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Notícias | Região Especial

Seis gerações de lembranças

Segunda reportagem da série do Jornal VS sobre os 190 anos da imigração alemã no Rio Grande do Sul detalha o processo de ocupação do território pelos colonos.

Por Susana Leite
Publicado em: 23.07.2014 às 17:44 Última atualização: 23.07.2014 às 17:47
Foto: Reprodução
Segunda reportagem da série do Jornal VS sobre os 190 anos da imigração alemã no Rio Grande do Sul detalha o processo de ocupação do território pelos colonos por meio da pesquisa baseada na história da família Müller, da qual descende o escritor e pesquisador, Martin Dreher. A terceira matéria da série vai abordar os 190 anos da presença luterana no Estado. E por fim, o jornal vai elencar um conjunto de heranças culturais que se configuram no “legado alemão.”


São Leopoldo – Desterrados pela falta de emprego e pelo assombro da fome na Europa, os alemães que vieram para o Brasil traziam consigo a esperança de recomeçar a vida. Em 1826, um ano e meio depois de os primeiros imigrantes desembarcarem em São Leopoldo, os sobreviventes da família Müller, da qual descende o historiador Martin Dreher, começou sua história no Brasil. João Pedro Müller, a esposa e os filhos arrumaram as malas no povoado de Nohen, na Alemanha, para embarcar com destino a São Leopoldo. A viagem não teria volta.

A linha do tempo dos Müller – sobrenome bastante comum, que significa “moleiro” (pessoa que possui ou trabalha em moinho), conforme Dreher explica – começa a ser contada desde antes do desembarque na Colônia. A experiência como pesquisador na área da imigração motivou Dreher a investigar a própria história. Autor do livro “190 anos de Imigração no Rio Grande do Sul – Esquecimentos e Lembranças”, lançado este ano, Dreher direciona o foco para registros históricos que narram uma realidade marcada por dificuldades e por pequenas conquistas dos imigrantes. “A imigração alemã é uma história de miseráveis, como a dos italianos, dos açorianos”, como ele mesmo define.

Para a família, Dreher compilou em papel (uma espécie de polígrafo) as histórias que buscou em registros de igrejas, registros históricos e nas lembranças dos próprios parentes. Também viajou à Alemanha para conhecer o ponto de partida de seus antepassados. Na localidade de Nohen, no Birkenfeld, na Alemanha, o que seria hoje no estado da Renânia Palatinado, Dreher constatou que o estado de pobreza que seu antepassado, João Pedro Müller, deixou para trás ainda continua. “Nohen fica junto a um planalto que é, até hoje, uma das regiões consideradas subdesenvolvidas para os padrões da Comunidade Europeia.”

Desembarque
As raízes da ascendência de Martin Dreher começam com o casal Maria Margareta e João Pedro Müller, que abandonam a aldeia de Nohen com destino ao Brasil. Eles tinham um filho e duas filhas. Mas quando chegam ao Brasil, antes de se instalar em São Leopoldo, a família perde a mãe – que morreu de fome no navio que os trazia do Rio de Janeiro para o Sul, e uma das filhas. João Pedro desembarca em São Leopoldo com os filhos em 15 de janeiro de 1826, mas acaba por morrer quatro semanas depois.

Apenas os filhos sobreviveram. “Eu descendo de Jacob Phillip Müller, que, na época tinha oito anos. Até hoje não descobri quem o criou, mas como vieram outras famílias da mesma aldeia, desconfio que essas famílias tenham assumido ele”, conjectura Dreher. Nos registros da Igreja Luterana de Hamburgo Velho, em Novo Hamburgo, Dreher descobre que seu antepassado se tornara agricultor e se casara com uma mulher, nascida em Campo Bom, chamada Elisabeth Wolf. “Jacob se torna agricultor do outro lado do Rio dos Sinos. No que hoje é bairro de Novo Hamburgo, que originalmente se chamava Wiensenthal (Visital)”. Eles tiveram 13 filhos e Hamburgo Velho ficou pequeno para tantos Müller. Alguns dos familiares se mudam para Dois Irmãos, outros para Taquara e para o Vale do Caí.

Família
Foto: Ivan de Andrade/GES
“O meu antepassado vai com outros irmãos para o Vale do Caí. Aprendeu em Hamburgo Velho a profissão de funileiro, ele sai da agricultura.” Carlos Martin Müller, um dos filhos de Jacob, casou-se com Maria Luísa Schilling, cuja mãe era prima irmã de Jacobina Mentz Maurer. A filha do casal, Guilhermina, casa-se com Arthur Dreher, um alemão que chegou ao Brasil em 1912. Deles nasce Walter Dreher, que vem a ser pai de Martin Dreher. O historiador representa a sexta geração de descendentes da família Müller, que desembarcou no Brasil em 1826.
 
Contexto - Ocupação do Rio Grande do Sul
O mapa da Colônia de São Leopoldo se estendia por mais de mil quilômetros quadrados. Os limites abrangiam, na direção sul-norte, de Esteio a Campo dos Bugres (atualmente Caxias do Sul), em direção leste-oeste, de Taquara até o Porto dos Guimarães, no Rio Caí (atualmente São Sebastião do Caí). No entanto, à medida que mais imigrantes chegaram, outras regiões do Estado foram povoadas, principalmente, o norte.

A ocupação das terras do norte, segundo Dreher, se caracterizou pela formação de picadas. “Eram estradas que se abriam dentro do mato, literalmente picado, e a cada 300 metros se instalava uma família de ambos os lados a estrada.” Entre os anos de 1824 e 1830, os colonos recebiam as terras gratuitamente do governo. É neste contexto que se inicia a agricultura familiar. “Em 1850, surge a lei de terras, e desde então só se adquire terras por meio de escritura de compra e venda”, completa Dreher.

Em poucos anos as picadas começaram a se tornar autossuficientes. A prosperidade resulta de uma série de fatores, principalmente a mão de obra especializada e a educação. Os imigrantes são trabalhadores como artesãos, agricultores, funileiros, ferreiros, carpinteiros, marceneiros. “São pessoas com conhecimento técnico, o que permite a fabricação de ferramentas e utensílios, como tarros de leite, caneca, pratos, além daqueles que tinham conhecimento para construir moinhos”, cita Dreher.

A produção de alimentos aliada à eficiência técnica resulta na produção de excedentes. Os colonos produziam para si e já podiam comercializar os produtos. Começam a acumular capital. “Esses excedentes podem ser exportados para Porto Alegre e de lá para o resto do país. Esse capital que se acumula, vem a ser o embrião da industrialização. O pessoal que chegou a São Leopoldo vai migrando cada vez mais para o norte do Estado”, encerra Dreher.
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