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As inovações e as lições que a pandemia já proporcionou

Práticas médicas foram desenvolvidas e aprimoradas, houve avanços no conhecimento científico, no atendimento e tratamento de pacientes, ampliação e modernização de estruturas, inclusive na região

Por Bianca Dilly
Publicado em: 03.10.2020 às 10:00 Última atualização: 03.10.2020 às 11:18

Hospital Centenário, de São Leopoldo, comprou equipamentos para a área Covid, como monitores, camas e raio X móvel Foto: Aline Marques/Comunicação FHCSL

Se você já passou pela triagem em um atendimento de saúde, deve se lembrar do pequeno aparelho colocado na ponta do dedo. Trata-se do oxímetro, que mede a quantidade de oxigênio no sangue. Só que a partir da pandemia do novo coronavírus, o objeto de uso corriqueiro passou a ganhar novo significado. Como lembrado pelo epidemiologista Wanderson Oliveira, ex-secretário nacional de Vigilância em Saúde, em entrevista publicada na edição do ABC dos dias 12 e 13 de setembro (veja páginas 4 e 5), a utilização do oxímetro pode ajudar a verificar sintomas respiratórios da Covid-19. Se o equipamento tivesse sido distribuído em escala nacional, poderíamos ter identificado mais rápida e efetivamente casos da doença.

Este é um exemplo, mas o que mais já aprendemos com o andamento da pandemia? Por bem ou por mal, ela deixará legados. Foi em virtude da necessidade de resposta para uma emergência internacional em saúde que práticas médicas foram desenvolvidas e aprimoradas, houve avanços no conhecimento científico, no atendimento e tratamento de pacientes, ampliação e modernização de estruturas, resultando em uma bagagem adquirida ao mesmo tempo em que se luta contra esse não tão mais novo inimigo.

Alguns dos recursos adotados nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI) também não são tão novos, como o uso do próprio oxímetro, de acordo com o responsável técnico hospitalar do Hospital Municipal de Novo Hamburgo (HMNH), Augusto Lengler Vargas. O que houve foram ressignificações. E a técnica de prona, conhecida pelas imagens de pacientes entubados deitados de bruços, é outra demonstração disso. "Pronar é um recurso que se utiliza há muitos e muitos anos para quando ele tem uma ventilação, uma respiração, muito, mas muito difícil", explica, lembrando que o procedimento foi recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). Vargas diz que o mesmo padrão de "novos ângulos para ideias anteriores" se dá em relação às medicações empregadas em UTIs, como os sedativos, e em tratamentos precoces e off label (indicação e aplicação divergente do que consta na bula).

Para o chefe do serviço de Medicina Interna do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Jose Miguel Dora, a casa de saúde, referência no combate ao novo coronavírus, aprimorou o atendimento em dois pontos: tecnológico e humano. "Uma coisa que vai ficar de legado foi a necessidade de se adaptar e desenvolver a telessaúde, facilitando o acesso do cidadão a vários dados", salienta. Além disso, a aproximação entre setores dentro dos hospitais trouxe benefícios. "Estamos trabalhando de forma muito mais integrada com a parte farmacêutica, psicológica, nutricional, enfermagem...", acrescenta, lembrando que assim a padronização dos processos é facilitada, com uma atuação verdadeiramente multidisciplinar. Comunicação e coordenação também ganham.

Já em relação à teoria, o professor de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Ricardo de Souza Kuchenbecker afirma que o conhecimento científico nunca foi tão desafiado e traduzido para as pessoas em tempo real. "Pela primeira vez, ele foi utilizado como forma de interferir e melhorar processos de tomada de decisão de políticas públicas, como a questão das atividades escolares, abertura de segmentos econômicos, entre outros", ressalta. Segundo Kuchenbecker, esses aprendizados foram caminhando lado a lado com a pandemia. "O que a gente sabe hoje é completamente diferente do que em junho, diferente de abril, diferente de março. As máscaras, por exemplo, que em fevereiro pareciam exóticas, demonstraram efetividade e são utilizadas em larga escala", diz.

O que já deve ficar de lição para a sociedade

Vargas ainda ressalta outros aprendizados com a pandemia, como o respeito ao poder dos micro-organismos e o combate ao uso indiscriminado de antibióticos e automedicação, que podem agravar quadros. Para o médico, fica a lição de que as práticas redobradas de higienização vieram para ficar. "Lavar as mãos, usar álcool gel e máscara, enfim, uma série de medidas que são formas de autocuidado e de atenção ao outro".

