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Notícias | Região MUDANÇA

Alteração no currículo das escolas estaduais exclui disciplinas como educação física

Alunos do ensino médio só terão Educação Física no primeiro ano, uma vez por semana. Há outras mudanças

Por Ermilo Drews
Publicado em: 27.01.2022 às 03:00 Última atualização: 27.01.2022 às 16:05

Portaria publicada pela Secretaria Estadual de Educação (Seduc) que mexe na grade curricular dos ensinos fundamental e, especialmente, do médio tem provocado críticas. O texto diminui a carga horária de disciplinas como Educação Física, Filosofia, Sociologia e Espanhol. Em relação ao ensino médio, pela determinação do governo, ficam restritas a 50 minutos de aula por semana a Educação Física, e apenas no 1° ano. Também reduz a uma aula por semana a Filosofia, que consta como componente curricular obrigatório apenas no 1° ano. Sociologia e Espanhol apenas no 2° ano.

Alunos do ensino médio só terão Educação Física no primeiro ano, uma vez por semana
Alunos do ensino médio só terão Educação Física no primeiro ano, uma vez por semana Foto: Diego da Rosa/GES

A reação mais incisiva dos críticos se deu por conta da redução drástica das aulas de Educação Física. O Conselho Regional de Educação Física (CREF2/RS) emitiu nota de repúdio por conta da redução das aulas de Educação Física no ensino fundamental e da exclusão da disciplina a partir do segundo ano do ensino médio.

"A decisão do governo estadual vai na contramão de todos os estudos científicos que reforçam a importância da Educação Física na promoção da saúde e da cidadania, descaracterizando a função da disciplina na formação integral dos alunos. Além disto, a normativa também desconsidera os dados epidemiológicos que apresentam o aumento do sedentarismo e da obesidade entre jovens e adolescentes", destaca o conselho regional, que tentará reverter a decisão.

Decisão ecoa na AL

O assunto também será tema na Assembleia Legislativa após o recesso parlamentar, que termina em 31 de janeiro. Deputados da oposição e até da base criticaram a grade curricular publicada no Diário Oficial do Estado em 30 de dezembro. A bancada do PT encaminhou ofício ao Palácio Piratini, reivindicando a revogação da medida.

Ex-secretário estadual da Educação e do mesmo partido do governador, o deputado Faisal Karam (PSDB) também se posicionou contra a redução da carga horária de educação física. A parlamentar Luciana Genro (Psol) é outra que questionou formalmente os critérios utilizados pela Seduc e avisou que levará o tema à Comissão de Educação da Assembleia Legislativa.

Sem diálogo

"Estamos diante de um projeto de ensino médio que não dialogou com professores nem com as comunidades escolares implicadas. Lamentamos que a Seduc publique a nova base no início das férias escolares. Como as direções e professores vão se organizar para o início das aulas em fevereiro?", questiona a deputada Sofia Cavedon (PT).

A parlamentar acredita que as mudanças prejudicam a promoção de uma formação mais integral e humanística. "Como fica o desenvolvimento integral, o direito a vivenciar todas as práticas corporais e sociais que a educação física oferece? Não cabem, certamente, numa visão de educação que conforma meninas e meninos de classes populares para a adaptação a um mundo restrito ao trabalho explorado precocemente", lamenta.

O que a Seduc diz

Em nota, a Seduc justifica que as mudanças atendem o novo ensino médio, legislação aprovada em 2017 e que começa a entrar em vigor neste ano. “Esta mudança abre espaço para a composição de um currículo que proponha, além dos componentes curriculares, a oferta de clubes, oficinas, projetos, incubadoras, núcleos de estudo, de criação artística, entre outros espaços que podem ampliar também a prática e a cultura do esporte nos sistemas e instituições escolares”, defende a Pasta.

Ainda de acordo com a Seduc, pela proposta, o primeiro ano, que inicia em 2022, contempla a formação geral básica. Nessa etapa, o aluno tem as disciplinas normais de formação geral: Língua Portuguesa, Matemática, Inglês, Artes, entre outras, além de carga horária destinada a seu projeto de vida e sua relação com o mundo do trabalho. O projeto de vida é uma espécie de orientação que buscar a ajudar o jovem a entender suas aspirações.

