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Familiares de vítimas da pandemia falam na CPI da Covid sobre luto e revolta

Senadores afirmaram que vão apresentar uma proposta legislativa para que órfãos da Covid recebam auxílio financeiro

Por Agência Brasil
Publicado em: 18.10.2021 às 17:53 Última atualização: 18.10.2021 às 17:55

A reunião desta segunda-feira (18) da Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia (CPI) da Covid foi exclusivamente dedicada a ouvir vítimas do novo coronavírus. Durante a sessão, familiares de quem morreu por decorrência da doença relataram as experiências vividas durante a pandemia.

Parentes de vítimas da Covid-19 relataram suas experiências durante a pandemia
Parentes de vítimas da Covid-19 relataram suas experiências durante a pandemia Foto: Pedro França/Agência Senado

Após ouvirem uma série de depoimentos emocionantes, sobre a dor da perda e sobre as dificuldades agravadas pelos descasos por parte do governo na gestão da pandemia, os senadores adiantaram que vão apresentar uma proposta legislativa para que os órfãos de responsáveis vitimados pelo novo coronavírus recebam um auxílio financeiro de um salário mínimo até completarem 21 anos de idade. A CPI vai sugerir também a inclusão da Covid-19 na relação de doenças que ensejam aposentadoria por invalidez quando a perícia médica atestar.

Amanhã os senadores devem ouvir o último depoimento antes da leitura do relatório final dos trabalhos, marcada para quarta-feira (20). O representante do Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems), Elton da Silva Chaves, que integra a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec), órgão consultivo do Ministério da Saúde. Ele será cobrado a dar explicações sobre a última reunião da Conitec que retirou de pauta um documento que pretendia vetar o uso de medicamentos ineficazes no tratamento contra a covid-19 no Sistema Único de Saúde (SUS).

A votação do relatório final do colegiado foi reagendada para terça-feira da próxima semana, dia 26.

Relatos

Uma das pessoas que depôs na CPI nesta segunda-feira, foi a enfermeira obstetra Mayra Pires Lima. Além de ter sido infectada pela doença, ela perdeu dois irmãos. Hoje Mayra é a responsável por quatro sobrinhos, filhos da irmã que morreu durante o colapso da saúde em Manaus. "Só em Manaus nós temos mais de 80 órfãos da covid. Só na minha família são quatro", destacou, questionando o que está se fazendo por essas crianças e por essas famílias. 

Segundo ela, durante todo o ano de 2020, os profissionais de saúde com quem trabalha tiveram que comprar seus equipamentos de proteção individual. Comparando a situação vivida por ela e pelos colegas de profissão a "um cenário de guerra", ela destacou que no Amazonas a pandemia vitimou diversos trabalhadores da área. "Perdemos colegas pra depressão e suicídio", destacou.

"A gente via postagens sobre os nossos heróis. Nós não queremos parabéns, queremos valorização", disse ao defender a aprovação do Projeto de Lei (PL) 2564/2020, que visa aumentar o piso salarial dos profissionais da enfermagem. O senador Fabiano Contarato (Rede-ES) disse, em resposta, que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), comprometeu-se a pautar a matéria "o mais breve possível" no plenário da Casa. A recomendação de aprovação da proposta também estará no relatório final do senador Renan Calheiros (MDB-AL).

Perda dos pais

Em outro depoimento, Giovanna Gomes Mendes da Silva, de 19 anos, que perdeu a mãe e o pai por complicações da doença em um intervalo de 14 dias, também falou aos senadores sobre as dificuldades que tem enfrentado. Hoje a jovem, que tem a guarda da irmã de 10 anos, diz passar por problemas psicológicos e financeiros. Para conseguirem se manter, ela e a irmã contam com ajuda de doações de parentes da mãe que contribuem "com o pouco que têm". 

A adolescente lembrou aos senadores que, antes de ser intubada, sua mãe chegou a passar uma noite inteira internada com uma máscara de oxigênio furada e que acredita que isso tenha agravado a situação de saúde dela. Dois dias depois, seu pai foi internado. "A gente não teve nem tempo de sofrer pela minha mãe, pois não podia ficar chorando na frente do meu pai", contou a jovem. "Perdemos as pessoas que mais amávamos."

Prevent Senior

Katia Shirlene Castilho dos Santos, que também perdeu pai e mãe para a Covid-19, contou que seu pai contraiu a doença em março deste ano, uma semana antes de poder receber a vacina. O homem faleceu enquanto a esposa estava internada, em São Paulo, em um hospital da rede Prevent Senior. "Ele não teve nenhuma despedida digna e isso aconteceu com muitos brasileiros", disse.

Ela relata que sua mãe, de 71 anos, foi tratada com o chamado "kit covid" após uma teleconsulta feita pela operadora. "Não fizeram nenhum exame e acabaram mandando o kit covid", disse. Entre outras várias denúncias, a operadora, investigada pela CPI, é acusada de obrigar médicos a prescrever medicamentos sem eficácia comprovada para tratamento de pacientes com coronavírus. O plano de saúde nega as acusações. 

Perda do filho

O taxista Márcio Antônio do Nascimento da Silva, também ouvido na CPI nesta segunda, contou sobre a perda do filho Hugo Dutra do Nascimento Silva, de 25 anos. Hugo foi atendido em uma unidade de pronto-atendimento (UPA) em Copacabana, no Rio de Janeiro, transferido para um hospital, intubado por 15 dias, mas não resistiu.

Silva narrou os últimos dias de vida de seu filho, quando ele começou a sentir cansaço e falta de ar. O taxista disse ter acompanhado Hugo no hospital até o seu falecimento, e lembrou com pesar do dia em que teve de reconhecer o corpo do filho. "A última vez que o vi, ele estava dentro de um saco".

O depoente criticou declarações do presidente da República, Jair Bolsonaro, sobre a Covid-19 e a demora do Brasil para a aquisição de vacinas. Segundo ele, o que dói não é apenas o luto, mas o que veio após a morte de Hugo: "O deboche, a irracionalidade das pessoas, inclusive de amigos". "Eu daria a minha vida para o meu filho ter chances de ser vacinado", disse.

Homenagem aos mortos da Covid

O taxista lembrou aos senadores como foi o episódio em que foi flagrado na Praia de Copacabana, em abril de 2020, recolocando as cruzes que homenageavam as 100 mil vítimas da doença à época. Os objetos simbólicos haviam sido colocados na areia por uma organização não governamental e foram propositalmente derrubados por outra pessoa. Silva contou que, na ocasião, foi agredido verbalmente. "Quando descobriram que era apenas um pai que estava triste pelo seu filho, foi um constrangimento geral", disse.

Silva afirma que, para ela, o início da CPI da Pandemia foi um alívio. Ele destacou que sentiu alento em pensar que nem todas as autoridades diriam "e daí" para os óbitos em decorrência da pandemia. "Para mim, não importa o partido político dos senhores, o que importa é que meu Hugo não volta mais, mas tenho outros filhos e quatro netinhos", disse.

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