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Cotidiano Em contato com a natureza

Parques Aparados da Serra e Serra Geral: incentivo ao turismo de contemplação

Projetos para transferir gestão de parques e unidades de conservação federais no Rio Grande do Sul estão sendo concluídos. Empresas privadas farão aportes milionários para melhorar infraestrutura e ampliar serviços

Por Mônica Pereira
Publicado em: 28.11.2020 às 09:00 Última atualização: 28.11.2020 às 10:33

Trilhas levam os visitantes a belas cachoeiras Foto: Reprodução/Facebook/fotos Reprodução/Facebook Flona

Incremento do turismo e preservação da natureza. É com essa esperança que os gestores regionais aguardam pelos processos de concessão das unidades de preservação ambiental do Rio Grande do Sul. Canela, São Francisco de Paula e Cambará do Sul são as cidades que contam com essas florestas, que serão concessionadas pelo governo federal.

Os Parques Aparados da Serra e Serra Geral, entre os municípios de Cambará e Praia Grande, em Santa Catarina, são os que estão chegando na reta final do processo. Em outubro, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, esteve no Estado para visitar os cânions e lançar oficialmente o edital de concessão. A previsão é que o leilão seja aberto na primeira quinzena de dezembro, selecionando a proposta mais vantajosa para revitalização, modernização, operação, manutenção e gestão dos parques.

Em Canela e São Francisco, houve a consulta pública e se aguarda o parecer do Tribunal de Contas da União para que se possa seguir para o penúltimo passo, que é publicação do edital com as exigências impostas para as empresas privadas que irão gerir essas unidades de conservação por 30 anos.

Localizadas na Serra gaúcha, as três cidades já apresentam uma grande concentração de turistas dos mais diversos locais do Brasil e do mundo. A Região das Hortênsias é uma das mais visitadas do Estado e, apesar do grande número de atrativos, os espaços de contemplação da natureza estão sendo cada vez mais procurados pelos visitantes. Por isso, a expectativa é que as melhorias proporcionadas pelas concessões fomentem ainda mais o turismo, já que os atrativos receberão infraestrutura para receber milhões de turistas.

Possibilidade de ampliação dos serviços

A Floresta Nacional de Canela é uma das unidades de conservação administradas, há 13 anos, pelo governo federal, através do ICMBio. Conforme explica o chefe da unidade na cidade da Serra, Reinaldo Ferreira de Araújo, o modelo de concessão que está sendo proposto pelo Ministério do Meio Ambiente é um dos mais adequados, prevendo não somente a recuperação ambiental, mas também a ampliação de serviços. "Temos uma joia rara que ficou escondida por um bom tempo. Temos a possibilidade de oferecer muitos serviços, pela quantidade de turistas que desembarcam aqui na nossa região de Gramado e Canela", destaca. A Floresta recebe cerca de 1,2 mil visitantes ao ano, número pequeno, se comparado aos milhões de turistas que circulam da região anualmente.

Reinaldo reforça que a gestão turística do lugar será mais valorizada com uma empresa privada, já que o ICMBio e os órgãos públicos possuem dificuldades de investir recursos. "Esse modelo só vai trazer benefícios para a nossa Floresta", frisa.

De acordo com chefe da unidade de Canela, há apenas dois servidores para fazer a gestão dos 557 hectares do local e uma empresa privada atuando vai poder alavancar a possibilidade de oferecer outros serviços, além de investir na melhoria da estrutura, que hoje não conta nem com banheiros para os visitantes. Na unidade, há uma hospedaria que recebe pesquisadores, mas está em péssimas condições de conservação.

A audiência pública para a concessão da unidade foi realizada em agosto. No momento, o Tribunal de Contas da União está analisando os pontos propostos e deve finalizar o parecer até o final do ano. A expectativa é que o leilão seja realizado no primeiro trimestre de 2021. "Vamos aguardar pelo leilão, que deve levar uns três ou quatro meses, e esperar a empresa vencedora, que será a que prestar o serviço que satisfaça as necessidades da nossa unidade", salienta Reinaldo.

