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Os desafios para quem está na reta final do terceirão

Em meio à pandemia, alunos e professores adotam diferentes estratégias para fazer o ensino acontecer. Alguns estudantes tiveram que adiar seus sonhos, mas outros mantêm o propósito de ingressar no ensino superior

Por Bruna Mattana
Publicado em: 31.10.2020 às 07:00 Última atualização: 01.11.2020 às 08:51

Daniel Schirmann acompanha os conteúdos on-line graças à Internet custeada pela família Foto: Inézio Machado/GES
"Meu sonho é cursar Psicologia. Estou me esforçando para manter uma rotina de estudos, mesmo com a pandemia, para tirar uma boa nota no Enem e conseguir uma bolsa". O relato de Daniel dos Santos Schirmann, 18 anos, estudante do terceiro ano da Escola Estadual de Ensino Médio Antônio Augusto Borges de Medeiros, de Novo Hamburgo, é o mesmo de muitos outros que estão tendo que superar obstáculos de diversas ordens - tecnológicos, financeiros, emocionais - para concluir o ensino médio e ingressar na vida universitária.

Daniel conta que, graças à Internet contratada pela família, consegue acompanhar as aulas ao vivo e estudar para o Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio, e para o vestibular, por meio de um aplicativo on-line. "Com a Internet do governo eu consigo acessar os materiais, mas ela não suporta uma aula ao vivo, por exemplo, nem pesquisas on-line", aponta.

Ele conta que fazia estágio, mas o contrato terminou em março e, devido à pandemia, não foi renovado. "Meu pai e minha mãe me oportunizaram ficar somente em casa este ano, estudando. Mas muitos colegas não tiveram essa mesma oportunidade e necessitaram abandonar os estudos para trabalhar e ajudar a família", conta. Esse é o caso de um estudante do terceiro ano do ensino médio do Colégio Vinte Cinco de Julho, também de Novo Hamburgo, que diz não ter conseguido conciliar as aulas remotas com o trabalho, devido aos horários de deslocamento. O aluno, que prefere não ser identificado, ressalta, porém, que segue estudando em casa e que, no próximo ano, pretende realizar o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) e, desse modo, concluir os estudos. "Também estou estudando Inglês, pois quero fazer a prova da Academia da Força Aérea", diz.

Daniel, por sua vez, ressalta que, caso não consiga a bolsa no Enem, pretende fazer um curso de comissário de bordo, a fim de conseguir uma colocação no mercado de trabalho para bancar a universidade.

A presidente do Conselho Estadual de Educação, Márcia de Carvalho, destaca que o órgão, assim como o Conselho Nacional de Educação (CNE), emitiu o parecer 002 (fundamentado no parecer CNE 05) reafirmando que para estudantes concluintes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio seriam necessárias medidas específicas, uma vez que para esses não há possibilidade de continuidade no ano 2021, uma vez que estão concluindo etapa. "As orientações para os integrantes dos sistemas de ensino foram dadas. Fizemos um monitoramento referente à oferta das atividades domiciliares", revela.

O mercado de trabalho para o jovem

O professor da Universidade Feevale Gabriel Grabowski diz que a procura por cursos, na sua maioria, é resultado de um processo longo, de projeto de vida e de expectativa profissional já pensada. "Se ocorrer mudança na escolha de curso será em escala ainda dentro de um padrão de normalidade. A crise e a mudança no mercado de trabalho já existia antes da pandemia, vem desde 2015 e foi forte em 2018, 2019. Portanto, a crise no mercado e seus impactos já estavam ocorrendo."

Ele destaca que os jovens já estavam impactados na sua inserção profissional, na redução de renda e nos planejamentos de formação. "A pandemia só acentuou ainda mais esta crise e estampou a desigualdade social e tecnológica", avalia. Para Grabowski, os sonhos continuaram no horizonte dos estudantes, apensar do desmonte das políticas de apoio e financiamento estudantil no Brasil nos últimos cinco anos. Sem financiamento público, como Fies, Prouni e Proies, os jovens estudantes não têm como pagar a universidade em tempos de crise econômica, sanitária e de mercado de trabalho.

