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Mensagens revelam planos do Cartel de Cali para o Vale do Sinos

Colombianos orçavam barcos, contêiner e ampliação da empresa para exportação da cocaína preta a partir de Novo Hamburgo Reportagem: Silvio Milani

A rede internacional por trás dos R$ 6 milhões em cocaína preta apreendida em Novo Hamburgo, revelada pelo Jornal NH, tinha planos ousados para a base no Vale do Sinos. Estava fazendo orçamento de novo barco para o transporte da Colômbia ao Brasil, falava na compra de contêiner para estoque e combinava o aumento da capacidade operacional da empresa de fachada para as remessas à Europa.

A reportagem teve acesso a mensagens sigilosas que apontam o entorno de Novo Hamburgo e São Leopoldo como entreposto estratégico para exportação da cocaína mais cara no mundo, produzida pelo Cartel de Cali, na Colômbia.

Os planos não foram adiante porque a Polícia Civil apreendeu 26 quilos da droga em apartamento na Rua Caeté, bairro Vila Rosa, em Novo Hamburgo, há sete meses, e prendeu o morador, Fernando Rubio, 36 anos, colombiano há dez anos no Brasil. A cocaína preta estava em embalagens de açaí, que ele conseguia por meio da empresa dele de produtos naturais.

“A partir de então, aprofundamos a investigação e descobrimos que essa cocaína não era para consumo doméstico, mas exclusivamente para exportação à Europa, especialmente Espanha e Turquia”, conta o delegado da 1ª DP de Novo Hamburgo, Tarcísio Kaltbach.

Ousadia

Fernando Rubio e Guilhermo Pabon Rubio
Fernando Rubio e Guilhermo Pabon Rubio Foto: Reprodução
Em conversas com o padrasto e coordenador da rota ao Brasil, Guilhermo Rubio, que mora em lugar não identificado na Colômbia, Fernando falava sobre a intenção de crescer com o negócio no Vale do Sinos. “Os dois combinavam estratégias ousadas, muito possivelmente sob ordens ou com anuência dos chefes do cartel na Colômbia”, observa Tarcísio.

 
Colega recrutado fugiu de São Leopoldo

Gerente de churrascaria na região, Fernando já tinha recrutado um colega de trabalho para abrir entreposto em São Leopoldo. Quando ficou sabendo da prisão e da investigação, o garçom fugiu para Belém do Pará, segundo a Polícia.

 

Ramificação em favela de São Paulo

Um mandado de busca expedido por Novo Hamburgo desencadeou investigação em Paraisópolis, uma das maiores favelas da capital paulista.

“O alvo era uma jovem que recebeu material do colombiano morador de Novo Hamburgo. Ela não foi encontrada e nada foi apreendido na casa dela, mas os colegas de lá relataram as suspeitas sobre a movimentação de colombianos na área”, revela Tarcísio. Os estrangeiros, conforme apurado, estavam arredios e desocupados.

Outro mandado pedido pela DP hamburguense foi cumprido em Manaus. Era na casa do suspeito das remessas de droga por correio aéreo a Novo Hamburgo. “Apesar de nenhuma apreensão nos endereços, conseguimos confirmar as ligações.”

 

OS ÁUDIOS

 

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Print whats cocaina preta Foto: PCRS
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Os diálogos

O colombiano morador de Novo Hamburgo recebia todas as orientações do padrasto, gerente da rota, a quem chama de “padre”, em cidade não identificada do país natal.

Conversam que o limite da empresa de produtos naturais é de 16 mil dólares, o que torna necessário ampliar o porte para negócios de maior valor. Documentos e providências com contador são comentados.

Certificados sanitários para exportação, já que a cocaína preta é remetida como se fosse açaí, também são mencionados.

Ainda tratam da compra de um barco, orçado em R$ 5,5 mil, para ampliar a capacidade de transporte da droga da Colômbia a Tabatinga, no Amazonas, pelo Rio Solimões. Medidas de cargas e especificações de clientes da droga na Europa também são debatidos.

Os dois planejam ainda a compra de contêiner para carreta, com capacidade aproximada de uma tonelada, possivelmente para ocultar a cocaína em produtos agrícolas como soja.

Inquérito pode ir para Polícia Federal

 O delegado concluiu o inquérito na quarta e remeteu ao fórum com cinco indiciados. Como o enquadramento é tráfico internacional, o juiz da 3ª Vara Criminal de Novo Hamburgo, Ricardo Carneiro Duarte, pode transferir competência. O inquérito deve parar nas mãos da Polícia Federal para que siga na Justiça Federal. Além de Fernando e Guilhermo, foram indiciados o ex-colega de churrascaria, o emissor de Manaus e a jovem paulista.

 

 O caso

Por volta das 17 horas de 2 de fevereiro, agentes da 1ª DP flagraram o colombiano quando recebia dos Correios encomenda de cocaína preta em casa, na Rua Caeté. Eram 23 quilos. No apartamento dele, no oitavo andar, foi apreendida mesma quantidade.

Além da cor, o cheiro e a textura granulada não levantavam suspeita sobre a substância. Os policiais sabiam que era cocaína pela amostra que haviam recebido pela manhã, de fiscais de Receita Federal, que desconfiaram da transação e fizeram a coleta nos Correios.

Como o pó preto não ficou azul ao reagente, foi necessário sofisticado teste no laboratório do Instituto Geral de Perícias, em Porto Alegre, que só atestou cocaína na terceira máquina. E assim, com o resultado pronto no início da tarde, os policiais focaram monitorando o recebimento da encomenda.

O colombiano foi solto seis dias após o flagrante pelo Tribunal de Justiça. Em conversa com a reportagem, na quarta-feira, ele preferiu não se manifestar.

Nos sete meses de investigação, a 1ª DP apurou que a droga saía da Colômbia pelo Rio Solimões e entrava no Brasil por Tabatinga, no Amazonas. Em Manaus, um membro do grupo postava pelos Correios a Novo Hamburgo por transporte aéreo até o Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre.

Fernando, que recebia em casa, já tinha remetido por correio aéreo para Istambul, na Turquia, e estava preparando outro envio para Madri, na Espanha. Ele mora há dez anos no Brasil, onde casou com uma estanciense. O casal tem uma filha de 4 anos.

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