A empresa terá 30 anos para gerir a Floresta e precisa investir em torno de R$ 190 milhões nesse período, segundo o chefe da unidade. "São valores significativos que a União jamais teria como aportar. O que nos foi informado é que, nos dois primeiros anos, R$ 8 milhões devem ser destinados à construção de novas áreas, reformas nas que já existem e melhorias nas trilhas, sinalização e no entorno da Floresta Nacional de Canela. É um investimento que vai propiciar para a unidade e para toda a comunidade um serviço que nós não temos condições", garante Reinaldo.

Mais atrativos, porém de forma responsável e sustentável

Quem conhece a estrutura atual do Aparados da Serra e Serra Geral também está aguardando a concessão. É o caso do advogado Guilherme Zimmer Cavichioni, que já visitou os parques três vezes para apreciar as belezas do local e fazer trilhas em meio à natureza. Morador de Gramado, Cavichioni costuma se preparar para o passeio levando água e lanches, já que não há opções de venda desses itens no lugar. Dentro dos parques, a estrutura insuficiente é um problema. "O Serra Geral possui somente uma portaria precária. As trilhas não são muito bem demarcadas e próximo aos cânions não há qualquer medida para garantir a segurança de quem se aproxima. Já o Aparados da Serra possui uma infraestrutura básica, com estacionamento, uma recepção com algumas informações, bancos e trilhas demarcadas", avalia.

O advogado acentua que a concessão é uma oportunidade das unidades receberem mais atrativos, porém de forma sustentável. "Acho que a pavimentação dos acessos, a realização de melhorias nas trilhas, a criação de espaços para observação e de rotas para ciclismo já ajudaria bastante e certamente alavancaria o turismo na região", prospecta. Ele ressalta que não haveria problema em pagar para ingressar nos parques, desde que fosse um valor condizente com a estrutura oferecida. "Também é importante políticas de acesso gratuito ou com valor reduzido para moradores, para grupos escolares e de pesquisa, bem como para pessoas carentes. Ninguém pode ser impedido de conhecer as belezas desses lugares por não ter dinheiro para pagar o ingresso", enfatiza.

Guilherme leu o edital de concessão e, para ele, não há pontos para contestar. "De qualquer forma, devemos manter vigilância para que não sejam autorizadas, posteriormente, atrações que possam afetar a conservação dos parques, descaracterizá-los e prejudicar o meio ambiente. O ecoturismo cresce no mundo todo. Se realizado de forma sustentável, beneficia a todos: turistas, comunidade local e meio ambiente", aponta.

Empresários já iniciaram mobilização

Os empresários de Cambará estão se mobilizando, visando o incremento do número de visitantes. O diretor de um empreendimento hoteleiro e gastronômico da cidade, José Antônio Brugnera, informa que iniciou reformas e ampliações em seus negócios para conseguir atender mais turistas. Ele planeja também aumentar o quadro de colaboradores. "Acho que no primeiro e segundo ano da concessão, teremos um bom investimento dentro dos parques, principalmente, nas coisas essenciais como na construção de banheiros, estrutura", projeta. E essas são somente algumas das exigências do edital de concorrência que a empresa que assumir o local terá que concretizar. Além das melhorias na infraestrutura interna e nos arredores, o projeto, disponível no site do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), requer, por exemplo, a instalação de estruturas tipo "skywalk" nas bordas do cânion Itaimbezinho, uma espécie de passarela suspensa. Para isso, durante os 30 anos, os investimentos em instalações físicas e na operação dos parques devem girar em torno dos R$ 260 milhões.

Um milhão de turistas por ano nos cânions

Cambará será o primeiro município do Estado a finalizar o processo de concessão dos parques federais. Poder público e empreendedores da região estão felizes com esse processo e prospectam um grande incremento na economia local. "Vai, acima de tudo, possibilitar um aumento considerado na visitação da nossa cidade, criando novos empreendimentos e novos projetos, que vão garantir mais emprego e renda para a população da cidade e de todo o entorno", ressalta o prefeito de Cambará do Sul, Schamberlaen José Silvestre.

Com área total de mais de 30,4 mil hectares, os parques contam com os famosos cânions Itaimbezinho e Fortaleza, recebendo cerca de 230 mil visitantes por ano. Com o novo modelo proposto pelo Ministério do Meio Ambiente, Schamberlaen estima que esse número passe para um milhão.

