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Notícias | Rio Grande do Sul ENTREVISTA

'Tarefa é criar empregos dignos, com melhor remuneração', avalia pesquisador sobre escassez de mão de obra

Para o professor da Unisinos Carlos Eduardo Pinho, superação do problema passa pela criação de uma política coordenada nacionalmente

Por Eduardo Amaral
Publicado em: 28.12.2021 às 18:51 Última atualização: 29.12.2021 às 15:23

O setor industrial brasileiro reclama há pelo menos uma década da escassez de profissionais qualificados para preencher os postos abertos pelas empresas. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais (PPGCS) da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Carlos Eduardo Pinho acredita que o problema passa, principalmente, pela ausência de uma política de Estado que garanta qualificação profissional.

O pesquisador elenca ainda outras razões, como a precarização do trabalho a partir do avanço de reformas que alteraram a relação entre empregados e empregadores. 

Professor do PPG em Ciências Sociais da Unisinos, Carlos Eduardo Pinho
Professor do PPG em Ciências Sociais da Unisinos, Carlos Eduardo Pinho Foto: Divulgação

Integrante do "Grupo de Pesquisa Interinstitucional Futuros da Proteção Social", vinculado à Fundação Oswaldo Cruz, o pesquisador estuda temas como trabalho, previdência, assistência social, segurança alimentar e saúde.

Em entrevista à reportagem do ABC, Pinho faz uma análise aprofundada sobre o cenário que envolve a falta de mão de obra e o desinteresse por parte de trabalhadores qualificados em relação às oportunidades oferecidas pela indústria. O professor apresenta ainda propostas para a superação do problema, que demandam, inevitavelmente, forte aparato financeiro do governo federal.

ABC - O déficit de mão de obra qualificada não é algo de hoje. Por que o Brasil ainda tem essa dificuldade de formação, especialmente de técnicos?

Carlos Eduardo Pinho – É uma questão de articulação intersetorial de políticas públicas. A iniciativa do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), criado em 2011, no governo Dilma Rousseff, foi importante do ponto de vista da expansão da Educação Profissional e Tecnológica (EPT), da capacitação dos trabalhadores de forma articulada a políticas de criação de trabalho, emprego e renda. Houve um investimento considerável na expansão das escolas técnicas nos Institutos Federais. No entanto, dados recentes mostram que, embora mais educada e treinada, a metade da população mais pobre do Brasil não consegue aumentar a empregabilidade e, portanto, a renda.

O fato é que a estagnação econômica dos últimos anos, a longa recessão (2014-2016), a crise político-econômica, a desmontagem e a descontinuidade de políticas, como o Pronatec, aumentaram o contingente de pessoas treinadas, porém, ociosas. Penso que o que há no cenário mais recente é uma completa falta de coordenação intergovernamental.

O mercado de trabalho brasileiro é caracterizado por uma constante flexibilidade estrutural e rotatividade, especialmente em setores como a indústria de alimentos, calçadista e moveleira, onde ocorre uma contratação sazonal de trabalhadores, de acordo com o ritmo de vendas. São setores que não exigem uma mão de obra tão qualificada e dependem muito da sazonalidade, como festas de final de ano, por exemplo. Na ausência de períodos de crescimento e de políticas econômicas de expansão do emprego, a presença de mão de obra qualificada converge para o aumento da ociosidade no mercado de trabalho. 

 

Empregos protegidos, com remuneração digna fortalecem a ampliação do mercado interno, criando um ciclo virtuoso na economia que é benéfico ao empresariado.

No governo Michel Temer (2016-2018), a reforma trabalhista de 2017 facilitou a criação de contratos atípicos, como o intermitente; permitiu a redução dos custos de contratação e demissão através da fixação de condições de trabalho inferiores às da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT/1943). Ademais, esvaziou as funções normativas da Justiça do Trabalho. Assim que Bolsonaro foi eleito e empossado, uma das primeiras medidas de seu governo foi a extinção do Ministério do Trabalho.

Acredito que não é viável pensar a política de mercado de trabalho sob um viés unidimensional. Ela precisa estar combinada com outras dimensões: a qualificação, o fortalecimento em pesquisa, a inovação, o investimento em ciência e tecnologia e a proteção social. O que falta no Brasil é uma estratégia de desenvolvimento que possa alavancar o investimento público em infraestrutura a partir da edificação de um pacto nacional-democrático que contemple o Estado, o empresariado, a burocracia pública, a classe média, os cientistas, os acadêmicos, os sindicatos e os trabalhadores.

É urgente induzir o potencial do mercado interno e a retomada do investimento público para ensejar um efeito em cadeia, mediante a geração de empregos, o aumento da renda, a formação de mão de obra qualificada, a dinamização da indústria e a sofisticação tecnológica, propiciando a produção e exportação de bens de alto valor agregado, como fazem as economias políticas do leste asiático: Coreia do Sul, China e Taiwan. Empregos protegidos, com remuneração digna fortalecem a ampliação do mercado interno, criando um ciclo virtuoso na economia que é benéfico ao empresariado.

ABC - Alguns empresários entendem que o jovem não tem interesse no trabalho na indústria e falam, inclusive, na falta de interesse em estudos. Quais motivos o senhor acha que leva a esse desinteresse, especialmente no setor calçadista?

Carlos Eduardo Pinho – É completamente equivocado individualizar, culpar os jovens por uma eventual “falta de interesse em estudos” e pela falta de mão de obra no setor calçadista. A minha hipótese é que os jovens de hoje estão subordinados à dimensão tecnológica, à esfera da economia digital, do capitalismo informacional-digital e, portanto, da economia de aplicativos, que hoje são os maiores empregadores do País, segundo pesquisa do Instituto Locomotiva.

