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Notícias | São Leopoldo MEIO AMBIENTE

Filósofo e teólogo Leonardo Boff abrirá 1º Seminário Internacional de Mudanças Climáticas

Para Leonardo Boff, para conseguirmos salvar o planeta da destruição, precisamos lembrar que a fraternidade não existe apenas entre os humanos e sim, com todos os seres ou "vamos ao encontro de um caminho sem retorno." Leia a entrevista completa

Por Isabella Belli
Publicado em: 01.07.2022 às 18:09

São Leopoldo por meio da Secretaria do Meio Ambiente, promove junto com a Unisinos e o ICLEI, organização não governamental internacional formada pela sustentabilidade, o 1º Seminário Internacional de Mudanças Climáticas e o I Encontro Regional Sul do ICLEI.

Leonardo Boff
Leonardo Boff Foto: Divulgação

O Evento vai ocorrer nos dias 5, 6 e 7, na Unisinos, com abertura às 10h30 ministrada pelo teólogo, filósofo, escritor e professor, Leonardo Boff que também é membro da Iniciativa Internacional da Carta da Terra que tem como missão promover formas sustentáveis de vida e a integridade ecológica.

Segundo Boff, para conseguirmos salvar o planeta da destruição, precisamos lembrar que a fraternidade não existe apenas entre os humanos e sim, com todos os seres. “Chegamos a um ponto com o alarme ecológico, com a degradação do planeta, com o aquecimento global, com a erosão da biodiversidade e a contaminação dos solos, das águas e dos ares que corremos grande ameaça de nos autodestruir. Há um laço de fraternidade com os seres da natureza. Assim também devemos tratá-los, pois são portadores de direitos, bem como a Terra. Se não fizermos essa conversão, vamos ao encontro de um caminho sem retorno.” 

Veja abaixo a entrevista completa.

O senhor acredita que o ser humano está cumprindo a parte dele com o planeta Terra?

O ser humano, pelo menos o ocidental, perdeu o que chamamos de “Matriz Relacional”. Desde o advento da modernidade no século XVIII com Newton Francis Bacon e outros, o ser humano não se sente parte da natureza mas o seu “dono e senhor”. Vê a Terra como uma espécie de baú cheio de recursos à disposição da vontade de dominação e de enriquecimento humano. Com a ciência e técnica levou tão longe esse processo que devastou quase todos os ecossistemas. Chegou a criar o princípio de autodestruição com armas nucleares, químicas e biológicas. Sua vocação era ser o “guardador e cuidado do Jardim do Éden”. Mas ele o transformou num matadouro. Fez-se o Satã da Terra. Introduziu uma nova era geológica, o antropoceno, quer dizer: a grande ameaça à vida é o próprio ser humano. Ele tem que voltar a sentir-se parte responsável da natureza e da Terra. Caso contrário pode ir ao encontro do pior. A Terra continuará a girar ao redor do sol mas sem nós. Com sabedoria e mudanças substanciais podemos evitar um fim trágico.

Que relação o senhor faz entre a mulher e a mãe natureza diante do tratamento do homem?

Hoje é um dado assegurado que houve uma época do matriarcado. Isso há 20 mil anos. As mulheres organizaram a sociedade e mantinham uma profunda intimidade com a natureza, pois sentiam que tanto elas como a natureza eram geradoras de vida. Eram tempos de profundo respeito o e veneração pela Mãe Terra, tempo de espiritualidade no sentido de sentir-se ligadas à Fonte de toda vida. Por volta de 10-12 mil anos atrás os homens assumiram o poder, desbancaram as mulheres, as submeteram. Surgiu o patriarcado e o machismo predominante até os dias de hoje. Mas as mulheres, especialmente pelo eco feminismo, estão resgatando sua identidade, ajudando o homem a ser companheiro e não dominador e juntos construírem uma convivência mais cooperativa, masculino/feminina e por isso mais harmoniosa e feliz.

O que o ser humano precisa fazer neste momento para pagar a dívida que tem com a natureza?

