sistematizado na rede municipal. Do pré-A da educação infantil ao 5º ano do ensino fundamental, os alunos têm um período semanal de aula do idioma. No 6º e 7º ano do fundamental, são dois períodos por semana. Cerca de 2,1 mil estudantes integram o projeto.

Para aprender um pouco do Hunsrik

Bom dia: Kumoynt

  
Pouquinho: Pisye

 

Boa noite (na chegada): Kunooment

 

Boa noite (na saída): Kunacht

 

Eu falo só alemão: Ploos taytx!

  

Como vai?: Wii keets?

  

Festa alemã em comemoração ao padroeiro ou à igreja local: Kerb ou Khërep

  

Doce de frutas: Xmier

 

Sapeca: Frech


Dinheiro: Kelt

 

Falar: Xpreche

 

Até logo: Uf witerseen

 

Entender: Ferxteen

 

Obrigado: Tanke xeen

 

Tu queres um chimarrão?: Wilst tuu en thee? 

  

Boa tarde: Kuntach 

 

Tudo bom?: Ales kuut?

 

 

 

Fonte: coordenadora do Projeto Hunsrik-Plat Taytx, Solange Hamester Johann

 

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