Publicidade
Botão de Assistente virtual

Economia e pandemia fazem gaúchos reinventarem tradicionais celebrações farroupilhas

Só neste ano, costela teve aumento de 30% no quilo. Em pouco mais de um ano e meio, alta foi superior a 60%, conforme estudo. Já o chimarrão não é mais compartilhado como tradicionalmente, por recomendações dos órgãos sanitários. Reportagem: João Carlos Ávila

Por João Carlos Ávila

joao.avila@gruposinos.com.br

 

Picanha, maminha, vazio... Mas nada supera a costela na preferência gaúcha, quando o assunto é churrasco. Com a chegada do 20 de setembro, então, não há rincão deste Rio Grande sem uma churrasqueira em brasa. Preparar o mais tradicional dos pratos gaúchos é um ritual. Enquanto uma mão vira o espeto, a outra segura a cuia e outro símbolo da Província de São Pedro, o chimarrão.

Mas, em tempos de pandemia e inflação em alta, adaptações são necessárias. O preço da carne disparou, na média 11% este ano. Só que a costela já está em média 30% mais cara. O quilo da erva mate também tem preço bem diferente daquele do início do ano, com aumento de 13%. E a cuia, diferente do poema, não passa mais de mão em mão. É cada um com o seu mate, o que aumenta o consumo.

Ainda estávamos no mês de julho quando o alerta foi feito: as proteínas animais - e aí se encaixa a carne bovina - teriam aumento de preço superior a 10% neste ano, bem acima do índice previsto pelo governo para a inflação oficial, de 5,9%. Mas a carne de boi tem projeção de aumento de 17,6%, segundo a LCA Consultoria. No entanto, o principal corte do churrasco já ultrapassou estas previsões.

Alternativas

Diante deste cenário, como passar o 20 de Setembro sem churrasco? O jeito é reinventar. Conforme Paulo Roberto Feiten, o Mandão, que comanda o açouque da família que já tem 55 anos de tradição em Novo Hamburgo, alternativas existem. "O churrasco ficou caro", reconhece. Por isso, para quem não quer perder o hábito sem pesar muito no bolso, sugere a ponta de peito, que tem o preço do quilo na faixa de 12 reais mais barato do que a costela. Já a costela minga pode ser encontrada por cerca de 10 reais a menos. Outra possibilidade é a costela que vem do centro do País, cortada no que se chama de "janela". O peso varia, mas fica na casa dos sete a oito quilos a peça. Pode custar até 20% menos que a nossa. É congelada, o que já tem a reprovação da maioria dos churrasqueiros.

O açougueiro diz, ainda, que aumentou a procura pela carne de frango e de porco, boas opções para assar no acompanhamento da carne de gado. Mas o frango já teve aumento de 16,72% este ano, enquanto que a de porco está 16,22% mais cara.

Deco Oliveira, açougueiro em um mercado do bairro Vila Nova, também em Novo Hamburgo, diz que a costela da raça angus, com a qual trabalha, está com o preço 35% mais caro do que no início do ano. "Subiu muito, está pesado para o cliente." Mas também oferece alternativas, como a carne de paleta (segunda), sem osso, agulha, ponta do peito e carne de porco e frango, todos com preço "mais em conta", segundo ele.

Carnes de boi, frango e de porco mais caras

Estudo do Núcleo de Pesquisa Econômica Aplicada/IEPE da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) mostra a variação de preços dos produtos indispensáveis para o gaúcho no período de janeiro de 2019 a agosto deste ano. Nestes 32 meses, a costela bovina teve salto de 60,23%, passando de R$ 18,56 para R$ 29,74. A chuleta, outro corte apreciado pelos churrasqueiros, teve alta de 46,66%, indo dos R$ 23,81 para R$ 34,92. Uma das alternativas, a costela suína, teve salto de 31,62% no mesmo período (foi de R$ 17,58 para R$ 23,14). A carne de frango teve alta de 42,91% (R$ 7,62 para R$ 10,89), enquanto que a coxa e sobrecoxa, conforme o mesmo levantamento, subiu 20,83% (R$ 10,89 para 13,28). A mesma tendência teve a erva-mate, matéria-prima do chimarrão, que passou de R$ 11,85 em janeiro de 2019 para R$ 13,35 em agosto último, alta de 12,65%.

Ele ainda fica com a costela

Churrasco
Churrasco Foto: Diego da Rosa/GES
O médico André Kruse não abre mão do bom churrasco. Diz que, desde março do ano passado, por conta da pandemia, não vai a restaurantes. "A gente vai se adaptando", comenta ele, ao comprar uma tira de costela. "Está cara, mas o custo-benefício vale a pena", observa ele, que há 20 anos compra no mesmo açougue. "Aqui não tem erro", salienta.

Prático, fácil, mas caro

Os ingredientes do churrasco não são muitos. Um bom pedaço de carne, sal grosso, espeto e lenha ou carvão. A churrasqueira é opcional. Têm as móveis, fixas e até temporárias, feitas com tijolos em um espaço qualquer de terreno. Mas sem ela também é possível assar a carne. Basta fazer fogo no chão e aproximar o espeto "cravado" na terra. Este método é atribuído aos tropeiros e hoje é um dos mais tradicionais, especialmente quando se fala em 'costelão'.