Suporte dos professores ajuda

Estudante do terceiro ano da IENH, Eduarda Berlitz Kuhsler, 17, diz que a quarentena chegou em sua vida como um balde de água fria. "Toda aquela animação do terceiro ano, festas, formatura e uma maior independência foi deixada de lado, mas graças a diversos fatores, eu tive a condição de continuar meus estudos na IENH. O que ajuda muito é o suporte que os professores nos dão. Já tivemos vários encontros por videochamada, fora do horário de aula e opcional, para conversarmos sobre como estamos, o que estamos achando da carga. Em relação ao vestibular, ela conta que faz muitos exercícios disponíveis na Internet. "O bom da escola é que o professores focam bastante nas questões e provas das faculdades onde a gente quer entrar. A professora Sabrina, por exemplo, nos prepara muito bem para a Ufrgs, com as leituras obrigatórias e redações", salienta.

Maria Eduarda deseja cursar Medicina

Estudante do quarto ano do curso técnico de Mecânica Industrial da Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha, Maria Eduarda Wecker, 19 anos, não desistiu do objetivo de cursar Medicina em uma universidade federal. Ela concilia os estudos do ensino técnico com um cursinho pré-vestibular. "Está sendo um ano desafiador, mas me sinto privilegiada em ter computador, Internet. O que eu tive que lidar mais foi com a questão emocional." Na Liberato, as aulas práticas foram retomadas, presencialmente, no dia 20 de outubro.

Ela diz que, como sempre foi autodidata, se adaptou bem às aulas remotas. "Temos contato direto com os professores, que são muito acessíveis e têm pensado nas melhores estratégias para o ensino acontecer. Além disso, as aulas virtuais facilitaram sua organização. "Como não tenho o tempo de deslocamento, consigo adequar bem os horários de estudo", revela.

Maria Eduarda pretender prestar vestibular para Medicina em todas as federais do Estado, mas muitas ainda estão com suas datas em aberto. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), por exemplo, informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que ainda não houve definição sobre data da prova, nem formato em que será aplicada.

"É preciso olhar para o aluno como sujeito"

Professora de Língua Portuguesa, Literatura e Redação do terceiro ano da Instituição Evangélica de Novo Hamburgo (IENH), Sabrina Vier destaca que, primeiramente, o grupo de professores do terceiro ano se viu muito comprometido com o sujeito aluno. "Além do conteúdo, além da prova, nos preocupamos em olhar o aluno como sujeito. Olhar para a história de cada um, o processo de aprendizagem de cada estudante. Às vezes se tem aquela ideia de que todo estudante da escola particular tem o melhor computador, a melhor estrutura, mas nem sempre é assim", salienta.

Para Sabrina, na instituição a aprendizagem é entendida como algo que significa. "Nos preocupamos que o aluno possa atuar como cidadão responsável e crítico e, desse modo, vá para o ensino superior".

Nesse sentido, as aulas remotas foram evoluindo gradativamente. "A gente não saiu com 5 horas por dia de aula virtual, mas fomos fazendo um trabalho processual, de perceber como os alunos estavam lidado com isso, como a família estava inserida nesse processo."

Por isso, conforme Sabrina, os conteúdos foram sendo construídos com os alunos. "Questionamos as universidades que eles pretendiam ingressar e, com base nisso, fomos trabalhando. Posso dizer, no entanto, que todo o conteúdo do médio foi atendido, pelo menos na minha disciplina. Vejo eles super preparados para escrever, por exemplo." Ela destaca que os estudantes realizam simulados do Enem e fazem redação com número mínimo e máximo de caracteres, tendo em vista que esse é o formato das provas digitais. Na região, instituições adotarão provas nos formatos on-line e presencial, como Unisinos, Feevale, Faccat, Unilasalle e PUC.