No segundo ano, que iniciará em 2023, depois de o aluno trabalhar seu projeto de vida, ele poderá optar por itinerários formativos que contemplem seus interesses e anseios profissionais. A Seduc reforça que a prática da educação física segue presente no currículo na formação geral básica e será desenvolvida também nos itinerários formativos.

Formar mão de obra barata

Integrante da comissão do Cpers/Sindicato, a professora Rosane Zan avalia que as alterações no currículo atendem à demanda do novo ensino médio, proposta criticada pelo Cpers desde sua apresentação. “É bem claro que coloca três disciplinas como obrigatórias, Português, Matemática e Inglês, e as outras flexíveis. Os itinerários formativos serão a preparação de uma mão de obra barata, desconsiderando a formação do cidadão.” Ela critica ainda a padronização curricular proposta pelo governo do Estado. “Desconsidera onde o aluno está inserido. Sou do tempo que a gente construía o projeto pedagógico de acordo com a comunidade.”

"A gente acredita que vai fazer muita falta"

Apesar de as principais mudanças ocorrerem de maneira gradativa pelos próximos anos, as escolas leopoldenses já estão se organizando para tentar se adaptar às medidas. Para algumas, porém, a redução dos períodos de Educação Física – uma das disciplinas preferidas dos jovens – deve ser a alteração mais sentida na comunidade escolar. Vice- -diretora do turno da manhã da Escola Villa Lobos, Daniela Torres lembrou que, até o ano passado, a disciplina era oferecida em dois períodos semanais para o 1º e 2º ano do Ensino Médio e um período para o 3º ano.

“Com essa implementação, vai ficar um período para ambos neste ano e não terá para 2º e 3º anos daqui dois anos”, explicou. A instituição já está se organizando para as alterações e Daniela acredita que a maioria dos estudantes também deve estar acompanhando pelas redes sociais, nesse período de férias, a divulgação das mudanças. A redução da Educação Física, porém, deve ser a mais comentada. “A gente sabe que é uma disciplina que eles gostam muito e vão sentir esse impacto.”

O mesmo pensa a diretora da Escola Estadual de Ensino Médio Cristo Rei, Andrea Prestes. Segundo ela, a instituição integra um projeto esportivo que abrange modalidades diferenciadas e prepara para os Jogos Escolares do Rio Grande do Sul (Jergs). Por ele, os professores de Educação Física já tinham uma carga horária maior, a fim de possibilitar mais tempo de prática e treinamento em futebol, basquete, vôlei, atletismo e rugby.

“Tivemos ótimos resultados e bastante alunos com participação boa, ganhando medalhas no Jergs nos últimos anos, por conta desse trabalho que eles vêm desenvolvendo com os nossos professores”, disse. “Temos muita preocupação. São dois professores atualmente e essa diminuição (que deve ser implementada) é bem problemática”, avalia Andrea.

“Estamos na espera que a Seduc autorize novamente para que a gente não sinta uma queda tão grande nessa questão. Temos certeza que a Educação Física, o trabalho corporal feito com os alunos, as modalidades desenvolvidas, tudo isso é importante. E o esporte vem em primeiro lugar para isso. A gente acredita que vai fazer muita falta.”

*Colaborou: Priscila Carvalho

Novo ensino médio

As alterações na grade curricular atendem fundamentalmente a proposta do novo ensino médio, mais focado na preparação para o trabalho do que para o ensino superior. A lei federal é de 2017, mas começa a entrar em vigor, gradativamente, a partir de 2022. Entre outros pontos, o novo formato prevê o aumento de horas letivas anuais e mudanças na grade curricular.

Disciplinas como Educação Física e Espanhol, por exemplo, vão dar espaço ao chamado projeto de vida e aos itinerários formativos, que abordarão diferentes áreas de conhecimento ao longo do ensino médio à escolha dos alunos. São nestes itinerários formativos que disciplinas agora excluídas poderão ser trabalhadas.

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