Fazer o churrasco é um ritual que o gaúcho aprende desde a mais tenra idade. Faz-se o fogo, coloca a carne no espeto e, quando a lenha ou carvão está em brasa, aproxima a carne do fogo. O sal pode ser colocado antes ou depois de levar ao fogo. Além de temperar, o sal ainda "sela" a carne, evitado que fique queimada. O tempo no calor varia. Uma hora, uma hora e meia e está no ponto. Já o costelão pode ficar 6, 8, 12 horas no fogo.

Dia do Chimarrão e do Churrasco

O Dia do Churrasco e do Chimarrão é 24 de abril. A data foi escolhida em homenagem à fundação do primeiro Centro de Tradições Gaúchas do mundo, o CTG 35, em 24 de abril de 1948. Mas o maior consumo da 'carne assada' está na Semana Farroupilha.

Mas afinal, quando surgiu o churrasco? Desde que o homem descobriu o fogo, já usava o calor para assar a carne de suas caças. No Brasil, a iguaria foi introduzida no século 17, junto com a instalação dos Sete Povos das Missões e a catequização dos indígenas. Estes nativos assavam a carne ao ar livre. Normalmente faziam fogueira sobre pedras. E a carne era colocada para assar sobre uma grelha de madeira verde.

Herança guarani

Assim como o churrasco, o chimarrão é um dos símbolos do Rio Grande do Sul. Para ser feito, precisa-se de erva-mate, cuia e uma bomba para beber. O nome chimarrão vem do espanhol, chimarrón, ou animal em seu estado selvagem, cão sem dono, o que remete à pureza e ao amargor da erva, consumida moída e sem misturas.

A erva-mate é uma planta nativa da América do Sul e a cuia é feita de porongo, fruto da planta porongueiro. Já a bomba mais tradicional é a de metal, podendo ser de inox, prata e até ouro. Os guaranis bebiam o chimarrão com o tacuapi, feito de taquara.

Pandemia levou grupoa criar o mate virtual

Mate virtual aproximou Dayse e Ciro Chamum, de Porto Alegre, com Edna Cardoso e Elton Romero, de Rolante
Mate virtual aproximou Dayse e Ciro Chamum, de Porto Alegre, com Edna Cardoso e Elton Romero, de Rolante Foto: Reprodução
A necessidade de manter o distanciamento social não afastou os amantes do chimarrão do convívio diário. Pelo contrário, a "roda" de mate só aumentou com a criação do grupo Cuia na Mão, uma página do Facebook. Hoje são 21 mil membros, de várias partes do Brasil e até do mundo. "Prezamos pela amizade e confraternização entre os membros", explica o administrador Ciro Chamun Júnior que, junto da esposa, Dayse, cultiva amizades de um jeito novo.

Fotos dos mates decorados também fazem parte desta família. As brincadeiras são diárias. "Tudo na mais ampla alegria e harmonia, pois na verdade o respeito pelo amigo é o que importa", acrescenta ele. "Nesta época de pandemia, sabemos que fizemos a diferença para muitos que se sentiam sozinhos e em depressão. Aproximamos pessoas e fizemos centenas de amizades, sempre se apoiando", diz Chamun Júnior.

Segundo ele, o grupo tem planos de promover reuniões em várias cidades. "Depois que isso passar, e acho que vai ser sempre cada um com a sua cuia", esclarece. Outra regra é se informar sobre o preço da erva-mate. "O bom é conhecer as marcas e cuidar as promoções," salienta o administrador.

Semana Farroupilha com churrasco "mais magro"

O churrasco da Semana Farroupilha já não reúne tanta gente e está mais "magrinho". É o reflexo da pandemia nos costumes e, principalmente, no bolso do gaúcho.

O tradicionalista Oldair Loureiro já mescla costela bovina com carne de porco e salsichão para "aliviar" o bolso
O tradicionalista Oldair Loureiro já mescla costela bovina com carne de porco e salsichão para "aliviar" o bolso Foto: PAULO PIRES/GES
Para o tradicionalista Odair Loureiro, um dos responsáveis pela churrasqueira no Piquete Filhos da Tradição, em Canoas, com a alta no preço da carne a alternativa é escolher outros tipos de corte para o assado. "Atualmente tenho comprado mais carne de porco, frango e salsichão. Mas a costela, que é uma das peças mais caras, compramos para os festejos da Semana Farroupilha", conta. Ele lembra que no início do ano pagava em torno de R$ 12,00 o quilo da costela, que agora está beirando os R$ 29,00.

Loureiro explica que as adaptações são feitas de acordo com a ocasião. "Antes, reuníamos o pessoal e costumávamos assar carne para sobrar. Agora, além do preço, também têm as restrições em função da pandemia. Juntamos somente umas dez pessoas, então fica mais pesado também para dividir os custos." Segundo o tradicionalista, com o valor que estão custando os cortes como maminha e picanha, o churrasco praticamente não tem saído em casa. "Até o início do ano, mais ou menos, gastávamos em torno de R$ 100,00 para um churrasco. Atualmente, não sai por menos de R$ 300,00", ressalta. (Daniele Farias)

Gostou desta matéria? Compartilhe!
Publicidade
Matérias especiais
ACOLHA PENÉLOPE

Movimento busca por melhorias nos atendimentos as vítimas de violência sexual infantil

Região

Marcas da falta de amparo ficam nas vítimas de abuso sexual infantil

Região
ACOLHA PENÉLOPE

Pandemia esconde ainda mais os números da violência sexual infantil

Região

Clínica oferece tratamento amplo para vencer a dor

Região