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Tribunal da rede social

Por Débora de Oliveira
Publicado em: 21.05.2022 às 03:00

Essa semana a cantora e compositora Luísa Sonza, gaúcha de Tuparendi e que tem um trabalho de repercussão nacional, falou de situações desesperadoras de julgamento que recebe na Internet, sempre condenada ao cancelamento por suas atitudes e comportamentos e que isso a levou à síndrome do pânico, diariamente se imaginando em situação de risco de morte, enxergando perigo em tudo e todos.

Mas que cancelamento é esse que faz dessa palavra tão na moda nos dias de hoje?! O cancelamento é quando um deslize de alguém é imediatamente colocado como produto exposto na Internet e, como num passe de mágica, o tribunal da rede social passa a julgar a pessoa com conceitos de exclusão e intolerância. Ou seja: estamos sempre expostos ao que quem nos acompanha pensa sobre o que é certo ou errado, para então nos encaixarmos no acolhimento ou no tombamento?!

A expressão "cultura do cancelamento" foi eleita como termo do ano em 2019 pelo Dicionário Macquarie, que todo ano reconhece as palavras e expressões que mais caracterizam o comportamento das pessoas. Três anos depois, ela segue fortalecendo os grandes grupos de linchamento e adoecendo as vítimas dessa corrente de dedos apontados para as falhas alheias.

Uma forma agressiva e quase injusta que tem construído pessoas insensíveis e autoritárias, fragilizado jovens à mercê de críticas constantes, fortalecido perfis falsos que se escondem atrás das palavras jogadas ao vento de uma mobilização que serve muito mais para agredir do que para corrigir o que "consideraram equivocado" nas ações e reações.

Mas nós temos o direito desse julgamento desenfreado? Somos justiça para enquadrar o outro nas nossas crenças e torná-lo um criminoso da nossa contrariedade? É agindo dessa maneira que vamos chegar ao cancelado com o objetivo de fazer dele uma pessoa melhor??! A Internet tem sido um cenário vasto para cada um mostrar o que é, e que se faz com relação ao outro mostra mais de nós mesmos do que dele.

E pensar que esse movimento começou em 2017 quando mulheres vítimas de crimes sexuais começaram uma série de denúncias contra um produtor de cinema, o que levou a um dos mais sérios movimentos de impacto a favor das vítimas e contra o abusador. Poderíamos usar esse poder para mostrar coisas que antes passavam despercebidas, e hoje a indignação coletiva seria uma voz a favor da justiça com uma repercussão favorável. Mas até nisso falhamos, porque acabamos tornando desproporcional, banalizando a seriedade do caso, e ampliando para amenidades o nosso comportamento e de quem nos acompanha.

Concordo com tudo que vejo e leio? Não. Mas aí eu penso: a pessoa que está fazendo isso que não concordo está me atingindo onde? O que ela tem feito reflete em mim? Eu tenho algo a ver com isso?! Sou amiga dela e posso ajudá-la de alguma forma?! Se a resposta é não, como posso me sentir no direito de externar no universo virtual algo que possa detonar com a pessoa? Quem sou eu para julgar alguém pela minha própria conveniência e ainda levar outros tantos a pensar como eu?! Que liberdade é essa que causa tamanho impacto emocional, na reputação e na imagem de tanta gente a partir de um clique irracional de quem se julga soberano das opiniões e assim as propaga?

Boicotar o outro de acordo com nossos valores é desumano, além de incoerente. Persuadir outras pessoas a atacar alguém é uma forma injusta de justiça. Ninguém se restabelece banido desse jeito. Ao invés de cancelar, ajude a restaurar.


O artigo publicado neste espaço é opinião pessoal e de inteira responsabilidade de seu autor. Por razões de clareza ou espaço poderão ser publicados resumidamente. Artigos podem ser enviados para opiniao@gruposinos.com.br
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