Do ponto de vista da indústria, o setor calçadista não garante uma remuneração atrativa, grande parte do processo de produção é realizado de modo artesanal, e o setor tem pouco investimento setorial. É um ramo tradicional que não produz grande inovação tecnológica e, no geral, paga salários mais baixos.

As demissões em massa que ocorreram durante a pandemia foram viabilizadas pela Medida Provisória 936, que propicia redução da jornada, corte de salário, suspensão de contratos e realização de acordos individuais. Ora, isso fragiliza muito a negociação entre patrões e empregados, no sentido de que os primeiros têm maior margem de manobra para demitir. É uma relação (capital/trabalho) totalmente assimétrica, desigual, na qual o trabalhador tem menos poder de barganha e negociação.

Com essas demissões em massa, os trabalhadores passam a ficar disponíveis para vender sua força de trabalho como entregadores, motoristas de aplicativo, sem direitos trabalhistas e tendo que arcar com os custos de aquisição/manutenção de seus instrumentos de trabalho (aparelhos de celular, carros, motos, bicicletas). Além disso, atuam no setor de alimentos, como caixas de supermercado, atendentes, dentre outros.

Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), considerando o mês de novembro de 2021, o salário mínimo necessário para uma família brasileira viver dignamente deveria ser de R$ 5.969,17.

Então, a minha hipótese é que grande parte dos jovens está na economia de aplicativo, de forma precária e atrelada à dinâmica tecnológica, atuando também no ramo alimentício, o que evidencia a rotatividade estrutural do mercado de trabalho. Mas isso precisa ser pensado, porque, por exemplo, o empresariado, mesmo tendo subsídios do governo federal, demitiu muitos trabalhadores. Por isso que, a meu ver, é crucial forjar uma estratégia de desenvolvimento integrada, que integre a política industrial, de qualificação profissional, de regulação e fiscalização do mercado de trabalho.

Ao mesmo tempo, revitalizar a Política de Valorização do Salário Mínimo, que foi implementada em 2004 e que virou lei em 2007. Ela garantiu ganhos reais acima da inflação. Tem como parâmetro trabalhadores de diversos setores e tem um impacto direto na economia real, pois os pobres não investem no mercado financeiro, tampouco especulam em Bolsa de Valores. Segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), considerando o mês de novembro de 2021, o salário mínimo necessário para uma família brasileira viver dignamente deveria ser de R$ 5.969,17.

A tarefa é criar empregos dignos, com melhor remuneração, pois a reforma trabalhista aumentou o contrato intermitente, reduziu drasticamente os salários, precarizou e deteriorou as relações de trabalho. O trabalhador fica dependente, tem que estar à disposição do empregador e não é remunerado no período de espera. Nesse sentido, a relação é muito desfavorável aos trabalhadores, o que reforça a concentração de renda e a abissal desigualdade estrutural brasileira.

ABC - O senhor acredita que tirar as proteções dos trabalhadores não vai trazer uma melhora para o empregador?

Carlos Eduardo Pinho – Sim. Há um amplo exército de trabalhadores informais, desprotegidos, que foram absorvidos pela economia do aplicativo. Essas corporações globais digitalizadas são as maiores empregadoras na economia brasileira atualmente. Diante das profundas mudanças tecnológicas (quarta revolução industrial, robotização, automação, internet das coisas, inteligência artificial), o governo federal vive numa realidade paralela e ignora que países como EUA, China, Europa e Japão vêm reconfigurando o tecido produtivo rumo à inovação tecnológica com sustentabilidade socioambiental. Nos termos do economista José Luis Oreiro, se o Brasil não se adequar a essa nova realidade estará excluído do comércio internacional, pois as fábricas estão deixando o País.

Ademais, pensar o complexo mercado de trabalho implica numa articulação intersetorial de políticas públicas (educação, ciência e tecnologia, política industrial, qualificação da mão de obra, treinamento vocacional, desenvolvimento social e combate à fome). A política de austeridade fiscal seletiva, que beneficia grupos econômicos influentes/poderosos e arrocha o salário dos trabalhadores só agrava o quadro, já deteriorado por um regime de estagnação econômica e desmonte de políticas públicas sem precedentes em diversos setores (meio ambiente, educação, relações exteriores, assistência social).

As agências de fomento à pesquisa estão sendo estranguladas, com a política de cortes profundos, paralisando pesquisas e desencadeando a “fuga de cérebros”, ou seja, a evasão de pesquisadores de ponta que contribuem para o desenvolvimento nacional.

ABC - Alguns dos trabalhadores que foram demitidos na pandemia e migraram para os aplicativos podem não estar querendo voltar às fábricas hoje?

Carlos Eduardo Pinho – Isso é uma hipótese, eu não posso afirmar isso com contundência à luz de dados e evidências científicas, mas o trabalhador pode pensar ‘se eu voltar para a fábrica posso ser demitido de novo, caso ocorra uma crise ou recrudescimento da pandemia. Aí prefiro continuar no aplicativo mesmo'.

Falta uma política estatal mesmo, coordenada nacionalmente. Os entes federativos (estados/municípios) sozinhos não resolverão essa questão da falta de mão de obra especializada.

O caráter sazonal da economia calçadista do RS, a rotatividade estrutural do mercado de trabalho e a possível realocação desses trabalhadores nos setores de alimentos, moveleiro, dentre outros de baixa remuneração, são possíveis explicações para a falta de mão de obra no ramo calçadista.

Mas acho que isso tem que ser pensado com maior ênfase pelo setor produtivo em parceria com o Estado brasileiro, os estudiosos, cientistas, os sindicatos e os trabalhadores. Falta uma política estatal mesmo, coordenada nacionalmente. Os entes federativos (estados/municípios) sozinhos não resolverão essa questão da falta de mão de obra especializada.

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