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"Eu saí direto dos palcos para uma máquina de hemodiálise", diz gaiteiro Porca Véia

Mesmo debilitado, o ex-aluno dos Irmãos Bertussi recebeu a reportagem do ABC para relembrar o início da carreira e sua a trajetória de sucesso Reportagem: Paulo Langaro

Em uma casa aconchegante de Ivoti, o gaúcho de Lagoa Vermelha Elio da Rosa Xavier enfrenta o cotidiano de tomar remédios e, três vezes por semana, ser submetido a desgastantes sessões de hemodiálise. Aos 67 anos e há seis longe dos palcos, o gaiteiro Porca Véia luta contra a diabete. A doença interrompeu a carreira que lhe rendeu dois discos de ouro e vários outros prêmios em festivais.

Mesmo debilitado e com dificuldades para andar por causa da amputação de um dos pés, o orgulhoso ex-aluno dos Irmãos Bertussi recebeu a reportagem do ABC para relembrar o início da carreira, a trajetória de sucesso, os 23 discos gravados e o abandono prematuro dos incontáveis bailes que animou em seus 33 anos de atuação.

Você é técnico agrícola. Como e quando a carreira musical entrou na sua vida?
Comecei minha carreira na música com trinta e poucos anos. Deus me disse: 'larga tudo isso aí e vai cumprir a tua missão, que é tocar gaita e alegrar as pessoas'.

Você foi aluno dos consagrados gaiteiros e cantores Honeyde e Adelar Bertussi. O que isso representou na sua carreira?
Eu sou um seguidor, sempre tive eles como ídolos. Desde guri, sempre gostei muito do acordeon. Eles foram uma referência para mim. Foi a primeira dupla de gaiteiros do Rio Grande. Todos gaiteiros da minha idade queriam ser iguais aos Irmãos Bertussi. Mais tarde achei o meu rumo, mas sempre baseado na obra deles.

Mas os primeiros passos na carreira, como foram?
Eu estava na Escola Agrícola de Viamão, com 17 ou 18 anos. Tinha um monte de guri que tocava gaita lá. Tinha o CTG Vaqueanos da Cultura no colégio. Me entrosei com o pessoal e comecei a tocar uma gaita que tinha por lá. Fiquei lá por três anos e participei de 20 concursos de gaiteiros e ganhei 19. Daí me destaquei com instrumentista em festivais e recebi convites para várias apresentações.

E quando surgiu o apelido Porca Véia?
Surgiu na escola agrícola. Lá os apelidos se sucedem. Tinha um cara que chamavam de Porca Véia. Ele saiu quando entrei na escola. Era parecido comigo. O apelido ficou para mim.

E a marca do cabelo comprido você traz da época da escola?
Sim, lá eu já tinha o cabelo comprido. A boina comecei a usar depois.

Quantos anos tocando baile?
Foram 33 anos tocando baile. Criei o Grupo Cordiona para me acompanhar e, depois que parei, o grupo segue em frente.

Por que você teve que encerrar a carreira?
Eu tenho diabete. Tive uma degeneração crônica renal. Fui para a hemodiálise e tentei um transplante de rim, mas não deu certo. Eu estou aguardando um transplante. Em 2013, encerrei a carreira. Mas o Cordiona segue. Recentemente fizemos o lançamento de um novo CD.

Como é a vida do Porca Véia sem os bailes e a gaita nos braços?
É complicado. Não tenho vergonha de dizer que, logo no início, a gurizada saía nos finais de semana pra tocar e eu cansei de ficar chorando pelos cantos. Eu estava acostumado a ir junto. Foi muito brusco. Eu saí direto dos palcos para uma máquina de hemodiálise. Uma virada de ponta cabeça num soco só.

O que você gostaria de dizer para os seus fãs, que não podem mais vê-lo nos palcos?
Que a saudade que eles sentem de mim é a mesma que eu sinto deles. Infelizmente a doença me tirou dos palcos e eu agora tenho que tratar para não morrer. A doença é malvada. Mas eu tô lutando.

A grande companheira há uma década

Porca Veia e família Foto: Inézio Machado/GES
Há cerca de dez anos, Pórca Véia foi tocar um dos tantos bailes em Santa Catarina. Mas na cidade de Timbó a história foi diferente. A catarinense Claudinéia Bossardi, 34 anos, foi levar seus pais, Edegar Bossardi e Nelci Bossardi, para conhecer o gaiteiro. Entretanto, foi a filha que se apaixonou pelo ídolo dos pais. "Fui levar eles para assistir ao show. Eram fãs desde o início da carreira dele e nunca tinham ido a um baile", lembra Claudinéia. "O dia que ele foi me pedir em casamento quase tive que levar meu pai para o hospital. Ele não acreditava". Atualmente, é ela que cuida da carreira do marido e do grupo Cordiona. É a grande parceira nesse momento que o músico enfrenta os desafios da doença.

Reconhecimento

O gaúcho que nasceu em 2 de março de 1952, em Lagoa Vermelha, na localidade de Pontão, distrito de São José do Ouro, é o filho mais novo do produtor rural Lauro Nunes Xavier (in memoriam) e Julieta da Rosa Xavier. Recebeu vários títulos, como cidadão Honorário, comendador da Brigada Militar, Amigo da Brigada e Destaque Musical. Tocou no Grupo Candieiro, no Porca Véia e Os Tropeiritos. Tem 17 CDs gravados e três DVDs. Ganhou duas vezes o Disco de Ouro. Em 28 de dezembro de 2013, finalizou a carreira na Festa da Uva.