O prefeito acredita, ainda, que não há pontos negativos na concessão. "Hoje, você encontra os mirantes deteriorados, poucos funcionários, pouca estrutura, inclusive, de fiscalização e controle. Com o aporte privado, vai suprir essas deficiências e aumentar a estrutura não só para a visitação, mas também para a preservação", atesta.

Incremento da receita do município

Entretanto, o poder público municipal prospecta muitos benefícios. Para o secretário de Turismo e Cultura de Canela, Ângelo Sanches, as melhorias realizadas na revitalização da área e do entorno terão como consequência o aumento no fluxo turístico da cidade. "Isso vai acarretar no incremento de receita e renda ao município, por meio do aumento da arrecadação de impostos, gerados pelo maior tempo de permanência dos turistas nesse atrativo e na cidade", reforça. O secretário de Meio Ambiente e biólogo, Jackson Müller, afirma que o ICMBio realizou reuniões com a prefeitura para buscar sugestões para o edital de concessão e que foram adotados procedimentos adequados para proteção e uso sustentável da área.

Mais opções para depois da pandemia

No mesmo estilo de concessão da Flona de Canela, está a Floresta Nacional (Flona) de São Francisco de Paula. O secretário de Turismo da cidade, Rafael Castello Costa, diz que o atual governo está entusiasmado com o projeto federal. "Estamos falando de um parque que vai receber da iniciativa privada quase R$ 10 milhões nos primeiros anos e R$ 80 milhões em 30 anos", pontua.

Costa também realça que o local, que recebe em torno de cinco mil visitantes por ano, deve ser ainda mais procurado no período pós-pandemia, pelas belezas e contato com a natureza. Para o secretário, a concessão representa geração de emprego e renda, bem como desenvolvimento social e econômico para o município.

"O parque é muito bem conservado, o ICMBio faz um trabalho fantástico. Hoje, é muito mais um parque de pesquisa, utilizado por estudantes do que um parque de visitação turística", aponta Costa. A estrutura da Floresta conta com espaço administrativo, portaria e banheiros. Contudo, com os investimentos da iniciativa privada, o secretário tem a expectativa de que a unidade passe a receber, pelo menos, 80 mil pessoas todos os anos.

A presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços (Acis) de São Francisco de Paula, Juliana Boff, acredita que é importante o engajamento dos empresários do município, buscando um melhor aproveitamento da unidade e, principalmente, para que não se perca o propósito ambiental. "O local é lindo e muito bem preservado. Conheço a Floresta e seus gestores, que sempre estão empenhados e engajados, porém com falta de recursos para melhor desenvolver o trabalho. Considero importante essa concessão, desde que seja de forma coerente, onde a Floresta possa ser aberta para uma maior visitação, trazendo um retorno turístico para nossa São Chico e região", pondera.

E para incrementar o fluxo turístico, São Chico está prospectando novos empreendimentos, que devem entrar em operação até 2023. "Está havendo uma mobilização de empreendedores com investimento em parques, hotéis, pousadas e na gastronomia. Temos uma perspectiva de que podemos mais que dobrar o número de leitos na cidade – em dois anos – chegando a algo em torno de 2,4 mil", salienta Costa. "Acho que isto é sensacional: a iniciativa privada e o poder público trabalhando juntos para desenvolver a região", conclui o secretário.

Reduto de fauna e flora a apenas 6,4 km do Centro

Onde: Canela

O quê: A Floresta Nacional (Flona) de Canela se caracteriza pelas matas com araucárias e tem uma área de, aproximadamente, 557 hectares. Variando em 740 e 840 de altitude.

A Flona faz parte da área abrangida pela Reserva da Biosfera da Mata Atlântica como Área Núcleo, sendo considerada uma região de "alta prioridade" para a conservação pelo Workshop de Áreas Prioritárias para a Conservação da Mata Atlântica.

Atrativos: Em conjunto com outras unidades, a Floresta Nacional forma um corredor de biodiversidade na Região das Hortênsias. Entre a lista de animais ameaçados de extinção e que são protegidos na unidade estão o papagaio-de-peito-roxo, papagaio-charão-Amazona e o gato-do-mato.

Visitas: A Floresta Nacional de Canela recebe visitantes individuais ou grupos agendados, além de alunos pesquisadores e visitantes e está a 6,4 km do Centro da cidade.