Mudanças em Canoas e Novo Hamburgo

Canoas, Novo Hamburgo e Campo Bom são outras cidades com melhorias estruturais em unidades de saúde. A reforma do 7º e 9º andares do Hospital Universitário (HU), por exemplo, foi adiantada para atender pacientes Covid-19 e os mais de 200 leitos clínicos colocados em funcionamento servirão de apoio a outras unidades de saúde do município. Em Novo Hamburgo, o objetivo é que os cinco novos leitos de UTI sob regulação do Estado no HMNH, que tiveram confirmação de habilitação pelo ministério no último mês, sigam em funcionamento após esse período. No Hospital Lauro Reus, de Campo Bom, foram criados oito novos leitos de semi UTI, "equipados com respiradores, como retaguarda para quadros respiratórios graves em decorrência da Covid-19", segundo o Executivo. Todos permanecem mesmo após o fim da pandemia. E todas as unidades de saúde, além de contarem com recursos públicos, se viram diante de uma mobilização pela solidariedade. Entidades, empresas e a comunidade se uniram para doar equipamentos e verbas. Monitores cardíacos, camas hospitalares, mesas para procedimentos, equipamentos de imagem, colchões, instrumentos cirúrgicos, bombas de infusão e termômetros infravermelhos estão entre os resultados das boas ações na região.

Transparência e valorização da saúde têm destaque

A aproximação entre conhecimento e sociedade também foi possível devido a outro legado: o da transparência. "Para que isso pudesse acontecer, era necessário que as políticas públicas fossem transparentes como nunca foram", destaca o professor da Ufrgs, dando como exemplo os sites de municípios, Estados e Ministério da Saúde, em que há informações em tempo real sobre ocupação de leitos e utilização de recursos. "Sabemos o que está ocorrendo naquele momento, o que gera um precedente promissor. É efetivamente colocar os pés no século 21", diz.

Além disso, a pandemia nos mostrou que as pessoas precisam do SUS como garantia de vida. "Isso não estava claro para muitos de nós", cita Kuchenbecker. Já Dora ainda lembra do olhar particular que os profissionais receberam. "Também passou-se a valorizar a preocupação com o desconforto psíquico. Não que não existisse antes, mas se ampliou", resume.

O que dizem o Ministério da Saúde e o Estado

Como as UTIs se referem à alta complexidade, é o Ministério da Saúde que responde, em sua maioria, pelas unidades. Nos últimos meses, habilitou mais de dez mil estruturas no País. Porém, a pasta diz que as demandas ainda devem ser consideradas provisórias. "Não temos como falar em legado, porque não se sabe quando a pandemia vai terminar. O Ministério paga as diárias, mas a responsabilidade é dividida com Estados e municípios", informa a assessoria de imprensa. Os respiradores foram entregues de forma permanente aos Estados, que fazem a redistribuição. A Secretaria Estadual da Saúde do RS (SES) revela que "está com os esforços voltados ao enfrentamento da pandemia e não é possível, ainda, avaliar o pós-pandemia". Mais de 600 respiradores foram recebidos e houve aumento de 100% nos leitos de UTI, sem confirmação se as unidades permanecerão.

Estrutura mudou, como no Hospital Sapiranga

Mas não foi apenas nos planos humano e teórico que os avanços fizeram sentido. Na prática, a parte estrutural também sofreu alterações expressivas, com ampliação e modernização de prédios, além de aquisição e recebimento de aparelhos. Um dos exemplos é o Hospital Sapiranga, que viu a reestruturação de sua UTI ganhar agilidade. "O projeto previa uma ampliação inicial de sete para dez leitos. Com a nova realidade, 12 leitos foram concluídos e colocados em funcionamento desde o início de julho", explica a diretora executiva, Elita Herrmann. Deste número, oito foram disponibilizados para Covid-19, sendo cinco por habilitação do Ministério da Saúde. "Acreditamos que parte desses leitos serão mantidos, pois mesmo antes da pandemia a falta de leitos era uma constante, principalmente nos meses de inverno, com o aumento das doenças respiratórias", diz. Também foram agregados cinco respiradores, camas elétricas, monitores e outros itens necessários para seu funcionamento, obtidos por meio de recursos próprios, emendas parlamentares e verbas do Ministério da Saúde. Os equipamentos vão permanecer na instituição. "Muita coisa mudou, novos modelos de trabalhos, novos hábitos e novos valores. Nós também mudamos, como profissionais e como pessoas", finaliza.

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