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Notícias | Região TEATRO DO CRIME

Falsa delegacia de Novo Hamburgo era chefiada por foragido catarinense

Polícia tenta prender criminoso acusado de conciliar tráfico de droga com extorsão pelo golpe do nudes

Por Silvio Milani
Publicado em: 28.04.2022 às 22:06 Última atualização: 29.04.2022 às 07:32

Um dia depois de descobrir uma delegacia clandestina no bairro Canudos, em Novo Hamburgo, a 1ª DP da cidade aprofunda investigação sobre a complexa rede criminosa por trás do esquema e tenta prender o homem apontado como chefe do falso órgão policial. O nome não é informado por conta da Lei de Abuso de Autoridade, mas a reportagem do Jornal NH apurou que se trata do foragido do semiaberto de Santa Catarina Gustavo Antônio Demétrio Araújo, 26 anos. Ele conseguiu escapar da abordagem, na tarde de quarta-feira (27), quando três comparsas foram presos.

Sala era réplica de gabinete policial
Sala era réplica de gabinete policial Foto: Polícia Civil
São pilhas de documentos falsificados para analisar, entre boletins de ocorrência, intimações, mandados de prisão e até certidões de óbito usados no golpe do nudes, que teriam sido gerados sob coordenação do catarinense no prédio da Rua Sapiranga. Mas a iniciação de Gustavo no crime, conforme a Polícia, não foi por extorsão e estelionato. “Ele tem dois mandados de prisão em aberto por tráfico de drogas e outras investigações associadas ao mesmo delito. Pelo histórico do foragido e pelo que apuramos nessa delegacia clandestina, tudo indica que seja o chefe desse núcleo”, declara o delegado da 1ª DP, Tarcísio Kaltbach.

Rastro

Todos os processos do jovem de Canoinhas, no norte catarinense, são por crimes cometidos no estado natal e também no Paraná. Numa das prisões, em julho de 2016, foi flagrado com carga de maconha em carro de luxo em Foz do Iguaçu, na fronteira com o Paraguai. O intrigante é que, até a descoberta da falsa delegacia de Canudos, não havia rastro no Rio Grande do Sul. Ele está foragido desde outubro de 2020, quando ganhou o benefício da saída temporária e não retornou ao Presídio de São Francisco do Sul, no litoral norte de Santa Catarina.

Proteção

A Polícia apura como o foragido foi atraído ao Vale do Sinos, onde estaria contando com uma rede de proteção do crime organizado. “Lida com droga sintética, tanto é que apreendemos expressiva quantidade na delegacia clandestina. Esse tipo de tráfico, muito ligado a festas, fomenta vínculos”, observa Tarcísio. Para ele, Gustavo é também o responsável pelos 13 pacotes apreendidos, com 200 pílulas de ecstasy em cada.

As “balas”, vendidas em baladas na faixa de 50 reais a unidade, são de duas modalidades. Uma verde, chamada de Barcelona e na forma do distintivo do clube espanhol, e outra dourada, com a logomarca Gold, em alusão a barras de ouro. Um tijolo de maconha também foi recolhido.

Procurado

Gustavo Antônio Demétrio Araújo Nome: Gustavo Antônio Demétrio Araújo
Idade: 26 anos
Altura: 1,74
Características: tatuagem de escorpião das costas até a nuca
Acusações: Extorsão por meio do golpe do nudes e tráfico de droga sintética
Informações: WhatsApp da 1ª DP - (51) 99913-3694

 

 

Correu pelas escadas e sumiu no mato

O traficante catarinense demonstrou tranquilidade quando viu os agentes chegando ao prédio da falsa delegacia e, repentinamente, saiu correndo pelas escadas em direção ao mato, deixando tudo o que tinha para trás, antes da descoberta da réplica do gabinete policial. Eram aproximadamente 15 horas de quarta. Dois agentes correram atrás, mas não o alcançaram. Havia outros suspeitos no imóvel a ser vistoriado. “Possivelmente está sendo bem amparado por conhecidos, pois não teria como ficar na rua”, considera o delegado.

No quarto do foragido, que até então os policiais não sabiam quem era, foi encontrada uma carteira de motorista com a foto dele e nome de outra pessoa. A falsificação foi comprovada depois, em meio à parafernália de materiais adulterados, até armas. O foragido estaria há três meses morando no prédio da delegacia clandestina, de propriedade de uma família de Novo Hamburgo. “A gente ainda não sabe exatamente quantos estavam morando ali, mas certamente todos estão envolvidos.”

O barbeiro, o cunhado e a esposa maquiadora

Um jovem de 19 anos ficou de dono do prédio desde que os pais se mudaram para o bairro Lomba Grande, no ano passado. Sem antecedentes criminais, ele mantinha uma barbearia no térreo, onde foi preso logo após a fuga de Gustavo. Em outro andar, os agentes prenderam o primeiro catarinense. É um homem de 31 anos, cunhado de Gustavo.

“Também encontramos documento da irmã desse detido, que depois viemos a saber que é esposa do foragido. Fomos buscá-la em um salão de beleza onde estava trabalhando como maquiadora. Ela confessou que sabia da delegacia clandestina, mas afirmou que não tinha conhecimento da droga”, diz Tarcísio. O hamburguense e os irmãos da cidade catarinense de São Bento do Sul seguem no xadrez da delegacia à espera de vaga no sistema prisional. Foram autuados em flagrante por extorsão, formação de quadrilha e tráfico.

Cofre só tinha lixo

Agentes da 1ª transportam cofre apreendido
Agentes da 1ª transportam cofre apreendido Foto: Silvio Milani/GES-Especial
Na tarde desta quinta, a Polícia conseguiu um profissional especializado para abrir o cofre de 200 quilos apreendido na falsa delegacia. Havia a possibilidade de encontrar mais documentos falsificados, drogas ou armas. “Só tinha lixo. Restos de caixas de papelão”, comenta o chefe de Investigação da 1ª DP, comissário José Urbano Lourenço.

Vítima de outro Estado procurou a delegacia

Um morador do Mato Grosso do Sul ligou para a 1ª DP de Novo Hamburgo, na tarde desta quinta, atrás de informações sobre a quadrilha da delegacia clandestina. O homem, na faixa dos 60 anos, estava sendo constrangido pelo golpe do nudes. “É possível que seja uma entre as centenas de vítimas que aparecem nas falsas ocorrências e inquéritos forjados pelo grupo para extorquir. Temos muitos documentos e material recolhidos para averiguar”, observa o comissário.

O sul-mato-grossense foi seduzido por uma mulher jovem nas redes sociais e trocou fotos íntimas. Depois passou a receber intimações dos falsos policiais, no ambiente da delegacia clandestina, com cobrança de R$ 30 mil para que o inquérito por assédio não fosse adiante. “É uma quadrilha muito bem estruturada. Reproduziam documentos oficiais com sofisticada falsificação”, frisa Lourenço.

O cenário, conforme detalhado na quarta-feira pelo Jornal NH, era réplica de um gabinete policial. Painéis com logomarca da Polícia Civil e bandeiras oficiais ornamentavam o ambiente com computadores e impressoras para simular registro de ocorrências e tomada de depoimentos. Também havia camisetas da instituição, algemas, distintivos, rádios comunicadores, pilhas de documentos falsificados, simulacros de fuzil e pistola e vários outros ornamentos, como canecas com logotipo da Polícia. O ambiente inspirou o nome da operação: Teatro do Crime.

 

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