O Centro de Visitantes, gerido pelo ICMBio, possui um rico acervo, com diorama, atividades interativas e, como grande atração, uma araucária esquemática que permite a visitação dentro de seu tronco e ambiente radicular. Existe, atualmente, uma trilha ecológica para os visitantes com a identificação de mais de 60 espécies arbóreas, sendo que há um projeto para estruturação e interpretação ambiental de mais três opções de trilhas.

Mesmo gratuito, o acesso é feito com acompanhamento de um guia da Flona e agendamento prévio. As trilhas dão acesso às áreas com vegetação nativa, reflorestamentos e cursos d'água.

Contatos: (54) 3282-0037 e flonacanela.rs@icmbio.gov.br

Paisagens de tirar o fôlego

Onde: Entre Cambará, na Serra gaúcha, e Praia Grande, em Santa Catarina.

O quê: Os Parques Aparados da Serra e Serra Geral abrangem uma área de cerca de 30,4 hectares e são geridos pelo ICMBio.

Atrativos: No Aparados da Serra, fica localizado o Cânion Itaimbezinho, que conta com 5,8 quilômetros de extensão e paredões com até 720 metros de profundidade. A visita propicia a realização de diversas atividades, como trekking e passeios de bicicleta. Na parte de cima, é possível caminhar por duas trilhas: a do Vértice e a do Cotovelo. Já na parte de baixo, os visitantes podem se aventurar na Trilha do Rio do Boi, uma verdadeira expedição por dentro do cânion. Nos meses de primavera e verão é possível presenciar, junto às cachoeiras do Cânion Itaimbezinho, a migração das andorinhas, que ingressam nos parques para escapar do inverno no Hemisfério Norte.

No Serra Geral, está o Cânion Fortaleza com mais de 7 quilômetros de extensão, 2.000 metros de largura e uma altitude de 1.240 metros acima do nível do mar. As principais trilhas são: a Trilha do Mirante, onde é possível ver a grandiosidade do cânion e, em dias claros, parte do litoral gaúcho; a Trilha da Cachoeira do Tigre Preto onde despencam as águas do Arroio Segredo; a Pedra do Segredo, um bloco de rocha de 5 metros de altura, pesando 30 toneladas, equilibrada numa base de 50 centímetros.

Com uma rica biodiversidade, os parques concentram inúmeras espécies de mamíferos, aves e anfíbios. Somente da avifauna, mais de 350 espécies já foram avistadas nas unidades.

Visitas: Os locais abrem diariamente, exceto nas segundas-feiras, e não é obrigatória a presença de guia. O acesso aos dois parques é gratuito.

Contatos: (54) 3251-1277, (54) 3251-1262, ngi.aparadosdaserrageral@icmbio.gov.br e parnaaparadosdaserra@icmbio.gov.br

Fonte: ICMBio, sites oficiais e Prefeitura de Cambará do Sul

Pontos de riqueza natural em meio ao verde

Onde: São Francisco de Paula.

O quê: A Floresta Nacional conta com área de 1.606 hectares com altitudes superiores a 900 metros. A Mata Atlântica é o bioma predominante dessa unidade de conservação. A região é considerada uma das mais úmidas do Estado e apresenta temperatura média anual de 14°C.

A Flona é atualmente administrada pelo ICMBio e, no local, são encontrados reflorestamentos de araucárias, pinus e eucaliptos. Mais de 20% das espécies terrestres da fauna ameaçada de extinção no Estado já foram registradas na Floresta.

Na fauna, destaca-se a riqueza de aves, com mais de 210 espécies, residentes ou migratórias, e a presença de mamíferos como o leão-baio e o bugio-ruivo, que são considerados em extinção. Inclusive, já foi registrada a presença de lobo-guará.

Visitas: Não há cobrança de ingressos na Flona. Dentre as atividades, há duas trilhas ecológicas disponibilizadas para os visitantes, com o acompanhamento de um guia e agendamento prévio, além de cinco hospedarias para grupos de alunos e pesquisadores, totalizando 50 leitos. As trilhas dão acesso às araucárias centenárias, à cachoeira Bolo de Noiva e ao mirante, com vista para a Cascata da Usina, Perau do Macaco Branco, floresta nativa e povoamento de araucária de 1946.

Contatos: (54) 3244-1347 e flonasaofranciscodepaula.rs@icmbio.gov.br

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