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Foto histórica ao lado do ídolo Honeyde Bertussi

Uma das fotos preferidas do arquivo pessoal do gaiteiro foi feita quando ainda era jovem, ao lado professor e ídolo Honeyde Bertussi. Foi com ele e o irmão Adelar, dupla consagrada de Caxias do Sul, que Porca Véia aprendeu os primeiros acordes com a gaita. E essas aulas marcaram definitivamente a carreira e destino de Porca Véia.

Honeyde Bertussi tocando junto com Porca Véia Foto: Arquivo pessoal

Mensagem de despedida a Adelar

Em setembro de 2017, o comentário de Porca Véia sobre a morte de Adelar Bertussi: "Difícil acreditar que o dia de hoje chegou! Meu mestre Adelar Bertussi, que lástima a tua partida. Se hoje sou o Porca Véia, se alcancei o reconhecimento dentro do cenário gaúcho foi a partir do teu toque de gaita."

 

''O Rock in Rio dos Pampas''

Desde de 2013 sem se apresentar, Porca Véia voltou ao palco no dia 19 do mês passado. Foi na festa de lançamento do novo CD do Grupo Cordiona, em Ivoti. A noite carregada de emoção teve a presença de mais de 250 representantes da imprensa, compositores, músicos e autoridades de várias regiões do Brasil. Segundo a diretora da Gaitaço Organizações Artísticas e também esposa do músico, Claudinéia Bossardi, o evento teve transmissão ao vivo pelo Facebook em HD.“ Mais de 180 mil pessoas já viramo show. Estamos chamando de Rock in Rio dos Pampas”, brincou Claudinéia. Por meio do seu perfil oficial no Facebook, Porca Véia agradeceu a audiência do público. “Veio gente de todo Sul do Brasil, foi lindo. Fiquei feliz e emocionado com a presença de todos vocês. Quero agradecer os responsáveis pela Sociedade de Canto Harmonia aqui de Ivoti,quenos receberam de braços abertos e nos ajudaram na organização do evento”, disse o músico. Agradeceu também as presenças dos deputados Paparico Bacchi, Gilmar Sossella e Ronaldo Santini, este último presidente da Frente Parlamentar Nacional em Defesa da Cultura e Tradição Gaúcha.

show1 Foto: Arquivo pessoal

“Uma grande alegria que tive esse ano foi receber esses dois mestres da gaita no lançamento do novo CD do Cordiona. Daltro Bertussi e Paulo Siqueira,duas grandes referências da música serrana”, comentou Porca Véia. Todas as músicas do novo CD do Cordiona estão disponíveis para os fãs, segundo a assessoria do músico. Basta enviar mensagem via WhatsApp para (51) 99888-3047.

“Esse disco foi feito para comemorar o ano maravilhoso que vocês nos proporcionaram, por isso, temos obrigação de retribuir tanto carinho e o mínimo que podemos fazer é enviar as músicas para vocês”, destacou Porca Véia. Um dos destaques é a música“Mestre dos Mestres”, de Waldemar dos Santos Filho e Gaúcho de Sananduva e que homenageia Adelar Bertussi. “A tua gaita vermelha, tão triste está calada. Seu dono não está mais, dobrou nesta encruzilhada. Foi encontrar seu irmão, pra prosseguir a jornada. O Honeyde e o Adelar lá no céu vão se encontrar, pra cantar o ‘Oh de casa’”.

O baita amigo tradicionalista Renato Borghetti

Porca Véia ao lado dos músicos e amigos João de Almeida Neto, Kako Pacheco e Renato Borghetti em momento de descontração. Além da amizade, Porca e Renato integraram o grupo Porca Véia, Borghetti e Os Oliveiras. Foto: Arquivo pessoal
Considerado por Porca Véia seu melhor amigo dentro do enorme grupo de parceiros conquistados ao longo da carreira, Renato Borghetti disse que a amizade deles é desde os tempos de Viamão. “Agaita nos aproximou em um dos tantos rodeios que tinha naquela região. Gosto muito dele. De quando em quando, eu dou um susto no freezer dele em Ivoti”, comentou, humoradamente o músico.

A grande amiga

Uma das grandes amigas do gaiteiro é Zelita Marina da Silva, professora aposentada e responsável há 24 anos pela coluna no Jornal NH “Recanto Gaudério”. “Conheci o Elio Xavier em São Francisco de Paula na década de 70 através de meu pai, que era seu amigo. Depois cada um tomou rumos diferentes e ficamos muitos anos sem nos vermos. Quando nos reencontramos, ele já estava com seu grupo musical e tornei-me sua empresária musical na região. Em 1997, quando eu fazia parte da patronagem da Sociedade Gaúcha de Lomba Grande com o patrão Aurélio Strack, trouxemos Porca Véia e grupo pela primeira vez ao Vale do Sinos para animar o baile. Foi sucesso total e veio gente de todos os lados para assistir. Admiro muito pela pessoa e pelo artista, com a música serrana originária dos Irmãos Bertussi.

Amigos de longa data e de bons bailes há 18 anos

Zelita diz que “começamos a comemorar nosso aniversário juntos, pois as datas são próximas e fizemos bailes juntos por uns 18 anos sempre com um público fiel e participativo. Num destes bailes comemorativos, organizamos a gravação do 1º DVD no CTG Estância da Liberdade,em Novo Hamburgo,em março de 2005. Entre as muitas músicas de seu repertório a que gosto mais é A Luz do Meu Rancho, que até é toque de meu celular”.

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