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Notícias | Região Ciência

Pesquisadoras da região estudam os efeitos e impactos do coronavírus

Juliana de Castilhos e Laura Cecilia López, da Unisinos, estão trabalhando em investigações com foco na Covid-19 na Alemanha e Colômbia, respectivamente

Por Alecs Dall Olmo
Última atualização: 27.06.2020 às 13:21

Duas pesquisadoras. Dois destinos. Um foco: a Covid-19. A professora da Escola de Saúde da Unisinos, Juliana de Castilhos, formada em Nutrição, mestre e doutora em Fisiologia Humana, está na Alemanha participando de uma força-tarefa que investiga efeitos da doença. Laura Cecilia López, antropóloga com mestrado e doutorado em Antropologia Social e fazendo pós-doutorado na área de Saúde Pública, também é da Escola de Saúde da universidade e está na Colômbia, investigando a relevância da atuação de órgãos internacionais na elaboração de respostas ao coronavírus.

Sobre o trabalho, Juliana explica que a pesquisa foi desenvolvida no Laboratório de Microbioma e Câncer do DKFZ e contou com a participação de inúmeras instituições de saúde (hospitais) da Alemanha. "O trabalho consistiu na análise e comparação de amostras de pacientes infectados pelo SARS-CoV-2 com as de pessoas que não foram infectadas. O objetivo foi associar o desenvolvimento da doença em pacientes assintomáticos e em pacientes com sintomas graves e moderados, com o perfil da sua microbiota. Nossos resultados são muito importantes pois nos dá detalhes se o perfil da microbiota dos indivíduos pode indicar a gravidade da infecção. No momento, estamos em fase de análise dos dados", enfatiza Juliana.

Sobre o trabalho longe de casa, Juliana salienta que investir em pesquisa é um diferencial de qualquer país. "Creio que estou em um dos melhores países do mundo para se fazer pesquisa. A Alemanha investe muito nas instituições de pesquisa e isso os torna grande produtores mundiais de conhecimento. Isso não quer dizer que não existam desafios e dificuldades, mas isso é compensado por um ambiente de trabalho altamente profissionalizado, onde temos acesso a equipamentos e tecnologias de última geração. Sobre o Brasil, sim, me preocupa muito a maneira que a pesquisa científica vem sendo tratada. Cada vez é mais difícil conseguir os recursos necessários para que se faça ciência com qualidade e, por isso, tantos pesquisadores desistem no meio do caminho ou optam por sair do País."

Experiência

Para Laura, a experiência permite uma aproximação com uma realidade diferente de enfrentamento à pandemia. "Estou vendo a complexidade de pensar uma resposta rápida em contexto de distanciamento social, sendo que todas as ações do projeto estão acontecendo em modalidade on-line. Ações que estão me inspirando para a viabilização de projeto de pesquisa-ação que delineei para minha volta ao Brasil."

Juliana completa que o momento é complexo. "Tudo é preocupante, pois ainda temos muitas perguntas e poucas respostas. Mas uma preocupação recorrente é o avanço da doença. Por isso ainda estamos tomando medidas de distanciamento social. Que tudo o que está acontecendo é novo para todo mundo e que ainda não temos todas as respostas, principalmente sobre quanto tempo isso irá durar. O que se sabe e o que podemos fazer é continuar com as medidas de distanciamento social, uso de máscaras. Se cada um fizer a sua parte talvez tenhamos menos efeitos colaterais", acredita.

Caminho para trilhar depois da pandemia

Laura enfatiza está em desenvolvimento um projeto que se propõe a pensar estratégias conjuntas universidade-comunidade. "Dentro desse projeto, eu estou participando de uma ação relacionada à violência de gênero e vejo que o que possamos fazer agora no contexto da pandemia, pode deixar um caminho aberto nos territórios para continuar trabalhando a prevenção da violência. O mesmo pensando no projeto que desenvolverei em São Leopoldo. Na medida em que possamos criar redes de apoio entre atores sociais, vai ficar esse caminho para continuar trilhando após a pandemia."

Estudos ampliados sobre saúde das mulheres

Laura Cecilia López, que ajustou sua pesquisa para incluir o cenário de pandemia, é professora da Escola de Saúde e tem como foco medir a relevância da atuação de órgãos internacionais na elaboração de respostas à Covid-19.

Como a pesquisa sobre a dimensão global das políticas de gênero e saúde foi parar na tua rotina?

As pesquisas que venho realizando nos últimos anos estão relacionadas à saúde das mulheres, particularmente vinculadas aos direitos reprodutivos. A última pesquisa abordou a experiência das mulheres na assistência pré-natal e ao parto em São Leopoldo. Outra dimensão que me chamou a atenção é que não se considerava amplamente a intersecção de classe e raça para pensar as situações de saúde e a garantia de direitos reprodutivos. Entre outras questões, isto me levou a interrogar se no contexto latino-americano podíamos perceber situações semelhantes ou diferentes. Assim elaborei meu projeto de pós-doutorado, que estou realizando na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Antioquia, Colômbia, sobre a dimensão global das políticas de gênero e saúde na América Latina. O que estou notando nessa pesquisa é que as diretrizes globais de políticas de saúde das mulheres, se considerarmos a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), orientam para articular as dimensões de gênero, sexualidade, raça e classe, mas que a aplicação nos diferentes países da região depende de outros fatores, inclusive com diferenças entre os níveis nacionais e locais (como é o caso dos municípios)

Como está a atuação de órgãos internacionais nas respostas à Covid-19?

