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Até a estiagem de fora atinge o Rio Grande do Sul. Como pode?

Enquanto La Niña dá uma folga e produção agrícola do Estado vai bem após longo período de escassez de chuva, crise hídrica no centro do País afeta geração de energia e deixa a conta de luz mais cara Reportagem: Ermilo Drews

Enfrentando escassez de chuvas desde o verão de 2019/2020, o Rio Grande do Sul sabe bem os efeitos da estiagem. Quebra na safra, desabastecimento de comunidades, falta de produtos e preços altos no supermercado são os principais. Mas uma crise hídrica a milhares de quilômetros do Estado também causa efeitos por aqui.

A pior condição hidrológica dos últimos 91 anos na bacia do Rio Paraná atinge cinco estados do Sudeste e Centro-Oeste e um terço dos reservatórios de hidrelétricas do País, incluindo Itaipu Binacional, responsável por mais de 10% da energia consumida no País. A energia gerada em Itaipu é capaz de abastecer os estados do Sul e do Rio de Janeiro ao mesmo tempo.

Com menos água para geração de energia, o governo federal tem recorrido às termelétricas, com custo de produção mais alto. Na prática, este valor extra é diluído entre os consumidores. A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) determinou que a tarifa será a mais alta a partir junho, com a aplicação do segundo patamar da bandeira vermelha. Será cobrado nas contas de luz de todos os consumidores um valor adicional de R$ 6,24 para cada 100 kwh de energia consumidos.

Prognóstico preocupa

E a tendência é que a conta de luz fique no patamar mais alto por um tempo ainda. Isso porque o Sistema Nacional de Meteorologia emitiu um alerta de emergência hídrica para a região da Bacia do Paraná para o período de junho a setembro. Esta bacia abrange Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná, onde estão 32,2% da capacidade dos reservatórios do País. Outros prognósticos indicam escassez hídrica até novembro.

E a situação daqui?

Se o sudeste e centro-oeste têm enfrentado crise hídrica, o Rio Grande do Sul vive uma "entressafra" da falta de chuvas. Por aqui, a estiagem que começou no verão de 2019/2020 seguiu na primavera do mesmo ano, avançando no verão de 2021 em muitas cidades, deu uma trégua, pelo menos para a agricultura. Apesar de haver regiões que sofrem com escassez de água, especialmente para consumo humano, a produção agrícola deste ano não foi afetada como na safra 2019/2020.

"Em termos gerais, o Estado vem tendo um déficit hídrico. Neste ano, de maneira geral, tivemos volumes dentro da normalidade na maior parte do Estado, com fevereiro abaixo, março ligeiramente abaixo da média, um abril extremamente seco e, em maio, precipitações em torno da média na Metade Norte e abaixo da média na Metade Sul. Esta variabilidade da chuva no Estado, inclusive, é comum", explica a coordenadora do Conselho Permanente de Agrometeorologia Aplicada do Estado (Copaaergs), Loana Cardoso.

Ela explica que a situação mais favorável neste ano fez bem para a principal cultura de verão: a soja. "As culturas de verão, não sofreram tanto mesmo com este déficit no início da primavera, principalmente a soja, que tem uma semeadura mais tardia, por isso teve produtividade muito boa." O prognóstico para culturas de inverno, como trig e aveia, além das frutíferas de clima temperado, como videira, maçã pêssego, também é promissor.

Com a saída do La Niña, a tendência é que os volumes de precipitações se normalizem em junho e julho e possam ser acima da média em agosto. "Isso é muito importante para que os produtores armazenem água", alerta Loana. O prognóstico atual indica retorno do fenômeno de forma mais fraca e redução de chuva na primavera de 2021. "Culturas de verão podem vir a ser afetadas na safra 2021/2022", admite.

Impacto na agricultura, navegação e turismo

Nesta semana, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) declarou situação crítica de escassez quantitativa dos recursos hídricos na Região Hidrográfica do Paraná até o final de novembro. Com isso, a agência deve adotar medidas para aumentar a água nos reservatórios e evitar a redução na geração de energia em sete usinas. Na prática, isso deverá impactar em áreas como navegação, agricultura e turismo.

Apesar da crise hídrica afetar a produção agrícola de estados fornecedores do Rio Grande do Sul, o impacto disso ainda não é mensurado. A Ceasa, por exemplo, só vai começar a receber frutas e legumes de outros estados, especialmente do sudeste, a partir deste mês. No momento, a safra gaúcha de hortifrútis atende a demanda.

Há risco de racionamento?

O governo federal vem adotando uma série de medidas para evitar um possível racionamento de energia elétrica no País, diante da crise hídrica.

O primeiro passo foi o acionamento de usinas termelétricas para compensar a redução da geração de energia das usinas hidrelétricas, o que encarece a conta de luz.

Mais medidas estão previstas, como acordos com indústrias para redução da produção nos horários de pico e importação de energia da Argentina e Uruguai, além de outras que estariam sendo planejadas. A maior diversidade de fontes (eólica, solar, biomassa), diferentemente do racionamento de 2001, também ajuda neste enfrentamento.

Estes esforços são importantes porque há expectativa de crescimento econômico no segundo semestre, quando se prevê maior aperto na geração de energia, por causa do prognóstico de escassez de chuvas em áreas com hidrelétricas importantes. (Agência Estado)

Fiergs defende matriz energética equilibrada

Edilson Deitos, coordenador do Grupo Temático de Energia do Conselho de Infraestrutura da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), explica que o sistema tarifário por bandeiras - que vai do verde, com condições favoráveis de energia, até a vermelha patamar 2, com o maior custo possível - foi criado para sinalizar ao consumidor a cada mês o valor real da produção. Isso dá mais transparência e evita que a conta chegue de uma única vez a cada revisão tarifária, feita anualmente.

"Estamos enfrentando a maior crise hídrica que o Brasil vive nos últimos 91 anos e irá pressionar as tarifas de energia para os próximos anos, caso não tivermos chuvas que normalizem o nível dos reservatórios", alerta Deitos. "Estamos pagando o preço das pressões ambientais contrárias às usinas hidrelétricas de maior porte, incentivo para usinas com pequenos reservatórios, falta de incentivo ou simples liberação para projetos de geração de energia térmica firme", opina.

Deitos defende um equilíbrio entre a sustentabilidade ambiental, econômica e social na matriz energética brasileira. "Temos que comparar com os outros países e ver quais as fontes de energia firme garantem os sistemas. As atuais fontes eólicas e solares estão ajudando muito na manutenção dos reservatórios, mas necessitamos uma visão de longo prazo na substituição de termelétricas a óleo combustível, de custo elevado, por termelétrica a gás e a carvão. Com as novas tecnologias, estas usinas apresentam 40% maior eficiência com redução de 15% de emissões de CO2."

A alta carga tributária é outro ponto destacado. "O Brasil é o País da energia barata e da conta de luz cara, há muitos subsídios, encargos que são bancados pelos consumidores. Não sou contra incentivos, mas os mesmos deveriam ser bancados pelo Tesouro Nacional e não pelos consumidores, sem falar da carga tributária. A energia é um dos insumos importantes para a competividade."

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