Entre o sonho da faculdade e as tensões do novo modelo

O aluno da Escola Estadual André Leão Puente, de Canoas, Gustavo Viegas Melo, 18 anos, optou por cursar o terceiro ano novamente em 2021. "Eu prefiro a aula presencial. Não consegui me adaptar às aulas remotas e também está difícil de acompanhar, por causa do trabalho." Ele pretende adiar o sonho de cursar Fisioterapia para terminar o último ano do médio com mais tranquilidade. Já a estudante do Instituto Estadual de Educação Professor Pedro Schneider Maria Eduarda dos Santos Marin, 18, de São Leopoldo, considera que ninguém esperava as proporções que a pandemia tomou. "Eu, particularmente, não sou adepta do EAD, mas sim do presencial, com o professor frente a frente comigo sanando as dúvidas. Eu só fui me adaptar ali por setembro com essas aulas remotas", conta. Ela diz que suas esperanças de passar na faculdade federal se tornaram escassas. "Eu me sinto muito insegura para o próximo ano. Sinto medo de ter uma nota absurdamente baixa que não dê nem para ficar em suplência. Que os ensinos públicos e privados sempre foram muito diferentes não é novidade, é frustrante saber da qualidade de ensino que a rede privada conseguiu manter e como a nossa, pública, decaiu tristemente", contrapõe.

Apesar das dificuldades, dedicação total ao ensino

O diretor da Escola Estadual de Ensino Médio Antônio Augusto Borges de Medeiros, Paulo César Schleich, ressalta que houve bom retorno dos terceiros anos no modelo de aulas híbridas. "A evasão é pequena e a maioria entrega as atividades. A procura pela volta presencial é pequena por parte dos terceiros anos." Ele destaca que em torno de 20% dos alunos dos terceiros anos estão com notas baixas ou não estão fazendo as atividades, "o que é um número não tão distante das aulas presenciais", diz.

Ele diz que, neste ano, foi difícil montar uma estratégia unificada para auxiliar os alunos do terceiro. "Proporcionávamos visitações às instituições de ensino superior e palestras de orientação. Mas, com a pandemia, pouco pudemos fazer além de divulgar encontros e ações virtuais", observa.

A diretora do Colégio 25 de Julho, Janaína de Souza, destaca que o terceiro ano é o que demonstra o melhor cenário no estudo on-line. "É a turma que está participando. Os alunos estão interessados, vendo como uma oportunidade de aproveitar o conteúdo que os professores podem desenvolver. A gente está tendo uma reposta positiva em relação a eles", constata. Em relação ao primeiro ano do médio, em contrapartida, ela ressalta um número alto de evasão. Já o diretor da Escola Estadual André Leão Puente, de Canoas, Felipi Fraga, diz que a evasão foi maior no terceiro ano do turno da noite, em torno de 30%. "O processo de adaptação para ensino remoto foi desafiador, mas penso que tanto professores quanto alunos da escola se saíram bem de um modo geral. Alguns encontraram benefícios neste modelo, entretanto, é um consenso que o contato humano do ensino presencial não pode ser substituído, principalmente para os terceiros anos do ensino médio", salienta.

Reflexos da pandemia

Professor da Universidade Feevale e membro do Conselho Estadual de Educação, Gabriel Grabowski aponta que são muitos os reflexos que a pandemia deixará no ensino, a médio e longo prazo, sobretudo para os estudantes da reta final. "Alguns se manifestaram já no decorrer do ano letivo de 2020 e nas aprendizagens. Outros se manifestarão na sequência, seja com a pandemia se prolongando, seja no pós-pandemia", alerta.

Conforme o professor, este ano foi prejudicado na redução de dias letivos, na descontinuidade das aulas, na troca do presencial para o virtual e na quebra da interação e convivência entre educadores e educandos e entre os próprios estudantes. "Teremos alunos concluindo o ensino médio no prazo, que é dezembro, ou entrando até janeiro e fevereiro. Outros tiveram que interromper e buscar a geração de renda e, por isso, não concluirão o ano letivo 2020 conforme planejando. O próprio Enem foi transferido de novembro para início de 2021, que, por sua vez, impactará no acesso às universidades e no início do semestre letivo de 2021/1", diz.

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