Pesquisando documentos para a investigação que mencionei, encontrei um da ONU Mulheres, intitulado Gênero e Covid-19 na América Latina e no Caribe: Dimensões de gênero na resposta. O documento recomenda que a dimensão de gênero na resposta à Covid-19 contemple "necessidades e capacidades de mulheres, homens, meninas e meninos e garanta que todas as pessoas afetadas se beneficiem da assistência", com "alocação de recursos suficientes para responder às necessidades de mulheres e meninas" (ONU Mulheres, 2020, p. 2). Estudos mostram que as mulheres são as mais afetadas pela pandemia em vários níveis, principalmente porque estão na linha de frente da resposta, seja como trabalhadoras da saúde e outras ocupações remuneradas, e/ou em práticas de cuidado não remunerado nos contextos comunitários e familiares. O que estou percebendo é que essa ênfase nas mulheres não está considerando as intersecções que falei anteriormente, sejam elas de raça, de classe ou pensando o gênero de maneira mais relacional e plural. Vou dar um exemplo que tem a ver com a visibilidade que ganharam os dados de violência contra as mulheres em escala global durante o período de confinamento social ou quarentena. Em todos os países da América Latina aumentou o número de feminicídios e de denúncias de violência intrafamiliar nos canais oficiais. Porém, pouco visibilizadas são as violências que atingem a pessoas LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, trans e outras identificações não binárias), que também têm aumentado no período de quarentena. Em termos de respostas dos poderes públicos a esse problema social, parece se fortalecer a denúncia a canais oficiais como a única via de resolução. Perdem-se respostas mais integrais que já vinham sendo trabalhadas por vários atores nos planos locais. Por exemplo, o fortalecimento de associações e redes comunitárias tanto para apoiar as vítimas de violência quanto no trabalho com a prevenção, com ações pedagógicas entre homens que possam gerar masculinidades sensíveis.

Algo positivo no nosso horizonte?

Infelizmente, vou começar a resposta com um panorama crítico. A pandemia potencializou de maneira muito crua as desigualdades já existentes, falando da América Latina. Como já mencionei, os casos de violência de gênero que aumentaram durante o período de quarentena, são reflexos das desigualdades que já existiam e de problemas que ainda não tinham respostas políticas integrais e que a crise sanitária agudizou. Uma dimensão positiva que podemos ressaltar é que estas situações tão complexas visibilizam não só a importância de respostas do poder público, mas também de diversos atores. Por exemplo, as universidades. É o caso da Universidade de Antioquia. As Faculdades de Ciências Sociais e de Saúde Pública elaboraram um projeto interdisciplinar de intervenção em saúde comunitária, em territórios vulneráveis da cidade de Medellín (sede da universidade). Este projeto se propõe a pensar estratégias conjuntas universidade-comunidade para respostas localizadas à pandemia, mas que irão além desta conjuntura.

Parceria na pesquisa sobre a Covid no RS

Além do trabalho desenvolvido no exterior pelas professoras pesquisadoras, a Unisinos é parceira na pesquisa feita no Estado pela Universidade Federal de Pelotas sobre a Covid-19. Trata-se de um trabalho que envolve 13 instituições, como a Feevale, de Novo Hamburgo, e Unilasalle, de Canoas. O objetivo da investigação é obter informações capazes de subsidiar as ações de enfrentamento à doença.

Fundamental incentivo para a pesquisa

A decana da Escola de Saúde, Rochele Rossi, destaca a importância do programa de incentivo à pesquisa e que envolve a mobilidade de professores e pesquisadores vinculados a programas de pós-graduação da Unisinos. "Tem como objetivo incrementar a qualidade da formação e das pesquisas dos participantes por meio do intercâmbio cultural e científico proporcionado pelo desenvolvimento de atividades em universidades parceiras com a Unisinos e com o Banco Santander", completa. "Ficamos muito felizes ao saber que nosso apoio permitiu que as professoras pudessem alterar e ampliar o alcance de suas pesquisas. Elas somam à relevância das propostas iniciais de trabalho um novo significado que transcende fronteiras e pode ajudar muito mais pessoas neste período tão desafiador", diz Nicolás Vergara, head do Santander Universidades, por meio da comunicação da universidade. E fomentar pesquisas é sempre essencial em diferentes campos. E neste momento, especialmente as com foco na Covid-19, ganham ainda mais relevância pelo momento.

Do lockdown para a força-tarefa na Alemanha

"Eu vim para Alemanha para fazer um pós-doutorado na área de Microbioma e Câncer no Centro de Pesquisa em Câncer (DKFZ), em Heidelberg. Cheguei aqui na metade de janeiro, porém com a chegada da pandemia e o lockdown das universidades e das instituições de pesquisa, tive que interromper o meu trabalho. Mas não durou muito tempo, pois logo fui chamada pelo grupo de pesquisa para participar dessa força-tarefa", conta Juliana, que foi convidada para fazer parte de um grupo de pesquisadores de cinco hospitais alemães que estudam a doença. Ela deve retornar ao País em julho. As pesquisadoras contam com bolsa mobilidade da Escola de Saúde da Unisinos, patrocinada pelo Santander Universidades.

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