Chegamos a um ponto com o alarme ecológico, com a degradação do planeta, com o aquecimento global, com a erosão da biodiversidade e a contaminação dos solos, das águas e dos ares que corremos grande ameaça de nos auto destruir. Como o Papa Francisco disse em sua encíclica Fratelli tutti: “estamos no mesmo barco: ou nos salvamos todos ou ninguém se salva." Hoje dois paradigmas (matrizes e modos de ver o mundo) se confrontam: o ser humano como dominas (senhor) que se sobrepõe à natureza e o paradigma do frater (do irmão e da irmã) que se sente parte da natureza. A fraternidade/irmandade não é só entre os humanos mas com todos os seres da criação. Todos temos o mesmo código genético de base, os 20 aminoácidos e as 4 bases fosfatadas. Conclusão: há um laço de real fraternidade com todos os seres da natureza. Assim também devemos tratá-los pois têm valor intrínseco, são portadores de direitos bem como a Terra. Se não fizermos essa conversão vamos ao encontro de um caminho sem retorno. Por isso temos que reflorestar, viver os três R's, reduzir, reusar e reciclar, ter um laço de amor e respeito à Terra e a todos os seres. Se assumirmos esses hábitos garantiremos nosso lugar nesse belo e pequeno planeta.

Qual a visão e a opinião do senhor sobre o aquecimento global?

O Secretário da ONU Antóno Gutérrez disse na abertura na COP de Glasgow: temos apenas 8 anos até 230 para reduzirmos os gases de efeito estufa que produzem o aquecimento global. Caso contrário o clima subirá para 1,5 ou 2 graus Celsius. Com essa temperatura grande parte dos organismos vivos não conseguirão se adaptar e desaparecerão. Milhões de seres humanos estarão ameaçados. E concluiu: ou reduzimos em 43% a emissão de gases como o CO2 e o metano ou estaremos cavando nossa própria sepultura. Há 3 semanas o IPCC o organismo da ONU que acompanha o aquecimento global afirmou: está ocorrendo uma grande aceleração do aquecimento. Talvez teremos antes de 2030 a grande inflexão e atingiremos o grau 1,5 Celsius. Seria um grande calamidade nunca vista antes. Com o já acumulado de CO2 na atmosfera não poderemos mais evitar eventos extremos, secas, enchentes, tufões. Com ciência e técnica poderemos minorar os efeitos danosos. Mas eles virão com cada vez mais frequência como vimos no Sul da Bahia, no Norte de Minas, em Petrópolis, Angra dos Reis e agora no próprio rio Amazonas. Temos que estar atentos e preparados.

Quais futuros o senhor acredita que nossa Terra pode ter?

Como nunca antes na história o destino comum nos conclama a um novo começo. Não há muita consciência das ameaças que pesam sobre a Terra. Continuamos, especialmente o modo de produção capitalista e a nossa cultura consumista a devastar a Terra. Já agora para atender nossa voracidade precisamos de uma Terra e meia, coisa que não temos. Na história sempre ocorre o inesperado. Assim penso que quando a humanidade se der conta de que pode desaparecer vai dar um salto de consciência, cuidar da Terra, ter um consumo frugal e para todos e assim poderemos nos salvar. Mas o risco permanece.

Religião, política e mudanças climáticas: existe alguma relação entre elas? De que forma as duas primeiras poderiam ajudar a impedir as mudanças no clima?

As mudanças climáticas são de origem antropogênica, quer dizer, são produzidas pelos seres humanos. Todos participam na sua criação. Também as religiões, as politicas de desflorestamento, as grandes empresas que contaminam os ares e os solos. Mas as religiões, as igrejas e os caminhos espirituais podem desenvolver nos seus seguidores a consciência da responsabilidade e o sentido de sua missão neste mundo de serem os cuidadores e guardadores desta herança sagrada que herdamos do Universo e de Deus. Como cristão creio nas palavras do livro da Sabedoria que diz: ”Deus criou todas as coisas com amor pois ele é o apaixonado amante da vida” (cap.11,26). Um Deus que é amante da vida não vai permitir que pereçamos tão miseravelmente. Continuaremos neste planeta, pois nascemos para brilhar e conviver na mesma Casa Comum, a natureza inclusa.

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