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Movimento busca por melhorias nos atendimentos as vítimas de violência sexual infantil

O luto virou luta com a criação do Movimento Acolha Penélope que já contatou mais de 20 órgãos públicos na busca pela instalação de um Crai e melhorias no acolhimento Reportagem: Bianca Dilly

Quando a assistente social Graziela Gonçalves, 39 anos, ex-moradora de Novo Hamburgo, fala com serenidade e coragem sobre tudo o que enfrentou no último ano, não é possível medir a dor que este coração de mãe sofreu. Em agosto de 2020, a filha de Grazi, Penélope Daniela Gonçalves, 14, conseguiu contar sobre a violência sexual que havia enfrentado meio ano antes, em fevereiro. As ameaças que recebia do agressor, 10 anos mais velho e até então considerado um amigo da família, impediram que o relato ocorresse antes.

Só que mais de meio ano depois, em março de 2021, veio a notícia que tiraria o chão de Graziela. A adolescente morreu em um trágico acidente de trânsito, nos arredores do Parcão hamburguense. E só 11 dias depois do falecimento é que foi chamada para atendimento no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) do Município.

O encaminhamento foi feito pela mãe sete meses antes, no momento em que ficou sabendo do abuso. Agora, ainda não sabe como ficará em relação ao processo de responsabilização do agressor. De acordo com a Delegacia de Polícia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) de Novo Hamburgo, o inquérito foi remetido ao Judiciário no fim do ano passado. O Tribunal de Justiça do Estado (TJ/RS) informa que o processo corre sob segredo de Justiça.

O Movimento

Em maio deste ano, a mãe criou o Movimento Acolha Penélope. Desde então, lidera mobilização por um Centro de Referência em Atendimento Infanto Juvenil (Crai) em Novo Hamburgo e melhores equipamentos do Sistema Único de Assistência Social (Suas). 

"Queremos dar voz a muitas Penélopes e a mães que talvez não tenham o conhecimento do que precisaria ser feito nesses casos. No movimento, eu falo como uma mãe transformou a dor do luto em combustível para uma luta tão necessária"

Explica Graziela, que enviou carta de manifestação para mais de 20 órgãos públicos municipais e estaduais a fim de contar a história da adolescente e apresentar as demandas.

Prefeitura de Novo Hamburgo, governo estadual, Ministério Público, Defensoria Pública, conselhos municipais e estaduais, Procuradoria da Mulher, Câmara de Vereadores, Brigada Militar, juizados da comarca de Novo Hamburgo, Deam, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e Rede Lilás fazem parte da ação.

A assistente social ainda coordena debates e a divulgação de informações nas redes sociais. O movimento pode ser acompanhado pelo facebook.com/acolhapenelope e instagram.com/movimentoacolhapenelope.

Luta pelo Crai

"Já tivemos reuniões e estamos construindo, em parceria com as demais secretarias e o governo do Estado, a mobilização para trazer um Crai para Novo Hamburgo", diz o o secretário municipal de Desenvolvimento Social, Eliton Ávila. Ele frisa que o Movimento Acolha Penélope vem para somar forças. A Secretaria Estadual de Segurança Pública confirma a demanda. "A implantação em Novo Hamburgo pode ser debatida com a sociedade local", informa, em nota. 

O que está sendo feito pelas autoridades

A Prefeitura de Novo Hamburgo ressalta que trabalha por medidas intersetoriais para aperfeiçoar fluxos e protocolos de atendimento, evitando a revitimização. "Compete à Política de Assistência Social evitar a continuidade e repetição da violência sofrida e prevenir agravos, dentro dos limites do cumprimento da proteção socioassistencial". O secretário Eliton lembra também, que questões como o bloqueio de contas em anos eleitorais e medidas como o bloqueio do teto de gastos interferem na rede. "E a demanda só aumenta", aponta. Pelo Estado, atribui-se à pandemia e à ausência do Posto Médico-Legal o fato de que o debate para a instalação do Crai não teve mais andamento. "Esclarecemos que o IGP tem envidado esforços para providenciar, com a maior celeridade possível, a alocação de recursos necessários para a reabertura do PML de Novo Hamburgo", observa a SSP. 

Diferença no acolhimento

O objetivo de Graziela é que, com a implementação de um Crai em Novo Hamburgo, o atendimento de toda a região fique mais próximo e centralizado, fazendo a diferença na vida das vítimas. A técnica social e presidente do Coletivo Feminista Elza Soares, Eduarda Milena, 22, mostra que o pronto acolhimento que recebeu mudou o rumo da história. "Sofri uma tentativa de abuso quando eu tinha 12 anos e o agressor era um tio meu. Por ser filha e irmã de professora, sempre tive muita orientação. Fui ensinada que o corpo é meu e que devo ser respeitada quando digo que não quero algo."

Então, a hamburguense conseguiu interferir na situação. "Logo que ele tentou, já entendi que era errado. Acendeu um alarme pra mim e fiz o movimento para sair do mar, onde estávamos. Ele tentou me afogar e disse que não devia contar pra ninguém. Mas consegui ligar para a minha mãe e ela prontamente acreditou", relembra, sobre a diferença que a educação sexual e o acolhimento fizeram nos primeiros momentos.

Algum tempo depois, ela iniciou atendimento psicológico e psiquiátrico. "É um trauma que vou levar para o resto da vida, mas sempre digo que não sou o que me aconteceu. Sou o que escolhi me tornar. E eu decidi ajudar outras mulheres", ressalta ela, que passou a integrar o Movimento Acolha Penélope. Inclusive, Eduarda é vice-presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (Condim). "Eu recebi uma das cartas da Graziela e fiquei muito mexida. A Penélope tinha quase a mesma idade que eu. Por isso, entrei em contato e decidi ajudar", recorda.

Recentemente, outra resposta recebida pelo movimento foi a do Conselho Estadual de Assistência Social. "(...) nos solidarizamos e reforçamos a urgente necessidade da implantação de serviços com estrutura e qualidade, para atender as demandas e as necessidades da sua população", destaca o texto.

Diferença no acolhimento 

Mundo ideal

Para a promotora de Justiça Andreia Alliatti (foto), que atua com infância e juventude na Promotoria de Novo Hamburgo, a implementação do Crai no Município seria um passo importante. "O ideal de atendimento seria termos um Centro Especializado da Criança e Adolescente, como existe em Porto Alegre. Nele, é tudo integrado, com os vários profissionais trabalhando juntos. Para tanto, teríamos que aumentar o número de profissionais que atendem esse público na assistência social."

Livro de Poesias e novidades na famílias

Movimento Acolha Penélope
Movimento Acolha Penélope Foto: Arquivo pessoal

Para lidar com a perda da Penélope, a avó da adolescente, Laura Rosane Rosa Pereira Pruch, escreveu um livro de poesias em julho deste ano. "Vejo flores em você" traz 46 textos sobre os processos de luto que a família enfrentou nos últimos meses. E, agora, ainda comemora uma novidade. "Descobri que estou grávida. Foi uma surpresa", ressalta Graziela, sobre o fruto da relação com o companheiro Rodrigo Stelmach Gonçalves, 40.

Para denunciar

Reportagem Especial Jornal NH
Reportagem Especial Jornal NH Foto: Arte/GES

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