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O que está por trás da tortura e morte de cão ao vivo em Lindolfo Collor

É o mesmo grupo que teria incentivado jovem a invadir creche e matar crianças no oeste de Santa Catarina em maio deste ano

Por Silvio Milani
Publicado em: 30.12.2021 às 22:04 Última atualização: 31.12.2021 às 13:05

O vazamento da live em que um adolescente de 17 anos tortura, mata e esquarteja um cachorro em Lindolfo Collor, na véspera de Natal, colocou a Polícia no rastro de criminosos escondidos nas camadas mais profundas da Internet. Eles financiam atrocidades de todo tipo pelo País, em aplicativo fechado, e navegam na chamada dark web, a parte sombria da rede de computadores. Com medo de serem descobertos, o líder do grupo e seguidores mais próximos, identificados pela reportagem do ABC, passaram a disparar ameaças de morte contra a delegada que apura o caso, a família do menor, hackers rivais e até profissionais da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Deepweb
Deepweb Foto: Divulgação
Pedofilia, zoofilia, necrofilia, apologia ao estupro, nazismo, racismo, encomenda de mortes. Está tudo ali. O sadismo rege o grupo, chamado de "Elite Intelectual da Internet", com a hashtag "misoginia", que significa aversão às mulheres. Em uma das postagens a que a reportagem teve acesso, nesta quinta-feira, o líder está vendendo "CP", sigla do meio para pornografia infantil (children pornography). Ele é um morador de Goiânia de aproximadamente 25 anos, de família rica e possivelmente influente no meio político, que usa o codinome Koppy.

Uma seguidora, da mesma faixa etária, chegou a escrever o nome dele no braço esquerdo, a cortes de estilete, e exibiu na rede com o sangue pingando. Há também fotos de namoradas de membros espancadas, com hematomas no rosto, expostas com orgulho.

Cartilha da intolerância

Outra bizarrice é uma espécie de cartilha sobre como os integrantes devem se comportar, ilustrada por suásticas. A maioria das postagens é impublicável, como meninas em sexo com cavalos e outros animais. A comunidade é formada por gamers que ficam noites sem dormir em jogos on-line e passam a viver uma realidade paralela. "Muitos são psicopatas mesmo. Se reúnem e atraem até crianças para desafios sádicos", conta um hacker infiltrado. O grupo está hospedado no aplicativo Discord, criado em 2015 em São Francisco, nos Estados Unidos. Em nota à reportagem, a plataforma afirma que repudia crimes.

Plateia do horror

Essa era a plateia do adolescente de Lindolfo Collor durante a perversa live na noite de 24 de dezembro. Pelo menos 30 assistiam e orientavam como o jovem era para maltratar o animal. No vídeo de quase três minutos, ele estrangula, espanca com golpes de martelo e corta o cão com uma faca, nos fundos da casa da mãe. "Agora mata", é possível ouvir de espectador de São Paulo. Há postagens que falam de outras lives cruéis protagonizadas pelo adolescente, como tortura e morte de filhotes de gatos. Ele também já transmitiu sessões de automutilação nos braços.

Policial destaca frieza no depoimento

Segundo a delegada, o adolescente detalhou as atrocidades, no depoimento, com extrema frieza. "Trouxe novas informações, como a de que recebia pagamento pelos desafios em 'CC', que significa cartão clonado."

O advogado da família, Vilson Corino, declara que o adolescente não chegou a ser pago. "Mas teve participantes do grupo que ganharam CC, bem como moeda de jogos." Ele ressalta que o menor foi aliciado pelo interesse em games e se tornou alvo de ameaças para se submeter aos desafios.

Pai diz que família vive pesadelo

"Meu piá faz tratamento psiquiátrico desde pequeno, mas nunca imaginamos que fosse fazer uma coisa dessa com um cãozinho. Ele foi convencido nesse maldito grupo de jogos de computador e agora esses bandidos estão ameaçando queimar a minha casa e também a da mãe dele, minha ex-esposa", conta o pai, um pedreiro de 44 anos, ainda desorientado. "Só tenho a quarta série. Não sei mexer com essas coisas. Não consigo mais dormir. Divulgaram os endereços, fotos das nossas e até da minha nenê na Internet."

Ele conta que chamou o filho para uma conversa há dois meses, quando percebeu os braços cortados. "Ele disse que era dessa porcaria de jogos e que ganhou dinheiro pra isso, mas não abriu muito. Nós levamos logo à psicóloga." O pedreiro garante que o filho não é o autor das ameaças. "Depois que apreenderam as coisas (faca, martelo e celular usados na live), a gente não deixou ele chegar perto de Internet. Só podem estar se passando por ele."

O irmão mais velho, de 23 anos, reitera que a família é ameaçada. "Nesse grupo, copiaram todos os dados dele, com fotos da mãe, e passaram a intimidá-lo para fazer o que queriam."

Dona do animal não se conforma

O cachorro sacrificado era um "linguicinha" de 14 anos da família da advogada Kerlen Cabrera. Ela conta que o animal foi adotado quando morava no bairro Primavera, em Novo Hamburgo, e foi levado a Lindolfo Collor quando ela se mudou com os dois filhos, de 13 e 16 anos. O nome dele era Perigo.

