Publicidade
Notícias | São Leopoldo Dia Especial

Para avançar em todos os dias: consciência que pulsa a memória e o antirracismo

O 20 de Novembro é uma data de reflexão, de heranças e de avançar fortemente na luta pela igualdade, que precisa estar presente todos os dias

Por Alecs Dall'Olmo
Publicado em: 20.11.2020 às 08:00 Última atualização: 21.11.2020 às 14:43

Sueli Angelita da Silva é assistente social do Núcleo de Estudos Afrobrasileiros e Indígenas (Neabi), da Unisinos Foto: Diego da Rosa/;GES/Diego da Rosa/GES
A leopoldense Mitti Mendonça, artista têxtil e ilustradora, faz um trabalho que carrega o bordado de gerações de mulheres negras. O que ela propõe e coloca em trânsito é a necessidade de respirar e de falar de poéticas negras, da memória, do afeto e da ancestralidade. Reflexões essenciais para um dia como hoje, 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. O importante dessa data é que os bordados para contrapor os discursos hegemônicos ainda constantes na história estão cada vez mais presentes a cada dia. Para espaços de mobilização e reflexões como o Núcleo de Estudos Afrobrasileiros e Indígenas (Neabi), da Unisinos, Grupo Identidade, da Faculdades EST, e o Fórum de Entidades Negras de São Leopoldo, o tempo é de força. Na verdade, tem sido há tempos e cada vez mais.

Resistência

"Nós somos a África na América, mas mesmo assim somos o lugar onde a desigualdade social tem cor. É social e racial. O movimento negro está mais visível porque mais do que nunca precisamos nos defender quando o supremacista branco pensa em nós matar abertamente. É preciso contra-atacar com o diálogo, com os conceitos, com conhecimento e, sobretudo, convocando aquele sujeito branco que não é racista rever seus privilégios e ser empático na luta contra o racismo", ressalta Sueli Angelita da Silva, assistente social do Neabi. "Quanto a questão das mulheres, elas são a resistência. Elas têm movimentado a pirâmide social por ser a base dela, especialmente no Brasil. Devido a morte da Marielle Franco (socióloga e vereadora carioca que foi assassinada numa emboscada no dia 14 de março de 2018) se acendeu um alerta necessário. Alerta para que nossa representação na política se ampliasse. Não bastava votar em quem defendia a causa negra. Era preciso votar no sujeito negro, mas aquele que tivesse sua identidade, que se reconhece como sujeito negro para fazer a diferença. E as mulheres foram a luta não só contra os racismos, mas também conta o machismo e a homofobia."

Desafios

Selenir Kronbauer Foto: Acervo Pessoal
Para Selenir Kronbauer, professora e coordenadora do Grupo Identidade, os desafios não acabam, eles se somam ao conjunto de necessidades que ainda são importantes serem destacadas e concretizadas. "Diante da atual situação que o mundo está vivendo, nós temos tentado aumentar nossas esperanças em relação a expectativa de cenários mais positivos, que possam contemplar a população negra. Que no nosso Município, por exemplo, as políticas públicas possam ser criadas para realmente atenderem as necessidades da população negra, que não sejam confundidas, pelos nossos governantes, como atividades recreativas e festivas para comemorar o 20 de novembro, mas que realmente tenham uma proposta de ação concreta para atender educação de qualidade, saúde e atendimento adequado."

Violência constante e as redes sociais

"A violência contra população negra é constante", destaca Sueli Angelita da Silva. "O racismo e o preconceito têm exterminado a população negra ao longo dos séculos. Mas isto não é novidade. Mas com o advento da Internet hoje, ele pode ser registrado e divulgado para o mundo em questão de segundos. Hoje no Brasil o racista se mostra. Não tem mais receio de dizer que é racista, pois covardemente está atrás do computador. O Brasil é um país racista. Mais racista que os Estados Unidos. O racismo estrutural não dá acesso a oportunidades para a população afrodescendente no mundo. E ele também mata. George Floyd (homem negro morto asfixiado por um policial que se ajoelhou sobre o pescoço dele, em maio deste ano, nos Estados Unidos) foi o estopim para esta revolta. E no Brasil morrem aproximadamente 12 'Jorge' Floyd por dia", pondera Sueli. Ela lembra que hoje será promovido nas redes do Neabi o lançamento da obra O Espelho Quebrado da Branquidade: Aspecto de um Debate Acadêmico e Militante, da professora Adevanir Pinheiro. O contato com o núcleo pode ser feito pelo neabi@unisinos.br.

Reconhecimento do histórico de escravidão

Mitti Mendonça Foto: Acervo pessoal
"A luta contra o racismo começa no reconhecimento do histórico de escravidão do Brasil e como a desigualdade social e econômica foi se desenvolvendo a partir disso, pois é um projeto político pensado e articulado para apagar de forma violenta e simbólica à população negra. Desta forma, mobilizar-se individualmente subtraindo pensamentos e falas preconceituosas do cotidiano, ler livros escritos por mulheres negras, apoiar a presença de pessoas negras em cargos de poder, gestão e liderança são algumas das formas de começar a exercer o antirracismo na prática", avalia a artista visual Mitti.

 

Movimentos por igualdade

Tania Maria Rodrigues da Silveira, coordenadora do Fórum das Entidades Negras de São Leopoldo (FEN), destaca que desde o século 19 vários movimentos surgiram contra a escravidão, em defesa da igualdade de direitos e contra o racismo. E que a partir de 1980 o movimento de mulheres negras começa a ganhar força. "Em 1985 no 3.º Encontro Feminista Latino-Americano, ocorrido em São Paulo, emerge a organização de mulheres negras com expressão coletiva com o intuito de adquirir visibilidade política no campo feminista", lembra. "Desde então, as mulheres feministas negras pautam a questão da quebra do silêncio como primordial para a sobrevivência. Hoje, mais do que nunca, mulheres negras precisam sair da invisibilidade e ocupar espaços de fala. Segundo o Mapa da Violência de 2018, sete em cada 10 pessoas assassinadas eram negras. Em 2019 nos casos de violência sexual, 50,9% são mulheres negras. Nas vítimas de feminicídio, 61% são mulheres negras.

E neste período de pandemia, uma pesquisa no primeiro semestre aponta que de quatro mulheres assassinadas, três são negras. E de cada cinco mulheres vítimas de feminicídio, três são negras. E 51% de casos de lesão corporal também são de mulheres negras. Nos casos de estupro 52% são de mulheres negras."

Gostou desta matéria? Compartilhe!
Encontrou erro? Avise a redação.
Publicidade
Matérias relacionadas

Olá leitor, tudo bem?

Use os ícones abaixo para compartilhar o conteúdo.
Todo o nosso material editorial (textos, fotos, vídeos e artes) está protegido pela legislação brasileira sobre direitos autorais. Não é legal reproduzir o conteúdo em qualquer meio de comunicação, impresso ou eletrônico.