"A gente sabia que ia perder a convivência com o Perigo, porque já estava quase sem visão e audição, mas não dessa forma. Toda vez que lembramos que foi submetido a essa dor, essa tortura, isso nos derruba, nos faz chorar." Kerlen frisa que era um animal incrivelmente dócil. "Tanto que nosso gatinho vivia enroscado no Perigo. Até hoje o gatinho vai procurar o Perigo na casinha. Está sentindo falta."

"Vamos para cima deles"

A delegada Raquel Peixoto, que responde pela DP de Ivoti e investiga a barbárie desde o Natal, recebeu novas ameaças de morte nesta quinta-feira, no submundo da Internet, em que hackers compartilham fotos dela com mensagens de vingança. "A delegada está 'infladaça' porque um esperto daqui a ameaçou. Ela vai prender uns quatro ou cinco daqui", comenta um membro, em chat secreto do grupo.

Três ameaças já foram enviadas diretamente a Raquel pelas redes sociais. "Vamos te matar", escreve uma pessoa com perfil falso de mulher. "Convivi com esse tipo de coisa já aos seis meses de Polícia, quando elucidamos um latrocínio em Quaraí. Mais de 22 anos depois, essas ameaças não me abalam. Temos longa investigação pela frente. Vamos para cima deles."

Após ligações, hacker tem medo de vingança

O hacker que fisgou o vídeo conta que passou a receber telefonemas e mensagens estranhas. "Devem ter me rastreado. Não vou negar que estou com muito medo." Ele reitera a aura pesada do grupo, que seria responsável não só por mortes, como também por suicídios de jovens pelo País.

O infiltrado vai além. "Há sádicos poderosos que se satisfazem com esses desafios, entre eles influenciadores digitais com milhões de seguidores. Por isso, algumas ameaças devem ser levadas a sério, porque há muito dinheiro e pessoas influentes nesse meio doentio, mas outras parecem aleatórias, como essa contra a Anvisa, que deve ser para tirar o foco da encrenca em que se meteram."

A delegada Raquel revela que fez comunicado nesta quinta-feira à Anvisa. Em meio a saudações nazistas e declarações agressivas, uma pessoa no perfil do lindolfo-collorense avisa que os profissionais "pagarão caro" por aprovarem a vacinação contra a Covid-19 para crianças no Brasil. A reportagem entrou em contato com a agência, que não se manifestou. A Polícia Federal e o Supremo Tribunal Federal (STF) também devem passar a acompanhar o caso, em razão de ameaças contra o ministro Alexandre de Moraes.

Estudante nega problemas emocionais

Um laudo psiquiátrico do jovem de Lindolfo Collor, que fará 18 anos em fevereiro, aponta que o paciente nega problemas emocionais. Ele foi levado ao médico pela mãe, que sugere piora no quadro após a separação dos pais, há dois anos. O menor também fracassou na escola, ao repetir o primeiro ano do ensino médio.

O psiquiatra insistiu na conversa, embora o paciente reiterasse que sequer sabia por que estava sendo submetido a avaliação. Brigas com colegas e professores também foram abordados. O jovem não tinha qualquer antecedente por ato infracional. Apenas ocorrências como vítima de agressões feitas por colegas.

O médico receitou medicação e orientou que o rapaz diminua os jogos no computador. Também sugeriu atividades físicas e "higiene do sono".

Rede insana

O líder, de 25 anos, interage com os membros da comunidade sombria no estúdio gamer de casa, em Goiânia. É idolatrado pelos seguidores, como uma jovem que cortou o braço com o codinome dele. O grupo tem uma cartilha discriminatória ilustrada por suásticas.

Grupo tem uma cartilha discriminatória ilustrada por suásticas
Grupo tem uma cartilha discriminatória ilustrada por suásticas Foto: Arte/GES

Vazamento pela vaidade abriu a investigação

A live em Lindolfo Collor era para ficar só no grupo, mas a vaidade de um membro expôs as vísceras da horda. Postou o vídeo logo depois em um fórum de hackers, em tom de exibicionismo. "Queria mostrar como é malvadão, viu que ia dar problema e apagou. Eu sou um dos que conseguiu copiar. Fiquei revoltado, porque cuido de cachorros de rua. Tenho 19 em casa", conta o profissional de Tecnologia da Informação do Vale do Sinos que fez a denúncia por meio da imprensa. Ele enviou o vídeo à redação do Jornal ABC ainda na véspera de Natal.

Na manhã de Natal, a Polícia já bateu na casa da mãe do adolescente, mas ele estava na residência do pai. Foi encontrado e entregou o martelo, a faca, o celular e até a bermuda que usava no crime. Mostrou a peça onde fez a live, escondido da família.

Três dias depois da apreensão, ameaças com o perfil do menor colocaram a Polícia em alerta. Dizia que estava pronto para metralhar escolas e matar crianças na região. "Se faz ameaça depois de ter matado, decapitado, ter colocado a mão dentro do pescoço do cachorro em live, a gente não pode esperar para ver. Há um contexto", declara o promotor de Justiça Wilson Grezzana, que pediu a internação provisória no Centro de Atendimento Socioeducativo (Case) de Novo Hamburgo. O lindolfo-collorense está em isolamento na unidade desde quarta-feira.

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